meu solzinho, um fósforo aceso na escuridão, uma história que começa, um presentinho bom.
quatro meses do nenê.
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meu solzinho, um fósforo aceso na escuridão, uma história que começa, um presentinho bom.
quatro meses do nenê.
sobre copos & copas
aí que eu vou voltar a trabalhar em um mês, mais ou menos, e noves fora zero vou continuar amamentando nos horários em que estou em casa, mas precisava começar a acostumar o bebê a tomar leite por outros meios que não o peito e tals.
tentei mamadeira, com aquele medo: será que ele vai desmamar? eu queria MUITO que ele se tornasse um bebê flex, mas ele só aceitou mamar na mamadeira uma única vez, sendo o autor da proeza o Ricardo.
ao mesmo tempo, a pediatra recomendou fortemente que eu tentasse o copinho, pois risco de confusão de bicos e consequente desmame e etc, e seria realmente UMA LÁSTIMA se o nenê pegasse a mamadeira & despegasse o peito, e aí toda vez que ele precisasse mamar fosse necessário ORDENHAR e/ou DESCONGELAR, CLIMATIZAR, BOTAR NA MAMADEIRA e finalmente FAZER ELE MAMAR em vez do superfácil, superótimo procedimento de passo único que é: botar o peito pra fora e esperar ele fazer o resto.
(e depois ainda tem que LAVAR & ESTERILIZAR a mamadeira, sendo que o peito é ótimo, é só TOMAR BANHO NORMAL, olha que prático!).
como eu sou uma mãe disciplinada, porém preguiçosa, decidi tentar o copinho antes.
então fui comprar um copinho de transição 360, que são aqueles copos para criança aprender a beber, sem bico. como o tempo é exíguo, para não perder a viagem liguei na loja de coisas para bebês antes:
- oi, cês têm aquele copo transicional? aquele sem bico, sabe? - sei. é para menino ou para menina?
aí eu: GASP.
caraio, não esperava receber a estereotipação-de-gênero-surpresa SEM NEM MESMO ESTAR COM O BEBÊ.
(presencialmente já tínhamos ouvido um "é menina, né?" de uma senhora no dia em que o domenico estava usando calças roxas. não me ofendi nem nada; acontece).
aí eu gostaria de ter respondido "moça, peloamordedeus, é para beber", no que daria uma linda fanfic de esquerda, porém fiquei meio segundo pensando porque ela tava me perguntando aquilo, era apenas um copo, ela estava sendo tão prestativa, a vendedora, porra, não quero constrangê-la, caraio, que que eu falo?, já tá uma pausa meio longa e a mulher deve estar achando que eu não sei qual o sexo do meu próprio bebˆ.... BUG.
- É PRA MENINO.
e foi assim que eu endossei um estereótipo de gênero SENDO QUE O NENÊ NÃO TEM NEM CINCO MESES.
e vim pra casa com um copo azul, porém curiosamente de tampa vermelha.
só começando
faz quase três meses que sou mãe e é difícil dizer.
me parece uma aventura feita de luminosidade, ternura que também é dolorida e devastação – devastação de tudo que você possa imaginar, desde coisas em que você acreditava e hábitos que você tinha até de expectativas de mudanças com as quais você contava e não aconteceram.
ao mesmo tempo, faz quase três meses que o bebê é gente. digo, gente vivendo no mundo aqui fora. engraçado, mas aquele bebezinho que eu trouxe para casa já se foi. cresceram cílios, quilos e o interesse do domenico no mundo que ele habita. não é mais o mesmo bebê – mas ainda é o domenico, está começando a ser.
eu como era antes também não existo mais. tornar-se mãe é irreversível. nesse aspecto específico, queimei uma ponte: agora, se eu me sentir muito cansada, sozinha ou exasperada por ter um filho, NÃO ter mais o filho não é a solução. é um problema muito pior, é o pesadelo mais abominável que podia me acontecer.
não tem volta.
* * *
nesse meio tempo, sonhei duas vezes que meu documento de identidade se molhava e desmanchava (dava pra ser mais sutil não, inconsciente?) e quatro vezes que o domenico falava comigo.
em três delas eu nem me espantava que um bebê de menos de três meses conversava NORMALMENTE, sem tatibitate, como um adulto.
na única vez em que me espantei, eu perguntava “mas, filho, você já fala?” e ele respondia, com jeito de “ué, o que você esperava, mulher?”: “claro, eu fico aqui vendo vocês falarem o dia inteiro!”.
depois disso, nos sonhos conversamos normalmente. em um deles, inclusive, ele me consolava falando a mesma coisa que repito baixinho quando ele chora por uma coisinha boba, como trocar ou sair do banho: “pronto, pronto, passou”.
