Assim que cheguei à minha nova casa me peguei pensando naqueles grandes olhos verdes que me encaravam e a maneira como me fizeram sentir. Com o intuito de tirá-lo da minha mente eu balancei a cabeça, porem, foi em vão. Insistência é o meu maior defeito, então insisti em tirá-lo mesmo que meu coração lutasse contra a minha consciência. Julguei-me por estar pensando em olhos que nem mesmo sabia de quem eram. “malditos capacetes”, pensei.
Percebi que ficar parada não iria ajudar em nada tirar toda aquela baboseira da cabeça, então com um impulso me levantei da cama e fiz um coque rápido no cabelo encarando as malas que ainda estavam jogadas no chão. Eu iria demorar dias para guardar todas aquelas roupas, a não ser que eu tivesse uma ajuda, logo o meu querido irmão veio no meu pensamento.
Calcei meus chinelos e ajeitei meu short, saí do meu quarto e parei na porta analisando toda a casa. Apesar de ainda estar tudo desorganizado, a casa era bonita e bem espaçosa, pensando nisso eu coloquei a mão sobre o meu peito, suspirei fundo e torci para que dessa vez realmente fosse tudo diferente.
Dei mais alguns passos tentando encontrar o meu irmão, caminhei até seu quarto e bati levemente na porta, esperei durante alguns segundos e escutei uma voz familiar e bem distante dizendo:
- Já sei que é você Lu, pode entrar – abri a porta e encontrei o Lorenzo deitado em sua cama espaçosamente enquanto trocava os canais da televisão a cada cinco segundos. – Nessa televisão não tem nada que preste – ele reclamou.
- Mal chegou e já está reclamando – eu disse fechando a porta e caminhando até sua cama – Mas não sei por que estou impressionada, isso é mesmo muito típico – sorri tentando provocá-lo
- Vai à merda, garota – ele me olhou e fez cara feia, logo depois virou para a televisão e voltou a mudar os canais.
- Lorenzinho, você já acabou de arrumar suas coisas? – tentei fazer uma voz fofa, mas quando escutei a risada do meu irmão percebi que falhei na tentativa
- Que voz ridícula foi essa? Porra, Lu. Fala logo o que tu quer – ele falou ainda olhando diretamente para a televisão.
- Me ajuda arrumar minhas coisas? – perguntei enquanto deitava no seu peito
- Poxa, Lorenzo, por favor – eu implorei
- Só te ajudo se você me contar qual carro escolheu para o papai me dar – ele sorriu
Lembrei-me do dia que eu e o papai saímos e fomos a uma das concessionárias do Rio de Janeiro em busca de um carro para o meu irmão, papai pediu minha ajuda, pois eu era a única que conhecia Lorenzo o suficiente para saber qual carro iria agradá-lo. Demorei durante algumas horas para escolher, mas assim que bati os olhos em um range rover preto não tive mais minhas dúvidas, aquele era o carro dos sonhos de qualquer pessoa e principalmente do meu irmão. Apontei para o papai mostrando aquele carro maravilhoso na minha frente, ele reclamou do preço, mas no fim acabou cedendo.
- Eu não vou te falar, Enzo. É surpresa – olhei para ele com um sorriso de canto – Mas tenho certeza que você vai adorar e irá me amar para o resto da vida.
Lorenzo pegou uma almofada e bateu na minha cabeça.
- O que você está fazendo comigo se chama tortura – ele apertou minhas bochechas – me diz pelo menos que dia chega? Por favor.
- Se eu te disser que dia chega você me ajuda arrumar minhas coisas? – perguntei
- Ajudo – ele disse voltando sua atenção totalmente para mim.
- Chega hoje de tarde – pisquei para ele
- Você está falando sério? – ele perguntou enquanto abria um sorriso enorme
- Estou! Agora vamos para o meu quarto e faça cara de surpresa quando o carro chegar – levantei da cama e fui em direção a porta
- Combinado. Você é perfeita Lu, perfeita – percebi que sua voz estava mais animada que o normal.
- Você é um babaca – eu ri
- E você é uma princesa – ele disse e me pegou no colo.
- Lorenzo, me coloca no chão agora! – eu ordenei.
