TINOCA: UMA DESLADY EM CONSTRUÇÃO
Lady Macbeth, da tragédia de William Shakespeare dará vida à Deslady, novo espetáculo de palhaçaria de Nathalia Luiz que estreia em AGOSTO. Um projeto de fôlego que ocorre por meio de um intercâmbio cultural entre a Cia dos Palhaços, a diretora Andréa Macera, que desenvolve um trabalho especifico voltado para palhaças e a assistente de direção e pesquisadora das obras de Shakespeare, Margie Rauen, além de um time poderosíssimo de mulheres inspiradoras. Conversamos um pouco com Nathalia sobre esse processo, confira o que ela tem a nos dizer na entrevista abaixo.
Curitiba Circense: Nathalia, fale um pouco sobre você: quem é você e quem é a Tinoca?
Nossa falar hoje quem é Nathalia e quem é Tinoca precisaria de algumas páginas ou de algumas horas de conversa, haha! Estou em um momento tão intenso de descoberta e imersão para cada vez ter mais claro o que sou e o que quero como artista, que isso se tornou um pouco mais complexo de responder. Mas, vamos la...
Eu sou uma pessoa que sempre busca o autoconhecimento. Sempre busquei entender o que represento nesse mundo e qual minha missão nessa vida. Porém, acredito que nesse momento estou mais madura para não só conseguir me conscientizar, mas também começar a transformar o que não quero mais! O que não faz parte desse ser! O que eu acabei carregando, mas que não é meu... Tenho me livrado de algumas culpas e alguns medos de ser o que sou! A felicidade ultimamente está em um lugar mais real e presente e não como algo intocável que parece que nunca acontece ou chega.
Nós, seres humanos, estamos sempre buscando e esquecemos de olhar para o nosso momento. Então meu grande desafio hoje enquanto pessoa e principalmente enquanto palhaça é estar presente no momento, vivendo com plenitude o estado do “aqui e agora”. Eu sou uma pessoa sonhadora! Sempre busquei realizar os meus sonhos, correr atrás do que quero! Tem dado certo!
Nesse caminho de sonhos e descobertas me encontrei como palhaça. Sinto que essa é minha missão. A de fazer algo pelo mundo e pelo outro. Mostrar através da minha arte e da minha história que nada é impossível e que somos capazes de fazer qualquer coisa e principalmente de rir de qualquer coisa. Até mesmo do que nos faz ter vontade de chorar ou de odiar... rir disso e encontrar uma saída pelo amor e pelo caminho da transformação é o que me faz continuar acreditando e tendo esperança em nosso mundo e principalmente nas pessoas que nele vivem...
Me sinto em um momento em que tenho muita vontade de estar em cena e poder mostrar mais e mais o quanto somos ridículos e humanos. E ao mesmo tempo o quanto somos fortes e potentes! Isso me faz hoje ser uma Nathalia mais determinada e uma palhaça mais livre...
Curitiba Circense: O que você pode adiantar pra nós sobre o seu novo trabalho "Deslady"?
Sinto que Deslady estava se desenvolvendo em mim há alguns anos e eu nem sabia. Fiz esse mergulho profundo em mim mesma e nem percebi que já era para chegar nos estados que tenho encontrado fazendo essa Deslady. Que horas é palhaça, outras Lady e outras Deslady. Hoje nos ensaios percebo que ela está e sempre esteve em mim. E agora está saindo. Sinto que esse espetáculo já está inteiro dentro de mim. E agora ele sai como uma borboleta que ficou presa no seu casulo e agora está pronta para criar asas e voar.
Me inspirar na Lady Macbeth, de Shakespeare, por um momento me fez pensar em desistir dessa peça. Porque pensei: “o mundo já está tão triste, tão trágico. Qual sentido de usar uma tragédia tão sangrenta em meu solo?”. Mas, aí vem a reposta: “Como artista temos um compromisso de fazer espelho para outras pessoas, daquilo que queremos dizer, que somos contra. A maldade, a ambição, o poder age dentro da gente sem que a gente perceba. Então esse lado da Lady mostra que não estou falando em cortar cabeças. Pois a morte, o sangue, a luta está em outro lugar, muito mais profundo inclusive...”
