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CAPÍTULO I
Listen to the heart de Roxette toca mesclando-se às conversas nas outras mesas. Violet Foster ergue os olhos para o relógio de parede acima da entrada pela milésima vez. Não conseguia agir com muita paciência quando o assunto era esperar, e mesmo que estivesse aproveitando os minutos à mais para pensar em argumentos para ficar com Khan, o golden retriever de seis anos completamente mimado, e o carpete peruano, ainda não conseguia conter a raiva que nutria dentro de si.
O café já parecia nutrir suas células, sendo transportado pelo sangue como o próprio oxigênio. Estava na terceira xícara desde que sentou-se no banco de couro preto, quase uma hora antes.
Já passava de uma da tarde quando finalmente recebeu uma ligação de Dex, o seu novo parceiro, com quem quase discutiu mais cedo por ele simplesmente parecer não querer deixá-la resolver as coisas. Ele estava quase tão detestável quanto o seu ex, Liam, mas como poderia? Não existia nada mais irritante do que o ver perambulando pelo departamento de polícia como se tivesse a banca toda. Uma coisa ela não podia negar, Liam Payne era muito bonito, um colírio para os olhos. E a voz rouca, a postura de quem sabe o que está fazendo, a confiança que emana quando interroga alguém...
— O que você quer, Dex?
— Desculpe incomodar, Foster. — Ele sussurrava. — Preciso que você apareça pra ontem.
— Eu ainda não posso, eu…
— Violet. — A voz agora é de Liam.
E embora tenha sentido uma pontada de surpresa, não segurou o rosnar quando respondeu:
— Você esqueceu alguma coisa?
— Não. — Ele cospiu do outro lado da linha. — Precisamos de você aqui. Depois falamos sobre isso.
— Liam.
— Agora, Violet.
Dos oito anos que passaram juntos, sendo seis deles casados, foram poucas as vezes em que Liam havia falado dessa maneira. Estava sério, quase hesitante em levantar a voz. E isso a motivou a levantar da cadeira antes mesmo da ligação encerrar, com a chave do carro na mão direita, enquanto a esquerda lança uma nota generosa de dinheiro na mesa por serviço nenhum.
A cidade de Plater é pequena, com um único departamento de polícia, divindo a Central com outras duas cidades vizinhas. Foi entrando para a polícia que conheceu Liam Payne, seu parceiro. Faz oito anos. Antes, o romance, o apartamento no centro, a coleção de plantas na varanda… Tudo o que parecia ser forte e real despedaçou-se em questão de meses, e a quase década de estabilidade tornou-se ruína antes que pudesse perceber. Tudo o que precisava agora era de Khan. E, claro, o maldito carpete peruano.
Já não morava no mesmo apartamento: conseguiu outro à duas quadras de distância, no tamanho ideal. Pequeno. E sinceramente não fazia questão de qualquer móvel que estivesse com o ex-marido. Até porque isso exigiria mais contato com Payne, e isso estava fora de questão.
Ignorando a rixa com o ex, seguiu caminho até o departamento de polícia em silêncio. Movida à curiosidade, longe de Foster ser submissa. Na verdade, tinha pavor da submissão feminina imposta pela sociedade. O que deve ser salientado: Violet Foster, aos trinta e dois anos, poderia ser classificada como uma mulher de sucesso e feminista assídua, do tipo que não aceita que levantem a voz ou interrompam-na em seu discurso.
Do tipo que até o mais machista dos homens respeita, como foi assim que entrou no oco do departamento, parcialmente molhada pela garoa fria de início de tarde. Notou que os poucos oficiais silenciados estavam de olhos arregalados. Então continuou andando.
Liam estava no escritório do sargento acompanhado de Dexter, um ex-bombeiro atrapalhado que o enchia de perguntas por não ter tanta experiência na polícia. O sargento, beirando os cinquenta e cinco, observou a mulher entrar apenas levantando o olhar. As sobrancelhas grossas já grisalhas ergueram-se minimamente, e só depois de uma longa pausa, iniciou a sua fala:
— Foster. — Ela assentiu como um cumprimento silencioso e prático. — Não sei se está ciente do Colecionador.
— O caso do Payne? — Desdenhou. É claro que lembrava. Há alguns meses, ele só conseguia falar sobre isso no jantar e em todos os outros momentos que passavam juntos. Isso, é claro, quando não estavam brigando.
— Agora não é mais do Payne.
— Eu tenho doze casos, ele só tem esse! — Tomou cuidado para não aumentar o tom. — Senhor...
— Terá treze, então. — Deu de ombros o sargento. Antes que ela pudesse retrucar, ele ergue a mão direita aberta, silenciando-a: — Acho que você vai querer saber porquê, Foster.
— Sim, eu vou. — Cruzou os braços sentando-se numa das cadeiras livres.
— Encontramos o homem que procurávamos.
— O Colecionador?!
Era impossível, ela sabia. Vira o dossiê da incógnita que assombrava a cidade inúmeras vezes.