- Não, a vossa alteza merece todo mimo possível – ele falou enquanto ria, me levando em direção ao meu quarto
Assim que entramos no quarto o Lorenzo me colocou deitada na cama, logo depois abriu minhas malas e começou a guardar as roupas, ele estava bastante feliz por descobrir que seu sonhado carro chegaria de tarde, tanto que não me deixou ajudá-lo na arrumação.
Ficamos durante horas no quarto enquanto meu irmão arrumava tudo para mim. Assim que ele terminou, nós fomos atrás da Laura para brincarmos com ela. Ficamos a tarde inteira variando entre brincar com a Laurinha e jogar Xbox, nossos pais tinham saído para resolver alguns problemas da empresa e acabamos ficando sozinhos, como sempre.
Já eram 5:00pm e o Lorenzo continuava inquieto, andava de um lado para o outro, me amolava, amolava a Laura, ia na cozinha, abria a geladeira diversas vezes e não voltava com nada nas mãos. Finalmente depois de um bom tempo ele se sentou ao meu lado na sala, mas ainda demonstrava estar hiperativo, pois não parava de bater os pés.
- Será que dá para você parar? – perguntei demonstrando impaciência
- Será que o carro vai demorar a chegar? – ele me olhou aflito e eu comecei a rir
- Se acalme, papai com certeza vai trazê-lo quando vier para a casa – eu falei, levantei do sofá, sentei no tapete com a Laura e comecei a mexer no seu cabelo.
- Ok, vou tentar! Luísa, você já avisou para a Isadora que chegou? – ele perguntou e só então me lembrei que havia me esquecido de mandar mensagem para ela.
- Eu esqueci. Joga meu celular que está ao seu lado aí para mim – apontei com o dedo para onde meu celular estava e no mesmo segundo ele me entregou.
Mandei mensagem para a minha prima avisando que tinha chegado e logo depois coloquei meu celular em cima de uma mesinha. Amanhã seria meu primeiro dia de aula e quando a ficha caiu comecei a sentir um pequeno frio na barriga. Passaram-se algumas horas e finalmente meus pais chegaram e trouxeram o carro do meu irmão. Assim que Lorenzo viu aquele carrão parado na garagem abriu o maior sorriso bobo e correu para me abraçar. Depois de Lorenzo e eu darmos algumas voltas de carro na cidade, voltamos para casa. Assim que chegamos nós jantamos e eu fui direto para o meu quarto. Tomei um banho demorado, vesti meu pijama, deitei na minha cama e peguei meu celular. Isadora havia me respondido a mensagem e pediu para nos encontrarmos amanhã na frente do portão da escola para que pudéssemos entrar juntas.
Fechei meus olhos e comecei a relembrar tudo que havia acontecido nos últimos dias. Enquanto eu vagava nos pensamentos meu sono começou a tomar conta de mim e antes que eu pudesse dormir senti alguém me dando um beijo na testa e automaticamente abri meus olhos.
- Lu, desculpe, não queria te acordar – Lorenzo fez cara de cachorro sem dono e eu fui obrigada a rir.
- Está tudo bem, eu ainda não estava dormindo – disse tentando amenizar sua culpa
- Quero te agradecer pelo carro – ele sorriu e sentou no canto da minha cama
- Você tem que agradecer ao papai, ele que comprou
- Mas você que escolheu. Obrigado por me conhecer tão bem, tampinha – ele deu um peteleco na minha cabeça e eu dei um tapa em seu braço – Ai!
- Foi merecido – sorri – Lorenzo, me leva na escola amanhã?
- Claro que sim, já tínhamos combinado isso.
- Quero que você entre comigo e me leve até minha sala – falei enquanto tirava o cobertor de cima de mim.
- Bebezona. Eu entro com você sim e te levo na sua sala, mas não se acostume – ele apertou minhas bochechas – Lu, posso dormir aqui com você?
- Não – gritei – Você mexe muito de noite
- Ah, por favor, só hoje – ele fez bico e eu revirei os olhos
Lorenzo deitou e se cobriu, eu deitei ao seu lado e encostei minha cabeça em seu peito, fechei os olhos e acabei adormecendo.
Acordei com meu celular despertando, espreguicei e vi o meu irmão ao meu lado, ele estava todo esparramado na cama.
- Lorenzo, acorda – balancei-o enquanto ele fazia alguns murmúrios. – Anda!