* * *
falando em choro, posso atestar que aprender a trocar fraldas é a parte mais inútil dos cursos de maternidade.
em primeiro lugar, porque você treina numa boneca – que, apesar de não ter ligação consanguínea alguma com você, tem muito mais consideração e faz a gentileza de NÃO SE MEXER DURANTE O PROCESSO. em segundo lugar, porque é uma piada de tão fácil; claro que nem sempre você acerta perfeitamente, mas o que de pior pode acontecer nesse caso? merda no macacãozinho? xixi na sua calça? isso não é nada; é até bom, pra ir se acostumando.
muito melhor seria ensinarem a lidar com o choro do bebê. com calma, mas sem ser fria nem se sentir culpada. a fralda eu já troco de boa, mas acertar o coração e a cabeça com o berreiro ainda está em construção.
* * *
nos primeiros quarenta dias de vida do domenico, o ricardo estava de licença-paternidade e trocava as fraldas, enquanto eu era a responsável pela alimentação. em outras palavras, ele administrava a saída e eu, a entrada.
pouco antes de ele voltar ao trabalho, comecei a fazer as trocas também, para já ir treinando. como eu era praticamente uma novata, tomava sempre o cuidado extra de tirar, além da calça ou da parte debaixo do macacãozinho, as meias do bebê; vai que a perninha dele me escapa da mão e ACIDENTALMENTE CARIMBA O CALCANHAR NA MERDA, REPRODUZINDO EM SEGUIDA UMA ESTAMPA DE COCÔ POR TODO O FORRO DO TROCADOR ENQUANTO EU TENTO DESESPERADAMENTE CONTROLAR AQUELA CONFUSÃO? eu podia ver facilmente esse tipo de bosta (dsclp) acontecendo comigo.
um dia o ricardo apareceu na porta do quarto enquanto eu trocava o nenê e perguntou porque kct eu tava fazendo aquilo. expliquei minha fantasia de horror com as meias na mão e ele riu da minha cara, falando qualquer coisa do tipo “haha imagina, que exagero, isso NUNCA vai acontecer”.
poucos dias depois, ele me chama no quarto do bebê com uma cara de consternação e me mostra uma meia com um belíssimo carimbo de merda.
a prática leva à pretensão.
* * *
quando você se acostuma com o bebê, lidando com ele o dia todo, é muito engraçado como sua escala muda. agora acho minha mão enorme, meu pé monstruoso, minha pele brutal e a cabeça do ricardo parece um moai da ilha de páscoa.
tudo porque meu parâmetro de toque, tamanho e maciez passou a ser o de uma criaturinha muito fresca, muito pequena, que não tem nem cem dias de vida.
é aí que eu me lembro que ele – e nós – estamos apenas começando.
sua própria história
outro dia o nenê ficou me olhando com a maior cara de interrogação: olhinho apertado, sobrancelha franzida.
não aguentei e mandei um TÁ ME CONHECENDO NÃO RAYANE?
ele desfez a cara na hora e riu grandão.
agora ele tá me conhecendo bem. foi o primeiro meme do memê.
* * *
eu tenho uma experiência de maternidade que na melhor das hipóteses poderia ser classificada como algo entre "parca" e "risível" -- o bebê acaba de fazer dois meses -- então longe de mim querer ensinar qualquer coisa aqui.
mas se tem algo que aprendi até agora é que só existe uma regra: não há regras.
p. ex., não vou nem entrar no mérito da batidíssima ameaça "aproveita bem agora, que você nunca mais vai dormir", que nunca levei a sério pela impossibilidade factual de se concretizar – se alguém NUNCA MAIS DORMIR, ele morre, né.
mas o fato é que li e ouvi muitas queixas reais de mães sobre a privação de sono. e, quando dei por mim, estava repetindo as queixas para quem me perguntava como estava indo com o bebê. até que um dia uma amiga fez uma cara de espanto quando eu falei "ah, foda é a privação de sono, né" e comentou "engraçado. como eu sempre dormi pouco, nunca senti isso como um problema com as minhas filhas".
por alguma razão, isso deu um estalo na minha cabeça: eu NÃO estava sofrendo com a privação de sono. aconteceram noites ruins eventuais, duas ou três. mas, no dia a dia, o domenico acorda um número de vezes que não me incomoda. além do mais, com ajuda da pediatra, organizei um esquema que torna a nossa noite o mais fácil possível para mim e para ele. fim.
