Seja a força que eles não conseguem ir contra.
Raphael Rodriguez (Desenfreados - Kelly M.)
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Seja a força que eles não conseguem ir contra.
Raphael Rodriguez (Desenfreados - Kelly M.)
"O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui"
desenfreados
"o que o Callum é?"
"um demônio"
"e o que nos fazemos com demônios?"
"nos mandamos pro inferno"
"muito bem, seja a força que eles não conseguem ir contra"
KELLY M. PROMETEU TUDO E NÃO ENTREGOU NADA! RESENHA: DESENFREADOS
Nota: 1/5
Desenfreados, de Kelly M., nasceu como uma fanfic no Wattpad, onde conquistou fãs com sua intensidade, drama exagerado e um romance tóxico que se encaixava perfeitamente no estilo da plataforma. Contudo, ao ser adaptado para um livro de mais de 700 páginas, o que funcionava no formato original se perde em uma narrativa inchada, sem profundidade e com personagens que não conseguem sustentar o peso da história. Mesmo com a premissa intrigante, a execução deixa a desejar, frustrando leitores que esperavam mais.
Para começar, vamos falar um pouco sobre a obra: a história gira em torno de Ryen Rodrigues, uma jovem que, desde a infância, é apaixonada pelo melhor amigo de seu irmão mais velho, Kellan Royal. Ryen, descrita como doce, gentil e ingênua, é atraída pela aura misteriosa e sarcástica de Kellan, um garoto quatro anos mais velho, com traços de “““sociopatia””” e uma postura de indiferença cruel para mantê-la afastada. Uma tragédia abala a vida de Ryen, destruindo sua inocência e marcando sua trajetória. Cinco anos depois, ela retorna à cidade, agora fria, carregando o peso de um segredo sombrio: uma morte nas costas. Kellan, por sua vez, está determinado a desvendar os mistérios de Ryen, prometendo um jogo de gato e rato cheio de tensão.
A ideia, com elementos de trauma, segredos e um romance com potencial para ser complexo, parece promissora. No entanto, a execução não entrega o que sugere. A narrativa, que poderia explorar profundamente os conflitos emocionais e os segredos dos personagens, cai em clichês e repetições, desperdiçando o potencial de uma história que, no papel, soa como uma fanfic envolvente. Todavia, esse não é o maior problema. E, sim, a falta de substância para sustentar suas 700 páginas.
@/sketchsanmin no Instagram
A trama se arrasta em um ciclo de conflitos mal resolvidos, sem oferecer evolução significativa para os personagens ou a história. Elementos típicos de histórias jovem-adultas — como stalkers, rachas clandestinos, violência e sexo explícito — são jogados na narrativa sem critério ou pesquisa, resultando em um mundo pouco convincente e situações apelativas. A impressão é que Kelly M. tentou estender uma ideia que funcionava no formato de fanfic, mas que, como livro, carece de direção, propósito e construção de mundo.
Personagens: Um Enigma Mal Construído
Ryen Rodrigues é uma protagonista inconsistente. Seus traumas e segredos são mencionados, mas nunca explorados com profundidade. Em um momento, ela é assolada por inseguranças; no outro, se apresenta como confiante e sedutora, sem qualquer construção que justifique essas mudanças abruptas. Após 700 páginas, o leitor ainda não sabe quem Ryen realmente é, sendo forçado a preencher os vazios de uma narrativa que não se sustenta.
Kellan Royal, o par romântico, é igualmente raso. Descrito como misterioso e “inesquecível”, ele é, na verdade, inseguro e sem carisma, com invisíveis traços de sociopatia que nunca são bem desenvolvidos. Seu desdém por Ryen, que deveria criar tensão no romance, soa forçado e não evolui para algo mais profundo. A relação entre ele e ela, que prometia ser intensa e complexa, é reduzida a diálogos vazios e repetições emocionais, sem química ou crescimento que justifique o impacto pretendido.
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O único personagem que desperta algum interesse é Christian Yun, que, ofusca os protagonistas. Sua presença, no entanto, apenas evidencia a falta de desenvolvimento de Ryen e Kellan, reforçando a sensação de que a autora priorizou tropos sensacionalistas em vez de criar personagens emocionalmente ricos.
Execução: Uma Fanfic que Não Amadureceu
Desenfreados é um exemplo claro de como uma fanfic promissora pode falhar ao tentar se transformar em um livro sem a preparação adequada. A transição do Wattpad para o formato publicado exigiria um trabalho cuidadoso de edição, construção de mundo e desenvolvimento emocional, mas o que vemos é o que venho repetindo desde o início desta resenha: uma narrativa que carrega os vícios de sua origem — exagero, repetição e falta de coesão. A extensão desnecessária do livro amplifica esses problemas, e a existência de uma segunda parte, quando a história poderia ter sido resolvida em um ÚNICO VOLUME, é desanimadora.
Confesso que não sou fã do gênero dark romance, mas a curiosidade despertada pelo burburinho em torno da fanfic me levou a dar uma chance à obra, tanto em sua versão original quanto como livro. Infelizmente, a decepção se repetiu.
Respeito quem acompanhou Desenfreados desde o Wattpad e encontrou prazer na história, mas, como livro, a obra não se sustenta. Kelly M. prometeu uma narrativa intensa e emocionante, mas entregou um amontoado de clichês mal trabalhados e personagens sem profundidade (além de gatilhos desnecessários, já que o maior vilão da história tentava estuprar a protagonista ainda quando ela era jovem). Não tenho interesse em continuar com o segundo volume, mas torço para que a autora aprenda com os erros deste primeiro livro e apresente algo mais consistente no futuro.
Para quem procura um romance com personagens bem construídos e uma trama que vá além dos clichês sensacionalistas, Desenfreados não é a melhor escolha. É uma promessa que, infelizmente, não se cumpre.
Calliope Seshat, 2025