Então, entrando nesse caminho, nessa imersão em mim mesma, em outras mulheres e na escuridão... venho encontrando iluminação! E estou muito feliz porque finalmente vou poder usar a minha arte de palhaçaria feminina para ressignificar muita coisa que ainda não consegui fazer enquanto mulher! Assim a palhaça está me dando uma forcinha de não só dizer e sim de mostrar, reviver e transformar muitas histórias, muitas vidas, incluindo principalmente a minha.
Curitiba Circense: Como tem sido o processo de direção com a Andréa Macera? O que a palhaçaria curitibana pode esperar do curso dela?
O processo com a Andréa tem sido intenso, forte e principalmente com muito amor. A gente ri das nossas tragédias e se consola em uma identificação incrível. Eu tenho me identificado muito com essa mulher e com essa palhaça que é a Andréa, Mafalda. Fico extremamente grata por ter ela em meu caminho e por poder ser dirigida pelo seu olhar. Sinto-me segura e confiante e assim a minha entrega fica maior. Pois sei que estou sob um comando que me representa...
Andréa me representa! E eu quero representar um pouco dela e de todas as 12 mulheres envolvidas nessa criação. Que inclusive sou muito grata a todas elas também. Estamos todas conectadas. A Margie Rauen que faz assistência de direção e pesquisa tem sido outro grande presente tanta para mim como para a Andréa. Está uma troca muito linda, uma troca entre mulheres...
Quando cheguei no primeiro dia do curso “Palhaço um ofício” em São Paulo, o mesmo que ela dará agora em Curitiba, eu já tive a certeza que estava no caminho certo. A Andréa já no primeiro minuto do curso falou do poder que nós temos em nos mesmos. E assim fiz um paralelo: “A Lady Macbeth quer ter o poder sobre o outro. A Deslady e a palhaça quer ter poder sobre ela mesma”. Porque o poder mais poderoso que podemos ter é sobre nós. E nesse lugar está o palhaço...
Assim me sinto feliz e tranquila em deixar vir os estados, a presença e principalmente o corpo e o olhar... Porque às vezes a mente e a razão nos tiram da essência. E a Andréa trabalha em outro lugar. Vai na emoção... e isso sem dúvida da a profundidade necessária para realizar com excelência a arte da palhaçaria.
Fotos por Nick Sourient Art & Photo
Espetáculo Deslady: primeiro solo da Palhaça Tinoca.
De 10 de agosto a 2 de setembro de 2018
Sextas-feiras e sábados às 20h e domingos às 19h
Ingresso: pague quanto puder
Espaço Fantástico das Artes – Al. Princesa Izabel, 465
Macbeth é revisitado em espetáculo da Cia dos Palhaços.
Uma das peças mais marcantes de William Shakespeare, “Macbeth”, é revisitada pela palhaça Tinoca no espetáculo “Deslady”. Em um solo, a atriz Nathalia Luiz discute padrões culturais negativos que perpetuam a violência.
Idealização do projeto: Nathalia Luiz
Atuação solo: Nathalia Luiz (Tinoca em Lady Macbeth e Deslady)
Direção: Andréa Macera
Assistente de direção e Consultoria de pesquisa: Margie Rauen
Dramaturgia: Angélica R. Kauffmann
Cenografia: Guenia Lemos
Cenotecnia: Samuel Amorim
Figurinos: Fabianna Pescara e Renata Skrobot
Adereços: Renata Skrobot
Costura: Rose Matias
Preparação corporal: Marina Prado
Preparação vocal e desenho de voz: Michelle Pucci
Trilha sonora: Doriane Conceição
Iluminação: Nadja Naira
Operador de Luz: Vinícius Sant
Ilustração: Adelina Nishiyama
Direção de Produção e captação de recursos: Meire Abe
Produção: Fabrício de Angelis
Assistente de produção: Jaciara Rocha
Design Gráfico: Priscylla Nunes/PSNDesign
Fonoaudióloga: Andreia Cechin
Limpeza do Espaço: Ana Bandeira
Agradecimentos a: Beatriz Viegas Faria
Produção: Cia dos Palhaços
Apoio divulgação: Curitiba Circense
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