* * *
para tudo que você imaginar existem sugestões, linhas, práticas. sempre com pelo menos meia dúzia de alternativas (e pelo menos doze dúzias de palpiteiros querendo opinar ao contrário).
e por mais que a gente saiba disso racionalmente, é muito fácil se pegar querendo escrever a história dos outros, não porque é a mais viável para você ou a mais adequada para o seu bebê, mas só porque ela parece mais legal.
eu planejava ter um parto normal, domenico veio de cesárea. eu comprei uma linda caixa de papelão finlandesa para ele dormir dentro, ele dorme na nossa cama. eu li um monte sobre a teoria da exterogestação e tava com tudo na agulha: o banho de balde, o charutinho, o contato pele a pele etc. domenico adora o banho de balde (foi num desses que ele me reconheceu DE VERDADE, não fazendo palhaçada), mas não há meios de fazer ele parar no charutinho. ele nasceu no outono e tá frio demais para fazer pele a pele. paciência, vida segue.
* * *
num primeiro momento, pode parecer que seria muito melhor se tivesse uma receita só e ela fosse infalível. mas existe um consolo: nada que te aconteça está acontecendo SÓ com você. alguém já passou por isso antes, afinal, existe uma pá de alternativas, mas existem ainda mais bebês &/ou cuidadores – para ser ligeiramente mais precisa, uns 7 bilhões neste momento, já que nem todo mundo foi mãe, mas todo mundo foi bebê.
então você não está só, mas ao mesmo tempo tem a chance de escrever a sua própria história. e toda vez que a gente se sentir tentada a embarcar na história alheia, precisa lembrar que não tem nada mais alegre, no fim, que escrever a própria história.
aquela luz da aurora da manhã
durante a gravidez eu desejava que o domenico saísse com olhos iguais aos do Ricardo, porque assim o bebê teria olhinhos lindos (pelo menos eu acho).
(abro aqui um parêntese para recomendar: cuidado com o que você deseja).
ele é tão parecido com o pai que minha própria mãe mandou um "só carregou, hein?" logo no primeiro dia de visita na maternidade. domenico nem tinha aberto os olhos ainda.
* * *
quando ele abriu os olhos pela primeira vez -- e provavelmente não enxergou nada mais que um borrão -- era eu que estava na frente dele.
foi um dia depois de ter nascido, e ele abriu um olho só.
levou mais uns dias para ele abrir o outro, e eu novamente testemunhar o momento, e olhar pra duas lindas íris cinza escuras conjugadas. mas ali era um movimento de mão única: talvez os dois estivessem se vendo, mas só eu estava enxergando.
* * *
eu cheguei em casa contando os dias para o bebê fazer um mês. queria que ele tivesse a cabeça mais firme e alguma expressão, alguma forma, qualquer forma, de me dizer se está feliz ou não. não precisava falar; podia ser com os olhos. mas eles não se fixavam em nenhum lugar.
claro que essa minha aflição é majoritariamente egoísta. quem não suporta não saber se ele está feliz ou não sou eu. ele provavelmente nem delimitou os conceitos de feliz ou triste; ele é só um bebê. acho que falar em "satisfeito" ou "insatisfeito" seria mais adequado.
aí ele fez um mês e eu vi que, apesar de todas as mudanças maravilhosas ocorridas nele, eu ainda não estava tranquila.
já estava começando a contagem regressiva para três meses quando me dei conta de que aquele bebezinho deitado de comprido no sofá, aquele bebezinho com sorrisos reflexivos e cabelinho renascente, aquele bebezinho de pescoço mole que se aninhava por inteiro no meu peito, logo ia desaparecer definitivamente, coberto pelo bebê de três meses.
choque.
e o bebê de três meses também vai desaparecer, por sua vez, coberto pelo de quatro, pelo de cinco, pelo de seis meses.
e o bebê como um todo vai desaparecer debaixo da criança de um ou dois anos, e isso vai se repetir per secula seculorum ou até o final dos nossos tempos, até a mão dele, que hoje é minúscula e cabe na minha palma, se tornar capaz de embarcar a minha sem dificuldades.
foi uma descoberta pavorosa.
