A cidade: lugar do possível
Há mais de dois anos que contemplo.. não, mais que isso, que sou engolido pela mesma paisagem - ora, será a mesma paisagem? - de Curitiba. Tantas e tantas vezes atravessei o pátio da Reitoria com um copinho de café numa mão e um livro na outra; tantas e tantas vezes ouvi a voz feminina do biarticulado anunciar meu ponto de desembarque; tantas e tantas vezes bebi nos bares do Largo da Ordem e nas cercanias do campus de Humanas, Letras e Artes. Pois bem, cá estou, e não, não sou curitibano de nascença, como já devem ter percebido, tampouco tornei-me curitibano de espírito (não pertenço a lugar algum). Insisto nisto: permaneço, hoje e sempre, estrangeiro.
A estrangeiridade dá-me uma deliciosa, quase perversa, vantagem sobre os demais: posso experimentar tudo como se fosse a primeira vez, desde as pedras que piso ao atravessar a linha férrea para pegar o ônibus até os bares que tantas vezes fui, para ouvir Bossa Nova ou Blues. Se tudo me é estranho - dado que sou um estrangeiro -, então, tudo é novo e coloca-se diante de mim e devora-me como num ato de criação perpétuo das imagens em que a calçada bicolor, assim como os postes da XV, as colunas do prédio histórico, me aparece como se nunca antes a tivesse visto. É a festa!
Posso sentar em uma mesa de bar e brincar de inventar vidas, ora sou um estudante de filosofia, ora apenas alguém desejoso de uma boa bebida, ora um comediante, ora um aprendiz... E os cafés? Ah, os cafés que bebi, só ou acompanhado, contêm e escancaram a ilogicidade grotesca do eternamente diferente, do desigual em si, da soberba recusa do ser como idêntico. Não, duas xícaras de café jamais se identificam; o segundo café não repete o primeiro, e sob esta palavra - "xícara" -, agitam-se aquilo que o filósofo certa vez chamou, e com razão, de simulacros: o ser como diferença intrínseca.
A repetição do hábito - por exemplo, o de ir todos os dias à faculdade (exceto nos sábados e domingos) - não deve enganar-nos quanto ao que de fato devemos ter no coração: mesmo sob a repetição mais nua e mecânica (hábito), há a Diferença, o Desigual, e o novo. A repetição do hábito trás sob si a repetição em que o que se repete é a própria diferença: novas segundas e sextas, novos carros na rua, novas nuvens sob o céu, uma brisa que outrora não vinha, uma chuva que agora banha-me a pele e espírito. Já nos cafés, novas falas, novos amigos, novas mãos, novos olhares... Ah, tão bom é saber - como o poeta - que nada se repete, porque tudo é real!