aí que semana passada eu assisti whiplash.
esse tipo de filme sempre me deixa meio fuén porque sou incapaz de botar em prática essa coisa da persistência, do triunfo da disciplina. lindo conceito, porém inaplicável na minha mente. desculpa, sociedade. desculpa, pai da juno. desculpa, cisne negro(aliás, cisne negro é outro bode eterno em minha vida). volta e meia eu me torturo um pouco pela minha incapacidade de fazer planos a longo prazo, manter raciocínios lineares e gente, ontem comi metade de um bolo sozinha antes de perceber que era de figo e supostamente não como figo.
eu costumava pensar nesse traço da minha personalidade como uma falha de caráter. provavelmente fui doutrinada a pensar dessa forma. a verdade é que nunca entendi como é que num mundo tão cheio de gentes e lugares e possibilidades alguém pode escolher fazer UMA coisa. dentre tantas. dentre todas. apenas uma, e repeti-la durante todo o tempo que lhe foi destinado. fico pensando como seria viver uma existência em que todos os meus esforços convergissem para a realização de UM objetivo. não que eu tenha muita habilidade para botar objetivos em prática, cês podem ter percebido já, que rola uma dificuldade. mas UM? um é muito pouco, eu não sei lidar não.
tudo isso pra dizer que assisto esse tipo de filme e nunca sei como me sentir a respeito. por um lado que bonito você ficar aí com as mãos sangrando pra executar essa música perfeitamente, mas por outro TOCA UM MAMBO, meu filho. dá uma baquetada nesse velho demente.
don’t point your fucking finger at crazy people, mano.
mas antes de whiplash assisti factotum. porque antes disso tinha lido misto quente. e vinha pensando muito sobre obsessões. as minhas, as alheias, mas acima de tudo as ERRADAS. aqueles troços que você cisma de fazer e ainda por cima escolhe o pior caminho possível, enfim.
e o bukowski tem essa coisa paradoxal que eu gosto (contra minha própria vontade muitas vezes porque vamos combinar que ele não era nenhuma flor de pessoa): ele era muito mais obcecado, obstinado, do que propriamente disciplinado. os textos dele são aquele tumulto de idéias ruins com idéias ótimas e uns momentos simplesmente sensacionais, tudo numa página só, e me deixam com a impressão de que ele não estava tentando, estava fazendo. simples assim. e isso me reconforta de uma maneira estranha - porque quando eu tento colocar coisas em prática me perco num limbo desgraçado e sem rumo de listas das listas das listas que preciso fazer, noites viradas no planejamento de coisa nenhuma - e no final de factotum está lá o matt damon/chinaski no bar num bom momento porém depois de tomar muito no cu e recitando em off roll the dice:
if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.
do it, do it, do it.
do it.
all the way
all the way.
you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.
que é um dos meus poemas preferidos mas também um lembrete muito necessário nesse momento de que eu posso pegar mais leve comigo mesma e sair fazendo coisas em vez de pensar em querer tentar fazê-las e enfileirar o plano a, o plano b, o plano c, porque isso até hoje serviu apenas para provar que eu sei o alfabeto. agora vamos pegar uma das letras e fazer e se o resultado for uma bosta bem grande foda-se porque na real ninguém tá se importando? vamos.