* * *
como na maior parte do tempo domenico não está chorando, posso supor que ele esteja mormente satisfeito. mas na outra parte do tempo ele também não estava rindo -- de novo, uma ansiedade minha.
até que um dia, sem mais nem menos, quando botei ele no balde com água quentinha e cantei uma musiquinha de lavra própria, uma que eu cantava para ele todo dia enquanto eu mesma tomava banho grávida, ele *OLHOU* pra mim. e sorriu.
e eu achei que ia perder os meus contornos, que ia transbordar ou explodir.
* * *
agora ele olha e ri para quase todo mundo, e até mais. ele ri para a coruja de pelúcia que o Vlad deu e para a coruja de pano que ele ganhou da Patricia e do Andre. ele ri para os quadrinhos de animais que ficam do lado do trocador. ele ri, pasmem, para a garrafa térmica que mantém quentinha a água para a hora da troca. talvez ele pense que ela também é uma coruja. ele ainda tem muito o que olhar.
"o seu olhar agora o seu olhar nasceu o seu olhar me olha o seu olhar é seu
o seu olhar, seu olhar melhora melhora o meu" -- arnaldo antunes, o seu olhar
"seus olhinhos sempre têm, meu bem aquela luz da aurora da manhã" -- jorge mautner, samba jambo
leite tipo A
eu sempre quis ser mãe, desde que me lembro. convivi com esse desejo tão longamente que deu tempo inclusive de duvidar dele, como de tudo que a gente quer muito. mas no meu pacote imaginário da maternidade nunca constou um desejo especial de amamentar. para falar a verdade, eu achava meio aflitivo esse lance de SOLTAR LEITE. uff. sempre tive peitos bem modestos. nos poucos meses em que eu usei a pílula como método contraceptivo, lá pelos meus 20 anos, tive altas reações adversas ao rolê – a única coisa boa foi que meus peitos passaram do tamanho “inexistente” para o tamanho “pequeno”. depois eu parei de ligar para isso, mas meu grande desejo adolescente era ter peitos tipo pamela anderson, meter logo uns 2 litros de silicone de cada lado. (meu amigo Dener dizia que, se eu fizesse isso, teria que andar com uma mochila cheia de pedras nas costas, para contrabalancear. eu pesava 42 quilos nessa época). além de pequenos, nunca achei meus peitos particularmente bonitos. mas fiquei bem feliz quando eles começaram a crescer durante a gravidez, e minha amiga Cristiane disse: “espera até ver o leite descer”. eu pensei: “não tem como ficar melhor. esses são os melhores peitos que eu já tive”. * * * quando as minas começaram a reivindicar o direito de amamentar em público sem serem incomodadas ou constrangidas – e me lembro de um caso emblemático em 2011, no itaú cultural (http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/05/mulheres-fazem-mamaco-pelo-direito-de-alimentar-os-filhos-em-sp.html), que originou o primeiro “mamaço” – eu acompanhei as notícias com certa aflição daquele monte de foto de bebês pendurados nos respectivos peitos. tenho quase certeza que cheguei a pensar “custava botar uma fraldinha?”. olha só. (estou sendo tão honesta quanto é possível ser aqui porque é importante que fique bem claro o quanto eu achava estranho, esquisito, aflitivo esse lance de amamentar). a divulgação primeira dos casos, as organizações daquele e de outros mamaços e o debate em torno deles nasceram nas redes sociais. claro que logo as mães começaram a expressar seu apoio às companheiras constrangidas e à amamentação em geral ENCHENDO AS REDES com fotos dando de mamar. e eu ali, aflita. * * * enquanto eu me preparava para entrar no hospital em dois e voltar pra casa em três, li tudo que podia sobre maternidade. um dos pontos principais, claro, era a amamentação. eu obviamente não tinha nenhuma atração específica por esta parte, mas decidi tentar porque havia decidido muito cuidadosamente tentar primeiro tudo que fosse mais natural possível, vide o parto vaginal e a amamentação no peito. não custa, vamos ver se rola. se não rolar, também, segue o jogo. eu não tava ligando muito, não. queria mais ter um parto normal do que conseguir amamentar, se fosse para escolher. mas, veja você, como a vida é o que acontece enquanto você faz planos e etc e tal, eu tive uma cesárea e o domenico grudou no peito sozinho meia hora depois de me costurarem, e nunca mais soltou. foi aí que eu entendi o porquê daquelas imagens todas nas redes sociais. na minha cabeça, se fechou um circuito