O relacionamento familiar pós-modernidade
Embora não estejam habituados à confissão deste infortúnio, adultos também sofrem os efeitos da carência afetiva. Não de modo muito distinto das crianças, demonstram-na tanto através de complicações físicas quanto psicológicas: a ausência da suplementação de afeto implica até mesmo moléstias psicossomáticas, não orgânicas - de origem psicógena -, como anorexia, úlcera e enxaquecas, além da pré-disposição a males como gripes. Uma vez clara a reação do ser humano perante a ausência da confirmação de afeto no campo das relações interpessoais, constata-se, logicamente, a necessidade de reeducação e preparação dos indivíduos sociais para o relacionamento sagrado que se deve estabelecer no seio das famílias. Todos os elementos da esfera humana surgidos com o advento do modernismo parecem trabalhar contra a segura ordem familiar. Após a era moderna, o ser humano, em vez de evoluir, mostrou-se farto da obsessão pela excelência sustentada por suas gerações passadas e procurou a involução através da reaproximação de sua racionalidade e de seus instintos, o que o levou a atuar na sociedade sob uma perspectiva hedonista. Compromissada apenas com a satisfação de seus desejos instintivos, quase sempre relativizando a importância do cumprimento de tarefas e deveres julgados retrógrados, a humanidade adquire um caráter surpreendentemente mais frio enquanto busca por relações mais quentes. A razão para o fenômeno explicitado é a de que já não há a preocupação com a qualidade do calor presente nos relacionamentos travados em sociedade, mas tão somente com a temperatura que os inicia. Dado que esta independe de seu tempo de duração até a consumação de sua existência, no afã de abandonar suas formalidades diplomáticas, a ordem que julgou ultrapassada e a qualidade de seus envolvimentos, o ser humano passou a caminhar, a passos largos, para a autodestruição. Não há equívoco: caso se observe o curso natural até a extinção que seguem as espécies, essa ideia apocalíptica não parece, nem à distância, absurda - muito antes disso, em verdade, declara-se inevitável. A crença de que os resquícios de ordem familiar natural existentes sejam consequentes de quaisquer fatores além dos religiosos é, mais do que simplesmente equivocada, ingênua. O materialismo e o cientificismo, ao contrário do que se imagina, são muito mais favoráveis à destruição de relações duradouras e sólidas do que da manutenção do conceito de família - instituição, a propósito, responsável pela sobrevivência da espécie humana -, já que sua fase neológica é aliada ao modernismo na tarefa de desconstruir os padrões sociais e culturais vigentes. Os modernistas, do topo de sua arrogância natural, não conseguem conceber que a questão familiar visa muito mais o bem da espécie humana como um todo do que a reflexão em um capricho opressor, cruel e burguês. Todo indivíduo que almeje o desprendimento de padrões seguros, eficientes e eficazes por simples desejo de inovação, sem se preocupar devidamente com as consequências de suas escolhas desbravadoras, termina por constituir o elo fraco da corrente existencial humana, muito embora acredite ser o fator de providência do progresso. O progressista que se importa apenas com essa característica de seu caráter, de maneira lógica muito sarcástica, consiste não mais em um progressista, mas em um suicida delirante, eternamente enclausurado em sua esquizofrenia ideológica. O homem, como ser de interesse de sua espécie, precisa voltar sua atenção à necessidade de estabelecer laços firmados em afetividade segura, calor de qualidade, emoção e razão imaterialista. Somente dessa forma, a espécie pode contar com a ideia de um futuro, de fato, promissor. É de suma importância que se desfaça a busca desenfreada pela destruição da ordem familiar vigente. O seio das famílias, para que estas sejam duradouras, produtivas e frutíferas, precisa estar impregnado de amor, companheirismo, fraternidade, caridade e sabedoria. Os valores religiosos, principalmente os cristãos, são os únicos elementos do mundo ocidental capazes de reparar a carência que se apoderou da alma da sociedade e que a está ruindo de pouco em pouco - talvez, para desespero de quem se preocupa com a vida, de muito em muito.










