Tudo sobre o amor e novas perspectivas_ Bell Hooks

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Tudo sobre o amor e novas perspectivas_ Bell Hooks
Devia ter prestado mais atenção ao que existia de real na minha vida.
Dei muita importância pra minha imaginação.
Isso não fez de mim uma escritora, como pensei que faria. Como eu quis que fizesse.
Na minha imaginação tudo parece tão fácil. Tão certo.
Eu olho para a minha vida agora e só consigo pensar: que merda eu sou capaz de fazer com a minha própria vida agora?
Algumas vezes aqueles pensamentos terríveis me abatem. É nessas horas que eu me pergunto se estou pronta para desistir de tudo.
Eu sei que é perigoso quando chego aqui. Diferente de um gênio mal compreendido, eu não vou deixar nenhum legado póstumo, nenhuma frase de efeito, nada de muito relevante.
Até minha lembrança seria um fracasso.
Quanto mais tento sair, mais me afundo nessa lama...
Ultimamente tem sido insuportável. Eu não sinto nada e tudo ao mesmo tempo. Não consigo chorar e, na maior parte das vezes, isso era tudo que eu mais queria.
As pessoas me perguntam se está tudo bem e eu minto que sim... eu não saberia nem mesmo explicar o que de fato está mal. Me poupo.
Não deve ser agradável me ouvir nessas horas.
Engulo seco a dor, as lágrimas e o grito. Me anestesio com qualquer coisa, durmo e acordo como se estivesse em um universo paralelo.
Eu não quero estar aqui mas, não encontro a saída definitiva desse lugar.
Parece que isso não vai mesmo acabar!
~ As aventuras de Lala na cidade de Thor
Reticente
O que eu realmente amo?
No que eu realmente sou boa?
Costumava acreditar que escolher ser uma historiadora era a resposta para isso. Costumava amar os livros, costumava amar os artigos científicos, costumava amar todo o ambiente universitário, costumava amar a ideia da profissão, costumava acreditar que eu era realmente boa nisso.
Acontece que todas as minhas certezas caíram por terra de uns tempos para cá.
Eu não sou mais a mesma. Mas o mundo não é mais o mesmo.
De repente eu precisei parar de sonhar, apostar no “trabalho por amor” e acordar para a vida adulta.
Precisei deixar um pouco o drama e pensar em dinheiro, outros planos, outros sonhos, alguns desejos egoístas.
A carreira que eu sonhei construir não tem feito mais sentido. Só que ao mesmo tempo, eu não vejo outra que faça sentido.
Nada faz sentido.
Talvez nunca tenha feito. Mas, eu fui tola demais, imatura demais.
Não estou desempregada, mas, não trabalho no que amo e nem no que escolhi amar e fazer. Parece que historiadores só vivem de ideias. Só que eu preciso pagar as contas (apesar de, nesse emprego, não ganhar o suficiente para isso).
Tenho tentado abrir a mente, me permitir alternativas. Tenho me esforçado muito para amar o que eu estou fazendo agora. Mas, não consigo me ver aqui nesse lugar para o resto da minha vida.
Não sei o que fazer com o meu diploma, com as minhas contas, com os meus sonhos e com o meu futuro.
Lá atrás, quando eu me permitia ter esperanças, parecia uma matemática básica: me formaria no curso que escolhi e trabalharia fazendo aquilo que estudei para ser.
Ser. Talvez esse seja o problema. Quem eu sou? Nessa sociedade o trabalho, mais que dignificar o “homem”, o define. Talvez eu busque mais que amor pela profissão. Talvez eu busque a mim mesma e por isso é tão difícil.
Entreguei todos os currículos que pude. Não obtive respostas. É o estado natural de muitos jovens brasileiros como eu. Ultimamente, não tenho terminado os livros que começo a ler. Perdi a motivação. O prazer. Seguir a carreira acadêmica? Para que? O mestrado parece um enfeite no meu currículo. Não existem palestras motivacionais ou coaching que me salvem disso.
A realidade é um rolo compressor.
Talvez eu tenha demorado muito para acordar para isso. Quando penso nas minhas escolhas passadas, talvez eu devesse ter aceitado mais os conselhos dos adultos, talvez eu devesse ter ignorado um pouco minhas paixões, talvez eu devesse ter sido mais objetiva, menos impulsiva, devia ter pensado mais na minha segurança, pensado nesse papel frágil e tão significativo em nossas vidas, que chamamos de dinheiro. Devia ter prestado atenção nos livros de História do Trabalho, eu não nasci com privilégios e nem sou a porra da dona dos meios de produção.
Será que é cedo pra dizer que eu fracassei em tudo?
Será que estou sendo dramática demais agora?
E a minha realização pessoal? Finjo que eu não preciso disso?
Tento não me comparar. Vejo amigos e conhecidos que estão dando “certo”, tento não me cobrar demais, pegar leve comigo. Mas, não posso deixar de me perguntar: “Que merda eu fiz de errado?”.
As vezes, parece que eu peguei o roteiro errado da vida. Tento fazer exatamente tudo o que está no script dos outros e não consigo o mesmo resultado que eles conseguem. Me pergunto se é assim tão fácil. Porque pros outros parece que é. E aí eu fico puta. Quero esmurrar quem está dirigindo a minha vida, porque esse roteiro é o pior que eu já vi, um filme lento, confuso, tedioso, acontece tudo e coisa nenhuma.
Quem era a “Lala” que escolheu esse futuro? Porque ela estava tão convicta de que seria uma pesquisadora e viajaria o mundo fazendo isso? Que ao invés de escrever livros de ficção, escreveria análises científicas? Quem era essa “Lala” que achou que isso tudo daria tão certo como dois mais dois...
Teimosa demais ou persistente por ainda não querer abrir mão disso?
Eu me decepcionei. É verdade. Alguma coisa quebrou minhas convicções. As eleições de 2018, as coisas que meus pais dizem, não conseguir um emprego na minha área, voltar para a casa dos pais, querer morar sozinha e não ter como me alimentar, as viagens que eu achei que faria e que não fiz nenhuma, olhar para minha conta no vermelho todos os dias. Alguma coisa no meio disso quebrou minhas convicções. Achei até que elas seriam inabaláveis.
Eu sigo a linha tênue entre desistir de tudo e me adaptar ao caos. Nessa confusão eu sinto como se tivesse perdendo um pedacinho de mim, dos meus sonhos, de uma “Lala” do passado, a cada dia. A cada dia eu mato um pedaço de alguma coisa em mim. Eu não sei o que é mas, faz falta. Tudo o que eu entrego, tudo o que eu me proponho a fazer parece sem vida, murcho, estranho.
Nada tem me deixado apaixonada. Pensar se tornou meu maior fardo, que eu não me arrependo de carregar, mas, que mesmo assim, machuca e eu não ignoro a dor. Nada tem me feito sentir viva de verdade, numa existência plena e satisfeita. Estou morna. É sem sal. Sem ânimo. E a fatura vence todo o mês. Mas, morando com meus pais eu me sinto uma criança de novo, presa em um corpo adulto, que deveria ter mais maturidade, responsabilidades. Eu até tento assumi-las mas, eles me lembram todos os dias que eu ainda sou uma criança, apesar de me exigirem um comportamento de adulta. Foi assim quando era de fato uma criança, aos cinco anos. E nada mudou agora.
Eu não sei o que fazer, não me preparei para esse momento. Não me preparei para nada disso. Eu queria um botão para avançar no tempo ou um impulso pra sair desse buraco mais depressa. Quem sabe uma cena pós-crédito com o vislumbre do que eu vou superar.
Será que eu vou superar essa?
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