Homenagem à Carolina Maria de Jesus
Por Régis Rocha
Saber que no Brasil houve uma mulher, catadora de papelão, moradora de uma favela em São Paulo e ainda escritora pode ser uma surpresa para muitos. No entanto, Carolina de Jesus existiu e é internacionalmente conhecida. Seu diário, Quarto de Despejo, que será analisado neste trabalho, foi o primeiro livro que ela escreveu, relatando suas experiências do cotidiano, desde as mais simples e corriqueiras até seus pensamentos filosóficos, digamos assim. Carolina cursou apenas dois anos na escola, o que foi suficiente para alfabetizá-la. No entanto, ao ler seus escritos nota-se que ela gostava muito de ler e, de fato, lia muito, chegando a dizer que “o livro foi a melhor invenção do homem”.
Inicialmente, atendo-se ao texto, podemos notar erros de ortografia que demonstram deficiência no processo de transposição fonético-ortográfico, como em: “socego”, “puis”, “cosido”, “impricar”, “inconciente”, “hontem”, etc. Fruto, é claro, de uma escolarização paupérrima e insuficiente, que, na verdade, por isso mesmo, não a desmerece e sim a engrandece. Sendo que o valor do seu trabalho também inclui essas deficiências, e foi por esta razão que o texto não foi corrigido e sim mantido ipsis litteris. Ela consegue se expressar bem e escreve em primeira pessoa, transmitindo em algumas passagens muito sentimento na escrita – o que não é tão simples de se fazer. E seu talento reside justamente aqui, no fato de conseguir transmitir em palavras experiências - densas - que de longe parecem simples e corriqueiras, mas que escritas por ela parecem tomar outra dimensão.
O primeiro aspecto que salta aos olhos do leitor ao ler o diário é a personalidade de Carolina de Jesus. Sua sobriedade, lucidez e moral é algo que, comparado ao seu meio social – bem como aos dias atuais -, destoa em muito. Dizia que não gostava de palavras de baixo calão, não bebia - principalmente se fosse na frente dos filhos -, não era dado à violência, procurando manter-se sempre equilibrada para conseguir tanto educar quanto sustentar os filhos, visto que seu trabalho exigia um dispêndio muito grande de energia. É ainda mais contraditório sua paixão pelos livros, uma vez estar em um ambiente onde tudo cooperava contra o saber, o estudo e a intelectualidade – segundo a própria autora relata - e por não possuir escolaridade suficiente que a possibilitasse adentrar no universo da cultura, da leitura. Chegando a ser quase inaceitável – aos olhos de hoje - uma catadora de papelão dizer que “gosta muito de ler” e que “o livro foi a melhor invenção do homem”. Isso pode colocar o leitor do seu diário não só de queixo caído, mas de joelhos prostrados ante a esse magno paradoxo que a vida fornece encarnado nesta pessoa. Ademais, esse gosto genuíno de Carolina pela leitura vai contra todos os argumentos que põem a escola e o meio como os fatores essenciais para o desenvolvimento do apreço pela leitura nos indivíduos. Portanto, Carolina de Jesus é uma daquelas personalidades que merecem muito ser melhor estudadas.









