Por Isabella Moreira da Silva
Embora não saiba com certeza como nasceu e floresceu o meu gosto por leituras e fantasias, lembro-me muito bem de que ele sempre me acompanhou. Muitas das boas histórias que conheço me foram apresentadas na sala de estar da minha casa, logo após o jantar, por meus bons pais e excelentes contadores de histórias, ou então ganharam cor e vida em livros abertos que repousavam na estante bem ao lado de minha cama. Mesmo antes de começar a ir para a escolinha, conhecer tantas outras crianças e aprender sobre as palavras, pelas quais continuo deslumbrada, amei os livros que minha mãe lia a meu pedido, sem ao menos reconhecer as letras ali impressas – rabiscos mágicos para mim, à época.
Pela naturalidade com que os livros são tratados em meu lar, eles sempre constituíram meu melhor passatempo; gostava de minhas bonecas, lógico, adorava brincar com pecinhas e jogos de tabuleiro com meu irmão, mas, ah!, a delícia de um bom livro em uma tarde comum! Levava um tapete para a sala ou abria as cortinas das janelas de meu quarto e lia tanto quanto podia. Aprendi, com o tempo, quais as melhores posições para se ler e como segurar os livros de modo a diminuir o reflexo da luz sobre as páginas, porque, assim, as tardes se estendiam por horas e horas e eu mal notava.
Entre minha infância e pré-adolescência, garotos e garotas tomaram vida bem ao meu lado – juro, quase pude vê-los! – para desvendar mistérios que eu nem imaginava; bruxos e bruxas conjuraram Patronus à minha esquerda enquanto deuses gregos lutaram à minha direita. Dei a volta ao mundo antes dos 12 anos com uma coleção de 52 histórias e contos de diferentes nacionalidades, ajudei 5 jovens corajosos a sobrepujarem A Droga da Obediência e outras ameaças (ah, Bandeira, seus Karas são incríveis!) e conheci um certo sítio onde viviam uma boneca de pano, uma garota do nariz arrebitado e até um Visconde! Aliás, por causa deles, um dia, há muito tempo, ouvi meus pais aos cochichos atrás da porta de meu quarto: “Essa Isa... já viu como ela viaja lendo esses livros? Parece estar em outro mundo...” – e, para ser sincera, eu realmente sentia que estava.
Depois de bem familiarizada com a leitura, de conhecer tantos outros enredos, de mergulhar nesse mundo tão rico, descobri que a caneta e o papel são bons amigos nas horas vagas. Quanto mais conheço histórias, mais tenho vontade de escrever as minhas próprias, então contos, crônicas e poesias tomam forma em minhas mãos. São Verissimo e Sabino, Lispector e Vinicius de Moraes, Jane Austen e John Harding e muitos, muitos outros, que me ajudaram a ver que as palavras, metamorfoseadas em literatura por seres criativos, são como o barro tornado em vaso nas mãos de um oleiro. Cá entre nós, bem lentamente e com muito chão à vista, tenho tentado aprender o ofício.
Hoje, quando me falta inspiração ou quando procuro uma luz sobre aquele meu antigo melhor passatempo, recordo uma das minhas mais doces lembranças: o primeiro livro que li sozinha, aos 5 anos de idade. Era O Menino Que Via Tudo Com Os Olhos Do Coração. Não me lembro bem sobre o que aquelas poucas páginas falavam, mas tenho uma ideia. Por isso, é com esses mesmos olhos que tento ver meus momentos e escrever minha maior história – a da própria vida.
Conforme os anos passam, os gostos mudam, o tempo se torna mais escasso e outras responsabilidades surgem, mas sempre há um bom livro na estante bem ao lado de minha cama, esperando ser aberto, saboreado. “Tudo começou com um sim.”, diria Clarice. Uma garota disse sim a um amontoado de páginas e palavras e nasceu a vida. Havia mesmo o nunca e havia mesmo o sim. Sempre houve. E ela disse sim.