eu sempre quis ser mãe, desde que me lembro. convivi com esse desejo tão longamente que deu tempo inclusive de duvidar dele, como de tudo que a gente quer muito. mas no meu pacote imaginário da maternidade nunca constou um desejo especial de amamentar. para falar a verdade, eu achava meio aflitivo esse lance de SOLTAR LEITE. uff.
sempre tive peitos bem modestos. nos poucos meses em que eu usei a pílula como método contraceptivo, lá pelos meus 20 anos, tive altas reações adversas ao rolê – a única coisa boa foi que meus peitos passaram do tamanho “inexistente” para o tamanho “pequeno”. depois eu parei de ligar para isso, mas meu grande desejo adolescente era ter peitos tipo pamela anderson, meter logo uns 2 litros de silicone de cada lado. (meu amigo Dener dizia que, se eu fizesse isso, teria que andar com uma mochila cheia de pedras nas costas, para contrabalancear. eu pesava 42 quilos nessa época).
além de pequenos, nunca achei meus peitos particularmente bonitos. mas fiquei bem feliz quando eles começaram a crescer durante a gravidez, e minha amiga Cristiane disse: “espera até ver o leite descer”. eu pensei: “não tem como ficar melhor. esses são os melhores peitos que eu já tive”.
* * *
quando as minas começaram a reivindicar o direito de amamentar em público sem serem incomodadas ou constrangidas – e me lembro de um caso emblemático em 2011, no itaú cultural (http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/05/mulheres-fazem-mamaco-pelo-direito-de-alimentar-os-filhos-em-sp.html), que originou o primeiro “mamaço” – eu acompanhei as notícias com certa aflição daquele monte de foto de bebês pendurados nos respectivos peitos. tenho quase certeza que cheguei a pensar “custava botar uma fraldinha?”. olha só. (estou sendo tão honesta quanto é possível ser aqui porque é importante que fique bem claro o quanto eu achava estranho, esquisito, aflitivo esse lance de amamentar).
a divulgação primeira dos casos, as organizações daquele e de outros mamaços e o debate em torno deles nasceram nas redes sociais. claro que logo as mães começaram a expressar seu apoio às companheiras constrangidas e à amamentação em geral ENCHENDO AS REDES com fotos dando de mamar. e eu ali, aflita.
* * *
enquanto eu me preparava para entrar no hospital em dois e voltar pra casa em três, li tudo que podia sobre maternidade. um dos pontos principais, claro, era a amamentação. eu obviamente não tinha nenhuma atração específica por esta parte, mas decidi tentar porque havia decidido muito cuidadosamente tentar primeiro tudo que fosse mais natural possível, vide o parto vaginal e a amamentação no peito.
não custa, vamos ver se rola. se não rolar, também, segue o jogo. eu não tava ligando muito, não. queria mais ter um parto normal do que conseguir amamentar, se fosse para escolher. mas, veja você, como a vida é o que acontece enquanto você faz planos e etc e tal, eu tive uma cesárea e o domenico grudou no peito sozinho meia hora depois de me costurarem, e nunca mais soltou.
foi aí que eu entendi o porquê daquelas imagens todas nas redes sociais. na minha cabeça, se fechou um circuito que, embora eu não soubesse na hora, estava ancorado naquela iconografia dos peitos de fora, conectados a bebês, que nada mais eram senão a naturalização necessária do olhar sobre algo que, pelamordedeus, se você não achar que é natural precisa voltar para o segundo ano escolar, talvez até para a pré-escola, quando começaram a ensinar sobre MAMÍFEROS.
* * *
eu saí do hospital, como aparentemente todo mundo, com uma receita de fórmula. hoje fico me perguntando porque cazzo. depois de três dias mamando normal, como alguém poderia saber se o domenico realmente precisaria de leite em pó?
já na maternidade decidi que ia amamentar em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa. primeiro porque qualquer bebê merece ter sua fome saciada onde quer que ele esteja, uma vez que A COMIDA TÁ ALI DO LADO. segundo, porque uma vez que bebês devem comer na hora em que precisam, se eu não puder amamentar em público terei que ficar confinada à esfera doméstica, privada, até o nenê deixar de mamar. não tô a fim. acho que nenhuma mulher está. então, meus kiridos, o peito vai sair e se você estiver constrangido eu entendo e sugiro que olhe pro outro lado. mas ofendido já são outros 500. tem que ser muito pervertido para se ofender com a visão de um bebê sendo alimentado.
claro que eu mesma senti algum constrangimento, duas ou três vezes, em ocasiões específicas. mas fiquei firme na decisão, porque ela foi uma decisão de princípios.
aí comecei a sentir que ao amamentar em público acontecia com meus peitos mais ou menos o que acontece com super-heróis de quadrinhos: antes reconhecidos socialmente como objetos sexualizados, eles botavam uma máscara e ganhavam uma identidade adicional e mágica, relacionada à capacidade de alimentar um bebê. só lamento por quem não consegue ver o herói.
* * *
fotografias em redes sociais me levaram a um segundo estalo sobre amamentação. duas mulheres que nunca vi ao vivo, cujas vozes eu não tenho ideia de como soam, postaram imagens do próprio leite, acondicionado em vidros para doação. depois de alguns meses amamentando o domenico e vendo ele construir cílios, cabelos, quilos só de leite, eu não poderia NÃO tentar fazer o mesmo: se tá sobrando aqui, posso fazer chegar em quem precisa.
comecei a doar leite por causa da Paula Danielle e da Rina Pri, e aproveito para agradecer a generosa influência delas, que me levaram a isso sem nem saber.
(depois de ver aquelas fotos, encontrei tudo que eu precisava saber para efetivamente doar leite materno aqui: http://www.doeleitematerno.com.br/).
* * *
não me entendam mal. é maravilhoso que hoje bebês não precisem morrer porque, por alguma razão, não foi possível amamentá-los no peito. muitas vezes o processo é doloroso, por inúmeros motivos reais e legítimos, e eu mesma SINCERAMENTE não sei o quanto insistiria se tivesse vivido algum destes percalços. além de tudo isso, também existe uma questão de escolha que deve ser respeitada.
ninguém é menos mãe porque não amamentou no peito. deus abençõe a fórmula pela vida de cada bebê que, sem ela, teria morrido. mas do que estou falando aqui, no fim, é só sobre a necessidade e o direito da naturalização da amamentação.
e se eu tivesse tido alguma dificuldade ou tivesse cogitado comprar a historinha de que a fórmula devia ser minha primeira opção, minha melhor chance de perseverar ou mudar de ideia seria lendo histórias de outras mulheres e suas experiências, vendo fotos de bebês pendurados em peitos – reaprendendo, depois de toda uma era recente que apregoou que o bom era o industrial, o processado, o corporativo, que isso é bossa nova, isso é muito natural.
porque todo o conhecimento disponível hoje aponta para o quanto o leite da mãe, para uma criatura mamífera – QUE SURPRESA! --, é o alimento mais adequado (e mais fácil e mais barato de obter). artificial, embora às vezes necessária, é a fórmula. mamar é natural.
e, ao contrário do que eu pensava, meus peitos ficaram ainda melhores, sim. e não, não estou falando de tamanho.
#smam