Apartamento 101
Às vezes observo meus vizinhos. Não é sempre, não me entenda mal, não sou nenhum tipo de maníaca. Mas é que ás vezes, eu juro, só ás vezes, não consigo evitar. Acontece sempre que vou fechar minha cortina para que não me observem. Uma ironia? Talvez, mas uma ironia divertida, porque gosto de analisar meus vizinhos.
Hoje mesmo, por exemplo, vi meu vizinho do 103 jogando um daqueles jogos de tiros e sangue. Me decepcionei um pouco, achei que ele fosse mais sério, já que seu computador geralmente tem números e complicações na tela. Já ontem vi a vizinha do 201, que não saia do celular. O que ela tanto conversava? Era um romance, eu sabia. Porque ela dava risadinhas e se remexia no sofá o tempo todo enquanto digitava. Tive inveja dela no mesmo instante. Gostaria de estar animada assim por alguém... E alguém real para variar. Alguém tangível.
Tem também a vizinha do 202, que é costureira. Vejo ela sentada o dia inteiro de frente para a máquina, e imagino que roupas lindas ela faz. Quem sabe eu devesse ir lá qualquer dia desses fazer um vestido ou dois, uma blusa, ou só conversar. Ela parece uma velhinha simpática, como a minha avó. Sim, se minha avó costurasse aposto que seria como a velhinha do 202.
Mas o melhor dos vizinhos é o vizinho do 101. Ele é do mesmo andar do cara que era sério, mas que joga jogos violentos, sabe? Só que ele é completamente diferente. Ele lê. Lê muito e todos os dias, e notei isso há um tempo atrás. No começo achei que ele era como todos os outros, lendo algo para a faculdade ou simplesmente quase desistindo da leitura. Mas então ele voltou para a sacada no dia seguinte, e depois no outro, e no outro... Sempre com um livro na mão, e a partir daí fiquei curiosa. O que ele estava lendo? O que valia tanto a pena ler?
Na primeira semana eu me demorava na janela na esperança de que ele me visse. Eu não sabia o que diria, nem como diria, mas queria que ele me notasse. Depois disso, logo no início da segunda semana, tentei esbarrar com ele na rua. Prestei atenção em seus horários de leitura e deduzi que ele saía de manhã cedo, mas infelizmente era cedo demais. Na terceira semana bolei um plano infalível. Peguei uma cadeira e me sentei na sacada do meu apartamento, que é de frente para o dele, para que ele pudesse me ver lendo e se interessasse por mim como me interessei por ele. E ele me viu! Por dois dias o peguei olhando para mim e meu coração quase explodiu! Pensei finalmente ter chamado sua atenção, tê-lo feito me notar, mas a questão é que ele não apareceu mais. Nem anteontem, nem ontem, nem hoje.... Nada desde semana passada.
Talvez eu o tenha assustado, pensei. Talvez tenha invadido um espaço só seu, e agora jamais vou vê-lo novamente. Jamais vou saber o que ele lia, do que gostava, e ele jamais vai saber de mim. Uma pena. Ele parecia um cara legal e.... Calma, o interfone está tocando. Como é, porteiro? Tem alguém aí me chamando? Um moço alto de cabelos escuros.... Tem um livro na mão? Não precisa, vou descer.









