EULINA
Embora soubesse que, se ela estivesse viva, estaria bem velhinha, o fato de uns dois ou três anos atrás soube que ela ainda tocava..
Almir me disse que ela morreu há alguns anos , e que seu filho desfez o barracão.
Resolvi caminhar pelos trilhos de Andrade Araújo e não vi o seu centro.
Eulina foi a mãe de santo de Rosa. De quem Rosa sempre falou mal, porém sempre voltava para ela.
Para Rosa, era melhor continuar no barracão de origem, com uma mãe de santo que era conhecida por nunca ter sido raspada que sabidamente não conhecia os preceitos, que possuía um exército de filhos de santo com seus orixás famintos, pois era comum filhos com 15 anos de santo ou mais, porém somente com a obrigação de um ano, filhos legados a miséria, e outros, sem ter onde morar e comer, viver em sua casa como escravos. E ela amava essa situação. Uma mãe de santo que transava com filha de santo.
Dava impressão que Eulina escolhia a dedo os filhos que poderiam progredir na vida.
A mulher, para os padrões da Baixada Fluminense, possuía uma das obrigações mais caras da região.
Tanto que ela fazia “consórcio “ de obrigações de santo. Filhos que todo mês pagavam uma quantia, até poderem pagar a obrigação e a festa. Não basta alimentar o santo. Tem que tocar para encher a casa.
Beto, pobre Beto, um dos escravizados que moravam na casa dela, dava todo o seu salário na mão de Eulina, e não viu ela comprar uma vela para o santo dele. Pelo contrário, financiou o negócio do filho, que detesta macumba e nem olhava pra cara dos filhos de santo de Eulina, e emprestou dinheiro pra Hekede fazer aborto.
Beto foi premiado com uma expulsão do barracão, com direito a gritos de Eulina e suas coisas jogadas na rua, quando ele questionou a situação do seu salário.
O chato é que Eulina não é exceção, é regra.
Sempre questionei a lógica:
Se entreguei a minha cabeça ao meu Orixá, é fato que nos anos seguintes, ele me dará condições de trabalho e ganho para que nos anos seguintes, eu o alimente. Mas não é isso que vi.
Vi vendedores de bala de sinal, domésticas sendo fiel a sua religião, mas com suas obrigações com bastante atraso. Pessoas que se o pai de santo ligasse para sua casa, em cinco minutos estariam no barracão com um enxada na mão, caso fosse necessário.
Os endinheirados pelas fé, os donos de carros importados, apareciam somente no dia de uma grande festa ou nas suas obrigações. Em seguida, desapareciam. Essas pessoas , os sacerdotes nunca ligavam para pedir ajuda no barracão, tão pouco eram humilhados pelos seus baba ou yalorixas por faltarem a uma reunião.
Descanse em paz Eulina.
Momentos bizarros na macumba proporcionados pela língua de Eulina.☝️
Beto, o seu sofrido filho de santo
Eulina não raspava santo. Ela colocava santo na cabeça dos outros.
















