starter fechado ⸻ praia, madrugada, @evielynne.
não conseguia dormir. sempre que forçava os olhos a fechar, vinha o mesmo despertar abrupto, o gritar contra seu ouvido. um lamento grave, cortado, mistura de agonia e eco. por duas vezes tentara se convencer de que era apenas sonho, resquício da mente saturada. na terceira, cedeu. ergueu-se da cama, calçou os tênis, trocou de roupas e saiu em direção ao mar como quem aceita uma convocação inevitável. a noite estava densa, mais escura do que o comum. a lua se escondia atrás de nuvens persistentes, deixando a praia mergulhada em breus intermitentes. gostava disso, do pacto com o escuro, uma sombra antiga que parecia estender a mão para guiá-lo com familiaridade. corria em ritmo calculado, afastando-se dos postes e se aproximando cada vez mais do barulho das ondas. havia algo de acolhedor no vento frio levantando os fios de seu cabelo, o sal no ar, o mar como voz constante chamando, cantando. mas então o convite mudou de tom. quase se confundia com a espuma da arrebentação, mas os olhos reconheceram; uma silhueta. a pele clara contrastando contra a noite, os cabelos soltos sendo arrastados pelo vento, e a imobilidade estranha. por um instante acreditou estar diante de um fantasma, reflexo de insônia, um truque da mente cansada. apertou os olhos, abriu-os novamente. não, ainda estava lá. uma menina. respirou fundo, inquieto, porque não era avesso à ideia de ver espectros, mas a quietude daquela cena o desarmou. talvez fosse o caso de procurar alt para uma consulta inoficial.
aproximou-se mais, a areia fria cedendo sob os pés, até que uma onda maior quebrou contra suas pernas. algo gelou em seu estômago. ela caminhava em direção ao fundo, passos curtos, lentos, em uma perspectiva fora do mundo, os olhos fixos em um horizonte que só ela via. e... não hesitou. chutou os tênis para o lado, libertando os movimentos, e correu. “ei!” a voz saiu forte, rasgando o vento, mas não arrancou dela nenhuma reação. ele acelerou, cortando a água, cada passo transformando-se em braçadas quando o mar já lhe chegava ao peito. o coração disparava não apenas pelo esforço, mas pela sensação de déjà-vu. a conhecia? algo em sua memória insistia em associar aquele rosto perdido... mas não importava. mesmo com o chamar, ela seguia como se não existisse corpo ao redor, apenas um invólucro vazio à mercê das ondas. ele a alcançou quase sem fôlego, braços firmes a puxando contra si. em um só gesto, ergueu-a nos braços, ajeitando o peso para que não se afogasse, e virou-se rumo à praia. a travessia parecia mais longa do que fora para alcançá-la, cada onda batendo contra sua cintura como se tentasse arrancá-la de volta. mas ele seguia, a respiração ofegante se misturando ao ruído do mar.
finalmente a areia firme sob os pés, o corpo dela ainda nos braços, leve demais, como se não tivesse âncora alguma no mundo real. só então, ao deitá-la sobre a areia úmida, percebeu que não sabia dizer se havia salvado uma estranha ou um fantasma. “hallo, fräulein? leben sie noch?”















