o primeiro texto depois da partida
jurei depois de centenas de mágoas que jamais voltaria a escrever, jamais voltaria a pensar em metáforas e efeitos especiais para as dores que eu sinto
mas o real motivo de ter parado de escrever foi a dúvida entre pagar uma compra no débito ou no crédito, as horas que eu perco no engarrafamento, xingando as pessoas da minha frente
o real motivo de ter parado de escrever foi chegar em casa cansado, ler as notícias do dia com um real despreparo psicológico, assistir às novelas, torcer para a comida não estar vencida dentro da minha geladeira e preparar alguma coisa para jantar, porque acho a comida da cozinheira péssima, mas ela é de confiança
e eu também não tenho dinheiro para contratar outra. aliás, eu não tenho dinheiro para muitas coisas. eu não tenho dinheiro para pegar meu carro, encher o tanque e viajar, eu não tenho dinheiro para ir à praia aos domingos, não tenho dinheiro para comprar um bom perfume, não tenho dinheiro para comprar livros toda vez que vou ao shopping, tenho contas para pagar todo santo mês, água, luz, telefone, internet, cobrança de delivery
tenho minhas obrigações com meus estágios, tenho pessoas que dependem de mim, não posso faltar aula na universidade, não posso mais entregar trabalhos em cima da hora, não posso mais sair pra beber quando as aulas terminam porque preciso voltar de carro para casa
porque tenho medo de ser assaltado (de novo) estando bêbado
todas essas coisas não são interessantes o suficiente para garantirem um bom texto, e eu não tenho talento suficiente pra isso, eu não tenho mais a coragem de tirar alguma metáfora disso tudo, é aquilo que é e acabou, são números, prazos, tarefas, sexo, suor, tabelas, arquivos, pastas, junk food, desamor.
e durante muito tempo eu venho sendo isso: adulto
venho sendo o cara que torce por um pouco de sossego aos fins de semana, que coloca seis alarmes por dia para não se atrasar, que se preocupa com a alimentação e com a quantidade de açucar da coca cola
venho sendo esse tipo de cara, realmente cinzento, de fato cinzento, absolutamente cinzento, da cor do concreto que passa batido todos os dias na cidade grande, da cor das colunas que estão lá para sustentarem os prédios (o peso)
e por que voltei a escrever? honestamente, não faço ideia. não sei se posso chamar de regressão, ou paixão pela escrita. definitivamente, não é uma coisa e nem outra. talvez um tédio absoluto.
eu preciso falar dos olhos lindos de pessoas desconhecidas da rua (passo mais tempo com eles do que com aqueles que já conheço), preciso falar das pessoas que esperam na fila do banco junto comigo, preciso falar do vazio (antes incômodo, agora essencial) depois de uma noite de bebedeira, preciso falar sobre o fato de ter me apaixonado diante dessa ausência de caos.
preciso falar sobre a saudade que eu sinto da minha vida, mesmo estando vivo. da vida que eu levava ao chorar por alguém estando sóbrio, das dores imaginárias, das besteiras que anteriormente eu escrevia e que agora já não fazem o mínimo sentido. das mudanças, é preciso falar de mudanças. é preciso falar sobre o processo de invisibilidade. sobre o processo de como cheguei até aqui mantendo a sanidade mental mesmo com toda essa solidão universitária, mesmo com as névoas da morte cada vez mais perto, mesmo com as cores perdendo o brilho, cores que antes eu nunca dei valor
nunca fui cinzentos, nunca. agora, sou. não que isso seja absolutamente depressivo, mas é preciso que alguém fale sobre fazer parte do mundo, e não ser o próprio planeta, o próprio ecossistema, alimentando-se com minutos de boa música, três doses de álcool e um pouco de romantização do sofrimento. não quero mais escrever sobre essas coisas.
quero escrever sobre o hoje, sobre os olhos que me encantam hoje, apesar de tudo, sobre a vida que me suga, eu preciso resgatar um pouco de mim, um pouco do cara cinzento, um pouco do cara frio e crítico, um pouco o cara feliz
eu preciso resgatar o amor que agora está nos becos que eu evito, nas filas de engarrafamento, nas músicas com letras duvidosas
preciso resgatar o que sempre foi meu: a capacidade, diminuta capacidade, de perceber que eu existo, mas que tudo bem não gostar de existir a maior parte do tempo. e perceber que chorar por nada é a mais legítima demonstração de que estou crescido, e que tudo bem estar crescido demais para um corpo que é concreto demais.
escrever, agora, é um novo tipo de engarrafamento, apenas.
uma mensagem triste sem pedido de socorro
(cin)