Por trás dos panos — e à frente deles, também
A primeira vez que tive contato com Natacha Maurer, 30, foi há um ano, quando ela me adicionou no Facebook para elogiar uma matéria minha. Eu tive a oportunidade de falar sobre o I FIME, Festival Internacional de Música Experimental (em que ela trabalhava na produção), no jornal em que eu escrevia na época — e aconteceu dela ter gostado muito da nota. Só fui conhecê-la pessoalmente, no entanto, meses depois, quando eu fui parar num evento de improviso livre, que, embora eu não soubesse quando cheguei, também era produzido por ela. Daí em diante, fui aprender que era quase impossível transitar por eventos da cena de música experimental de São Paulo sem esbarrar em Natacha Maurer. Ela viria a me contar, porém, que isso não era necessariamente parte dos seus planos originais.
Natural de São José dos Campos, Natacha é filha única de mãe solteira, tendo uma relação muito próxima com sua progenitora. “Ela engravidou com 19 anos, faz aniversário no dia 1º de junho, e eu no dia 7 de junho. Assim que ela fez 20 anos, eu nasci. Pra São José, isso era uma coisa muito 'UAU!', chocante. Ainda deve ser”, conta. As duas cresceram juntas e sozinhas — não havia família alguma por perto —, mas isso nunca foi problema. Fã de Itamar Assumpção, grande entusiasta de literatura e professora de Artes, a mãe acabou sendo uma grande influência para Natacha. “Tudo que eu sei de música e literatura eu vi com ela. Não por ela contar, mas por ela ter. Aí eu ia lá e ouvia, lia”, diz.
Sempre envolvida com artes, Natacha não demorou a procurar seu próprio estilo de música para se identificar e apreciar. Lá pela adolescência, ela começou a se envolver com a cena de “música barulhenta”, segundo ela, que se erguia em São José — guiadas, principalmente, pelo anarcopunk, hardcore e metal. “Ideologicamente, a galera não se identificava nem um pouco. Mas como o som era parecido todo mundo se juntava e [a cena] tinha umas 15 pessoas, pelo menos”, conta. O início da identificação com o que ela viria a se envolver com mais proximidade em São Paulo também começou ali: “Conheci o noise nessa época, o não-música, o noisecore. Foi quando, também, comecei a fazer aula de viola e sacar que uma galera mais experimental existia, mas não ia a fundo procurar mais sobre.”
Natacha se apresentando no ENCUN (Encontro Nacional de Compositores Universitários) de Campinas, em dezembro de 2016.
Mesmo não sabendo muito o por quê — depois da graduação, ela nunca trabalhou com nada relacionado —, a paulista se formou em Letras pela UniVaP (Universidade do Vale da Paraíba) e, sem pestanejar, escapou de São José. “Meu plano quando comecei a faculdade era: vou terminar e ir pra São Paulo. Gosto bastante da cidade, até esse ano ainda pensava se sairia daqui. Mas eu não sei pra onde iria”, conta. O início da vida na cidade, no entanto, não foi muito fácil para a interiorana. “Em São José, se você tá deprimido, você sai na centro e é certeza que você vai achar alguém na rua que você conhece. Aqui não rola isso, como as coisas são muito distantes demora pra você estreitar relações. Demorei pra fazer amigos”, diz Natacha, cujo primeiro emprego em São Paulo foi logo o de produtora.
A joseense trabalhava — e, não por mera coincidência, morava — no Ibrasotope, grande casa na Vila Nova Conceição (Zona Sul de São Paulo) que é lar para muitas apresentações de música experimental na capital. O lugar aconchegante e, ao mesmo tempo, pitoresco, foi a porta de entrada de Natacha ao mundo da arte sonora. Mas isso se tornou um pouco sufocante. “Eu morava no Ibrasotope, trabalhava no Ibrasotope, meus amigos eram relacionados a música. Eu fiquei muito dentro disso, é até meio prejudicial, porque você não consegue sair”, conta.
