Ēnaŧa (Enatha) → エーナサ /ˈeːnɐθɐ/
Sīra (Syra) → スィーラ /ˈsiːɾɐ/
O ritual estava feito. Aqui, naquele quarto antigo onde ela deu seu último suspiro. Seu corpo enterrado no seu jardim de camélias brancas, mas seu sentimentos, vivos. Eles pairam pela casa como pipas, puxadas em direção ao quarto. Este velho, vazio e vago quarto.
Ao apagar da última vela branca, a leve fumaça circula o quarto como um redemoinho. O cheiro de camélias invade o cômodo de janelas e portas fechadas. "É ela. É Enatha" pensei.
Chamei seu nome, mostrei seu colar preferido, me apresentei e pedi pra que falasse comigo. Fui deixada no silêncio turbulento daquele quarto abafado. "Enatha eu sei que é você. Fale comigo, por favor!" Suplico em vão. Enatha não se mostra, mantém-se quieta, como o seu corpo, que agora nutre suas amadas camélias.
De súbito, um som estridente de frágil porcelana, quebrada o ser jogada ao chão, me estatela. Era a xícara de Enatha, deixada em seu mesaninho após sua morte. Ela era decorada com o Sol, ao leste, e a Lua, ao oeste. A xícara quebrou o Sol e a Lua ao meio, deixando sua asa em um caco e seu oposto no outro.
Ao coletar os dois cacos, perfeitamente separados, sem estilhaço, tento unir as metades do Sol e da Lua mas fui detida. Detida pelo frio, frio que veio de fora do meu corpo, subindo pelas minhas mãos até o meu punho. Um frio assombroso, mas de toque gentil. Enatha. Suas não-mais-mãos sempre frias me tocavam, ergo minha cabeça, antes reclinada olhando em assombro para os cacos da xícara em minhas mãos, agora olhando para o espelho. Quem me olha não é o meu reflexo, é Enatha, segurando a xícara exatamente como eu, vestida com seu vestido se estrelas, costurado pela nossa querida bisavó, de olhar serene mas vazio.
Me aproximo do espelho para ver mais uma vez a face de minha querida prima. Sua pele da cor de canela, seus cabelos negros como a noite, seus olhos da cor do âmbar. Eu me aproximava do espelho, e seu reflexo, de mim. Eu olha do em seus olhos, mas ela olhando ainda para os cacos de sua amada xícara.
"Enatha, prima, sou eu. É a Syra." Digo na intenção de chamar sua atenção. Enatha finalmente erge o olhar, ainda de olhos vazios, mas olhando em minha direção. "Me desculpe por te incomodar. Eu só não posso continuar vivendo sem saber quem fez isso com você, Enatha. Minha prima querida, por favor, me diga quem te matou."
Enatha fixa seu olhar em mim. Ao mencionar sua morte, sinto que todo o universo ao meu redor pesa, se contorce e me esmaga. Como se a gravidade do mundo se concentrasse aqui, nesse quarto. Mesmo com todo esse peso, esse sufoco, esse aperto incomum. Não consigo deixar de olhar fundo nos olhos de Enatha, minha prima no espelho.
Algo dança dentro de sua pupila. Sua íris, antes alaranjada, agora era fria, escura, com estrelas dançantes coloridas, como se seus olhos viraram um encantado céu noturno. Algo em mim era puxado pra dentro dos seus olhos. Ao mesmo tempo que sentia terror, o verdadeiro pânico, também sentia a calmaria de uma noite de inverno.
Quanto mais olhava para os seus olhos, menos medo, mais paz. Eu sentia o cheiro de suas camélias, que se misturava com o cheiro de seu chá preferido. Chá preto com canela e cardamomo. Aos poucos minha visão ficava turva. Só via seus olhos noturnos e todo o resto, escuridão.
Por um segundo, pisco para aliviar meus olhos cansados, e me vejo longe do quarto em que estava agora mesmo. Sentada numa cadeira de madeira, descalça, sentindo a grama que aparecerá mágicamente tocando meus pés. Em minhas mãos, algo quente, com cheiro de canela e cardamomo. Olho para o meu colo, onde minhas mãos descansam uma xícara com um Sol estampado ao leste, e uma Lua, ao oeste.
"Esse é o meu lugar preferido em todo esse mundo, dentro do meu coração." Escuto a voz de Enatha vindo da minha esquerda. Me viro para vê-la, e lá está. Minha prima mais nova. Radiante em seu vestido de estrelas, segurando sua xícara com um Sol, ao oeste e uma Lua, ao leste.