Isso porque foram encontrados corpos de homens e mulheres com intervalos não regulares. O padrão do Colecionador, qual fez a polícia acreditar de que se tratava de um assassino em série, foram os perfis das vítimas. Todas solteiras, muito bem limpas depois de mortas e sempre numa pose cuidadosamente feita.
A primeira vítima foi um homem de quarenta e dois anos, encontrado próximo ao rio das laranjeiras, ao oeste de Plater. Estava com um corte profundo na garganta, mas sem qualquer mancha de sangue em suas roupas secas e perfumadas. Os olhos e a boca dele estavam cuidadosamente costurados, com algodão dentro de suas narinas e ouvidos. O corpo estava sentado, com as costas apoiadas no tronco de uma laranjeira velha. Pela calcificação dos ossos e o sangue completamente coagulado em suas veias, a perícia confirmou que já fazia pelo menos um dia de sua morte. Foi identificado como Juan Solano, um imigrante estabelecido na cidade há dez anos.
Quase dois meses depois, outro corpo foi encontrado. Outro homem, quase da mesma idade, com o rosto completamente deformado, sem a arcada dentária, olhos e digitais de mãos e pés. Tinha vários cortes no abdome, além de um traumatismo craniano escondido por uma peruca de cabelos naturais ruivos. Estava embaixo de um viaduto, próximo à um penhasco no limite entre Plater e Red Mountain. Debruçado sobre a grama pálida e seca, com os braços dobrados sob a cabeça, como se dormisse profundamente e em paz. Suas roupas também estavam limpas e perfumadas. Não foi identificado.
Liam foi o encarregado por já ter solucionado o caso de algumas mortes brutais à homens, que ocorreram dois anos antes. O interesse de Foster, porém, mantinha-se longe. Até a terceira vítima aparecer. Uma adolescente de quarenta e cinco quilos, apenas quatorze anos, que morava a apenas uma quadra de distância. Melanie Cortez não chegou ao seu destino naquela sexta-feira, quando deveria ir para uma festa do pijama de uma amiga do mesmo bairro. Apareceu apenas na madrugada do sábado, dentro de uma lata de lixo vazia. O corpo agachado com as pernas flexionadas, as mãos coladas ao metal, como se ela estivesse escalando a lata para sair. O rosto escondido entre os ombros, como se olhasse para baixo.
A mãe disse que a jovem saiu de pijamas, mas Melanie foi encontrada com um vestido limpo e perfumado, quase duas vezes o seu tamanho. Os cabelos loiros lisos lavados, presos num rabo de cavalo perfeito. Se não a tirassem dali e estirassem o seu corpo numa maca, antes de empacotá-la como qualquer outro corpo sem vida, não conseguiriam ver o grande corte que rodeava a sua garganta. Sua boca e olhos estavam costurados, bem como o nariz e ouvidos tampados com algodão.
A mensagem foi clara por todos os lados: não saiam desacompanhados. Não confiem em estranhos. Não deixem os seus filhos saírem à noite. Tranquem as portas e janelas.
Até que mais oito vítimas apareceram. E continuariam a aparecer, pensava Foster. Até o sargento completar:
— O assassino está na sala de interrogatório.
— Ele simplesmente confessou? — Balbuciou incrédula.
— Não exatamente. — Disse Liam, aproximando-se com fotos nas mãos, quais jogou no colo de Foster com imagens de mais uma vítima. — Encontramos ao lado da última vítima, provavelmente limpando a cena.
Depois de quase um ano sem deixar vestígio, como a própria sombra? Não fazia sentido.
— Ele estava com as chaves de um chevrolet, que encontramos não muito longe da cena do crime, com roupas limpas e perfumadas, masculinas e femininas, além de materiais de limpeza, luvas cirúrgicas...
— Como chegaram a cena? — Interrompeu ela.
— Uma ligação anônima sobre uma movimentação estranha na estrada de pedras.
— Mas tem moradores ali?
— Foster. — O sargento interviu. — Também achamos estranha a situação, mas queremos investigar a fundo tanto quanto você.
— Se o cara está do outro lado do corredor, algemado, com tantas provas, por que estamos tendo essa conversa mesmo? — Ela quis saber.
Payne e o sargento se entreolham, enquanto Dex suspira pesadamente se retirando da sala.
— Digamos que ele...
— Ele quer falar com você, Foster. — O sargento interrompeu Liam, impaciente. Violet se sentiu ainda mais confusa.
Naquele instante, uma onda fria passou pela sua espinha, arrancando um pesado suspiro que mais parecia emanar do canto mais profundo de sua alma. Engoliu a sensação em seco. Como ele podia conhecer sua existência para exigir algo daquele tipo? E por quê?
— Você pode se recusar, se quiser. — Disse Liam calmamente, aproximando-se por um passo. Flexionou as pernas, chegando a altura de Violet sentada. — Estamos com todas as provas suficientes para prendê-lo. Para dar um fim nisso. Você não precisa ir. Mas... Se você realmente pensa como eu, e sentiu que alguma peça está errada nessa estranha sorte que tivemos hoje...
— Eu vou.
Dorama: Enquanto você dormia
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