A Moça-Cerejeira e o Caule de Elicriso. (Risco de Escassez)
Eu sei que não precisa de mim pra te regar os pés pois tem a água da chuva que faz isso por ti, de graça.
Mas convenhamos, não seria muito mais cômodo não ter de esperar as nuvens carregarem e se chocarem pra encharcar a terra que sua raiz abraça?
Sei que raízes secas são difíceis de aturar e pioram a cada minuto que se passa.
Então por que não aceita minha ajuda? não peço nada em troca, juro que não planejo trapaça.
Eu sei que isso soará brega pra quem nunca teve a sorte de te observar uma unica vez, mas te considero a coisa mais bela que a natureza já fez.
Por isso me dói te ver quase morrer de sede nos tempos de seca, não tem medo que jamais chova?
Se por acaso eu te perguntar isso tu provavelmente irá dizer que o que te amedronta não são as secas e sim o medo de se apegar as pessoas e perde-las.
Isso explica ter a solidão como preferência.
É tão humano se privar de ter alguém pra não perder, evitar sofrer
Ou então confiar demais e se machucar, belíssimo porém trágico.
Por isso no teu jardim não existem outras árvores que ajudem você a se sustentar, isso é simplesmente mágico.
E apesar de não ser assim tão cético, não creio que continuará em pé por muito tempo dessa maneira.
Não existe nada além de ti e suas raízes, folhas, tronco e chão.
É extremamente bela, sim, apesar de ser sozinha rouba a atenção de todos que por aquela praça passam, mas não por ser perfeita.
Em seu casco dá pra se enxergar diversas feridas de um passado que ela tanto rejeita.
É única, claro, mas o fato de um dia ter se entregado completamente a alguém e assim se ferido a assemelha a qualquer humano que nesse bairro reside.
E não duvide, pois aqui existe pelo menos uma pessoa (se não dezena) que já pulou, se jogou a seu par de tirar os dois pés do chão, confiou que ele acolheria o salto e se estabacou (de dar até pena.)
Usei de metáfora pra dizer que eu te admiro como uma árvore que colore um cidade cinza, uma jacarandá por exemplo, que ultimamente é tão raro de se encontrar por aqui em sampa, cidade que um dia encantou veloso mas hoje pouco se encontra cor, compreende o quão importante pra mim é encontrar alguém tão colorido? singular e estranhamente só.
Te conhecer me fez enxergar que existe muita cor e eu preciso me borrar inteiro das que carrega em suas folhas, é impossível ser feliz sozinho e uma hora a tristeza ira te fazer cinza ficar, por isso que em troca quero te regar.
Regar de dia para de noite colher seus frutos e assim, pouco a pouco descobrir os segredos que seus medos tornaram reclusos.
Ser teu sinônimo de confiança, melhor amigo.
Aquele que tornará suas noites infinitas, te manterá longe do perigo.
Então, moça-cerejeira, compartilharia sua alma comigo? abriria esse zíper que tem no meio dos seios e me permitiria usar teu coração como abrigo?
Ele me cabe tão bem que eu mesmo estando usado e fora da caixinha a tanto tempo, consigo me sentir intacto, novinho.
Pra ter noção, tu tem tanta influencia em mim que eu escorrego, me desequilibro e caio só de se inclinar para coçar o dedão.
Eu só preciso de uma chance, deixe-me te mostrar que posso ser o pintor de seu sorriso.
Não consigo mais suportar viver em um lugar que não seja teu jardim, prometo não ocupar tanto espaço, serei menor que um caule de elicriso.