Não dá pra negar, porém, que o envolvimento com tal cena rendeu muitas experiências positivas a Natacha, e é fácil de perceber, conversando com a hoje produtora do grande FIME e de outra meia dúzia de projetos — que, embora menores, seguem uma onda parecida — que as manifestações de arte que ali nascem são muito queridas por ela. “O FIME é super legal, existe, que bom. Mas não existiria se não tivesse essa cena suportando isso. Se não tem cena, não tem como ter festival”, pondera.
Por estar tão envolvida com música, a produtora se interessou por começar seu próprio projeto e concebeu o Brechó de Hostilidades Sonoras, projeto musical em que toca com o músico Marcelo Muniz; um dos primeiros amigos que fez em São Paulo. A regra do Brechó é clara: nenhum dos instrumentos usados pela dupla pode ter sido comprado. “Têm que ser coisas usadas, ou doadas, ou roubadas do seu sobrinho. Só não pode comprar nada novo!”, diz.
O projeto começou em outubro de 2015 e suas apresentações são divididas em pequenas cenas interpretadas por Natacha e Marcelo — sem nunca perder o bom humor, é claro. “Eu não me levo tão a sério. Sempre gostei de circuit-bending porque tem aquela coisa dos brinquedos usados como instrumentos. A nossa estética é uma coisa meio camelô, é sempre muita tralha, tudo usado, com cara de velho”, ela conta. Recentemente, em um show feito em São José dos Campos, a dupla se declarou contra o impeachment e, numa cena que contava apenas com duas bonecas fazendo ruídos diversos, acendeu, de fundo, uma luz vermelha e colocou para tocar A Internacional (hino socialista). Deve ter sido difícil segurar o riso. “O Brechó tem a minha cara. Agora, estou tentando outras facetas, começando a tocar sozinha e com outras duplas”, diz Natacha.
Por ter sido criada apenas por sua mãe, que sempre se virou sozinha, Natacha também carrega um grande senso de feminismo em si — mesmo que ela nem sempre tenha o chamado dessa maneira. “Eu sempre achei os caras meio fracos. Mesmo adolescente, sem noção de feminismo. Nossa, os caras não seguram a onda. Eles têm toda essa ideia de que eles são foda, só que eles não são. Se você não for uma toupeira, você vai ver que eles são fracos”, ela ri. Algum tempo depois de sua época adolescente, Natacha ainda sustenta este pensamento, mas percebeu que o mundo lá fora não é assim tão fácil para as mulheres. “Quando comecei em produção, era foda os caras me ouvirem. Eu tinha que repetir ou engrossar a voz, ficar brava. Isso dá um desgaste tão grande! Você tem que provar duas vezes que você é capaz. Se fosse um cara, não teria”, conta Natacha. “Eu e uma amiga, Renata Roman, fazíamos um exercício: a gente sempre ia em shows e contava quantas mulheres tinham tocando e quantas no público. Isso sempre incomodou.”
Foi dessa ausência de mulheres na música experimental que nasceu o Dissonantes, evento em que encontrei com Natacha pessoalmente pela primeira vez. O evento acontece uma vez por mês e exige que pelo menos 50% das apresentações sejam femininas e protagonizadas por mulheres. “Apesar da gente não ter um discurso feminista verbal, ou declará-lo um evento feminista, por si só ele já é”, diz.
É empolgante ver como os projetos de Natacha levam a sua identidade leve e gregária — mas, também, firme. Dá pra dizer que eu estaria abusando da expressão "risos" se eu realmente tivesse registrado todas as vezes que Natacha riu ou me fez rir durante a nossa conversa, mas ela nunca perde de vista a segurança e senso de si mesma. Mesmo (e, talvez, principalmente) por estar por trás dos panos de eventos tão únicos, ela se torna uma inspiração pra qualquer mulher (ou pessoa) que queira trabalhar com música, ao imprimir uma parte de si mesma em cada rascunho que realiza.