- Só mais um minutinho, Lu – ele implorou
- Está na hora de você me levar na escola, levanta, por favor – tirei o cobertor de cima dele e ele com muito custo se sentou na cama
- Já está na hora? – Lorenzo passou a mão pelo rosto e bocejou
- Sim. Vou tomar meu banho, fique pronto – disse e fui em direção ao banheiro.
Assim que entrei no chuveiro tomei um banho bem demorado, um frio na barriga começou a me persuadir e tentei acalmar minha respiração. Depois de sair do banheiro, fui até meu guarda roupa e escolhi uma roupa bem simples, não queria chamar atenção (http://www.polyvore.com/lu%C3%ADsa_primeiro_dia_de_aula/set?id=109658858). Parei em frente ao espelho e desembaracei meu cabelo com a mão. Passei um gloss e enfim já estava pronta. Escutei alguém bater na porta do meu quarto.
- Lu,você ta atrasada, faltam apenas 15 minutos para sua aula começar – Lorenzo gritou.
Quando o escutei falando eu saí do quarto num impulso. Passei na cozinha e peguei uma maçã para ir comendo no caminho, Lorenzo já estava dentro do carro quando cheguei à garagem. Entrei no mesmo e fomos em silêncio até a escola. Demoramos em torno de 10 minutos para chegarmos, no meio do caminho mandei mensagem para a Isadora avisando que já estava chegando.
Meu irmão estacionou no portão da escola eu respirei fundo, desci do carro e por alguns minutos fiquei analisando-a. Essa escola é um pouco menor que a que eu estudava no Rio, porém, ainda assim tinha um tamanho bastante agradável. Fiquei vagando nos meus pensamentos quando ouvi alguém gritando meu nome, olhei para o lado e encontrei minha prima sorrindo.
- Lu, que saudade – a Isa me abraçou forte e deu alguns beijos na minha bochecha
- Que bom te ver, prima – abracei-a da mesma maneira e retribui seus beijos.
Afastamos-nos um pouco e eu pude perceber o quanto ela estava linda, seus olhos azuis se destacavam em meio aquele rosto de porcelana.
- Caramba Isadora, como você cresceu – escutei o Lorenzo falando atrás de mim e só aí lembrei que tinha pedido para ele entrar comigo.
- Enzo – Isa disse e correu para abraçá-lo. Eles sempre se deram muito bem.
Depois de tantos abraços e beijos o sinal tocou e finalmente entramos na escola. Lorenzo nos levou até nossa sala, antes de sair ele me deu um beijo na testa e avisou que me buscaria assim que as aulas acabassem.
A Isa segurou minha mão e me levou até uma das últimas carteiras da classe. Sentei um pouco mais atrás e ela na minha frente. Ficamos esperando o professor entrar e quando percebemos que ele estava atrasado, a Isa virou para trás disse:
- Eu estou realmente feliz por ter você aqui, prima. Minha melhor amiga mudou de cidade e eu fiquei um pouco sozinha nessa merda de escola – ela dizia enquanto fazia alguns gestos com a mão e eu comecei a rir.
- E eu também estou feliz por ter você aqui, definitivamente, é muito bom conhecer alguém – sorri e ela retribuiu. Antes que pudéssemos continuar o assunto, o professor entrou.
Ele se apresentou e disse que seria nosso professor de Matemática, a aula foi bem divertida, ele deu um tempo para nos apresentarmos e quando senti todos os olhos em cima de mim fiquei totalmente sem graça. Disse meu nome e minha idade, pude escutar alguns pervertidos fazendo gracinhas, mas preferi ignorar.
Assim que acabou a aula de matemática, tivemos duas aulas de português e finalmente saímos para o intervalo. Eu e a Isadora descemos as escadas e fomos até o pátio, nós nos sentamos em uma mesa mais afastada e ficamos observando alguns garotos.
- Aquele ali é o garoto mais problema da escola – ela apontou para um garoto que estava de costas e de jaqueta preta
- Mais problema? Como assim? – perguntei
- Ah Lu, ele bebe muito, participa de lutas clandestinas, sempre está brigando com alguém aqui, fica com todas as garotas – ela revirou os olhos – tenho nojo de pessoas assim.
- Eu também tenho – concordei com ela – Qual o nome dele?
- Pedro – ela disse e voltei a olhar o garoto.