que, embora eu não soubesse na hora, estava ancorado naquela iconografia dos peitos de fora, conectados a bebês, que nada mais eram senão a naturalização necessária do olhar sobre algo que, pelamordedeus, se você não achar que é natural precisa voltar para o segundo ano escolar, talvez até para a pré-escola, quando começaram a ensinar sobre MAMÍFEROS. * * * eu saí do hospital, como aparentemente todo mundo, com uma receita de fórmula. hoje fico me perguntando porque cazzo. depois de três dias mamando normal, como alguém poderia saber se o domenico realmente precisaria de leite em pó? já na maternidade decidi que ia amamentar em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa. primeiro porque qualquer bebê merece ter sua fome saciada onde quer que ele esteja, uma vez que A COMIDA TÁ ALI DO LADO. segundo, porque uma vez que bebês devem comer na hora em que precisam, se eu não puder amamentar em público terei que ficar confinada à esfera doméstica, privada, até o nenê deixar de mamar. não tô a fim. acho que nenhuma mulher está. então, meus kiridos, o peito vai sair e se você estiver constrangido eu entendo e sugiro que olhe pro outro lado. mas ofendido já são outros 500. tem que ser muito pervertido para se ofender com a visão de um bebê sendo alimentado. claro que eu mesma senti algum constrangimento, duas ou três vezes, em ocasiões específicas. mas fiquei firme na decisão, porque ela foi uma decisão de princípios. aí comecei a sentir que ao amamentar em público acontecia com meus peitos mais ou menos o que acontece com super-heróis de quadrinhos: antes reconhecidos socialmente como objetos sexualizados, eles botavam uma máscara e ganhavam uma identidade adicional e mágica, relacionada à capacidade de alimentar um bebê. só lamento por quem não consegue ver o herói. * * * fotografias em redes sociais me levaram a um segundo estalo sobre amamentação. duas mulheres que nunca vi ao vivo, cujas vozes eu não tenho ideia de como soam, postaram imagens do próprio leite, acondicionado em vidros para doação. depois de alguns meses amamentando o domenico e vendo ele construir cílios, cabelos, quilos só de leite, eu não poderia NÃO tentar fazer o mesmo: se tá sobrando aqui, posso fazer chegar em quem precisa. comecei a doar leite por causa da Paula Danielle e da Rina Pri, e aproveito para agradecer a generosa influência delas, que me levaram a isso sem nem saber. (depois de ver aquelas fotos, encontrei tudo que eu precisava saber para efetivamente doar leite materno aqui: http://www.doeleitematerno.com.br/). * * * não me entendam mal. é maravilhoso que hoje bebês não precisem morrer porque, por alguma razão, não foi possível amamentá-los no peito. muitas vezes o processo é doloroso, por inúmeros motivos reais e legítimos, e eu mesma SINCERAMENTE não sei o quanto insistiria se tivesse vivido algum destes percalços. além de tudo isso, também existe uma questão de escolha que deve ser respeitada. ninguém é menos mãe porque não amamentou no peito. deus abençõe a fórmula pela vida de cada bebê que, sem ela, teria morrido. mas do que estou falando aqui, no fim, é só sobre a necessidade e o direito da naturalização da amamentação. e se eu tivesse tido alguma dificuldade ou tivesse cogitado comprar a historinha de que a fórmula devia ser minha primeira opção, minha melhor chance de perseverar ou mudar de ideia seria lendo histórias de outras mulheres e suas experiências, vendo fotos de bebês pendurados em peitos – reaprendendo, depois de toda uma era recente que apregoou que o bom era o industrial, o processado, o corporativo, que isso é bossa nova, isso é muito natural. porque todo o conhecimento disponível hoje aponta para o quanto o leite da mãe, para uma criatura mamífera – QUE SURPRESA! --, é o alimento mais adequado (e mais fácil e mais barato de obter). artificial, embora às vezes necessária, é a fórmula. mamar é natural. e, ao contrário do que eu pensava, meus peitos ficaram ainda melhores, sim. e não, não estou falando de tamanho. #smam
há de chegar o dia em que não será mais possível deixar os livros dos adultos dando sopa ao alcance dessas mãozinhas desassistidas. mas por enquanto tudo bem!
depois de dez anos, hoje faz um mês que eu e o ricardo nos apaixonamos por outra pessoa. por sorte, é a mesma. (📷: ricardo baitelo)