Continuamos a observar algumas pessoas e a Isa me contou algumas de suas histórias. Disse que tem uma amizade colorida com o Thiago, melhor amigo do tal Pedro.
Depois de conversarmos algumas coisas e colocarmos o assunto em dia, finalmente acabou o intervalo e nós nos voltamos para a sala de aula.
Tivemos duas aulas de história e uma de física, estava tudo tranquilo e eu fiquei realmente feliz com a nova escola. As pessoas da minha turma eram bastante agradáveis, na verdade, a maioria, algumas garotas tinham cara de serem nojentas. Assim que escutamos o sinal avisando que as aulas tinham acabado, eu e a Isa fomos descendo para irmos embora, passamos pelo pátio e notamos um movimento estranho e como a curiosidade é maior que a consciência fomos até lá para ver o que estava acontecendo.
Assim que nos aproximamos vimos dois alunos brigando, coloquei a mão na boca ao perceber que um deles estava em meio a possas de sangue. Fiquei parada olhando durante um bom tempo. Depois de tudo aquilo que eu vi só consegui sentir nojo daqueles dois garotos que se rolavam no chão. À medida que a briga continuava mais pessoas se juntavam ao redor e por algum motivo senti um nó no estômago. Alguns garotos finalmente entraram no meio e separaram aqueles dois que estavam se esmurrando. O aluno mais alto e forte se levantou e ajeitou sua jaqueta, ele disse algo para o outro e eu não consegui escutar direito. Fiquei parada ainda perplexa olhando tudo que estava acontecendo. O mais alto de jaqueta se virou para sair e eu dei espaço para que ele passasse, mas, para a minha surpresa ele parou na minha frente e disse:
- É você – ele apontou o dedo para mim e quando me virei para olhá-lo percebi que o garoto dos olhos verdes estava parado na minha frente e ele era tão lindo. Julguei-me por estar pensando tanto nele, que é o tipo de pessoa que sempre menosprezei. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa eu saí andando apressadamente e infelizmente comecei a escutar passos pesados atrás de mim.
- Ei, espera – sua voz era tão linda que contra a minha vontade meus pés pararam e fiquei ali, sem nenhuma reação. – Você é a garota do sinal, não é? – ele perguntou enquanto parava na minha frente, fiz toda a força do mundo para não olhar nos seus olhos, mas infelizmente não resisti.
- Acho que você está me confundindo – percebi que minha voz tinha falhado e ele não pareceu notar.
- É você sim. Claro que é você. Eu não iria te confundir assim. Meu Deus, você é tão linda, Luz – ele começou a falar em disparada, senti minhas pernas bambearem e meu rosto queimar quando ele disse que sou linda.
- Você está realmente me confundindo, eu não me chamo Luz e nunca te vi – me virei para sair e senti suas mãos segurando o meu braço, quando olhei para elas vi um pouco de sangue e senti meu estomago embrulhar. – Tire as mãos de mim.
- Desculpe – ele soltou meus braços – mas você definitivamente é aquela garota, não adianta negar. – ele passou a mão na nuca e abriu um sorriso largo.
- Já disse, eu nunca te vi. Agora preciso ir que meu irmão está esperando – comecei a andar novamente e senti meu coração acelerado, antes de virar o corredor eu escutei sua voz dizendo
- Eu vou te procurar, Luz – eu revirei os olhos e gritei:
- Mas você me lembra a Luz – ele disse e pela sua voz pude notar que ele estava sorrindo.
Assim que virei o corredor coloquei uma mão no rosto e outra no peito, me perguntei diversas vezes o que foi aquilo e porque diabos eu lembrava a luz.
Respirei fundo e voltei a fazer o caminho em direção a saída. Quando passei pelo portão avistei o carro do Lorenzo e ele escorado na frente do mesmo. Assim que ele me viu acenou para mim e abriu um sorriso, sorriso esse que não consegui retribuir. Aproximei-me dele e o abracei. Quando olhei para trás encontrei novamente os olhares daquele garoto, percebi que a Isadora estava ao seu lado de mãos dadas com um menino alto, forte e bastante bonito. Foi só aí que percebi que o garoto dos olhos verdes se chama Pedro, ele era o garoto problema. Senti meu coração dar um pulo quando ele sorriu para mim e acabei percebendo que ele seria sim um problema, mas na minha vida.