pelos deuses! aquele ali passeando na praia é 𝐸𝑅𝐸𝐵𝑂? ah, não, é só 𝑀𝐼𝐾𝐾𝐸𝐿 𝑊𝑂𝐿𝐹𝐺𝐴𝑁𝐺 𝐾𝑅𝑈̈𝐺𝐸𝑅 𝐻𝑂𝐶𝐻𝑆𝐶𝐻𝐸𝐼𝐷𝑇, um 𝐸𝑀𝑃𝑅𝐸𝑆𝐴𝑅𝐼𝑂/𝐶𝑂𝑁𝑇𝐴𝐷𝑂𝑅 nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 𝑉𝐼𝑁𝑇𝐸 𝐸 𝑂𝐼𝑇𝑂 anos nesse novo corpo, segue tão 𝐶𝐸́𝑃𝑇𝐼𝐶𝑂 𝐸 𝑃𝐸𝑅𝑆𝑃𝐼𝐶𝐴𝑍 quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito 𝐷𝐴𝑀𝐼𝐴𝑁 𝐻𝐴𝑅𝐷𝑈𝑁𝐺? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como 𝐻𝑂𝑆𝑃𝐸𝐷𝐸 do nosso hotel!
𝑬𝑹𝑬𝑩𝑶: Ἔρεβος é personificação das trevas e da escuridão. era o próprio universo, senhor dos cosmos e dos buracos negros. no passado, pretendia libertar, sozinho, os titãs aprisionados. zeus, hades e nyx, tementes do possível retorno dos titãs, o impediram. os três, unidos, jogaram érebo no rio infernal aqueronte, o rio da morte, e encaminharam o corpo fragilizado para o tártaro, única prisão capaz de detê-lo.
“ 𝑇ℎ𝑒 𝑚𝑜𝑡𝑖𝑜𝑛𝑠 𝑜𝑓 ℎ𝑖𝑠 𝑠𝑝𝑖𝑟𝑖𝑡 𝑎𝑟𝑒 𝑑𝑢𝑙𝑙 𝑎𝑠 𝑛𝑖𝑔ℎ𝑡 𝐴𝑛𝑑 ℎ𝑖𝑠 𝑎𝑓𝑓𝑒𝑐𝑡𝑖𝑜𝑛𝑠 𝑑𝑎𝑟𝑘 𝑎𝑠 𝐸𝑟𝑒𝑏𝑢𝑠. ”
Shakespeare (O Mercador de Veneza, 1596-1599)
𝒅𝒊𝒆 𝒈𝒆𝒔𝒄𝒉𝒊𝒄𝒉𝒕𝒆.
resumo: a família hochscheidt sempre foi sinônimo de confusão na cidade natal de mikkel. o pai, um viciado que vivia devendo pra fornecedores poloneses; a mãe, uma golpista de bar barata; e os irmãos, todos enfiados em algum esquema furado. mikkel cresceu nesse caos, mas sempre teve cabeça diferente, inteligência rápida, talento absurdo com números e um senso crítico que fazia dele quase um estranho dentro da própria casa. ainda menino já ajudava a organizar as dívidas do pai, mas nunca se deixou levar por aquela vida. guardava dinheiro escondido, sonhando em sair dali, até que conseguiu uma vaga em contabilidade em londres. começou trabalhando em um clube de golfe, servindo ricaços, até chamar a atenção de victor bouchard, que viu nele algo a mais e puxou para perto. de funcionário, virou braço direito e quase família, alguém em quem o empresário confiava mais do que nos próprios. só que com a doença terminal de victor, veio também uma promessa pesada: cuidar da filha dele. isso significa encontrar um marido confiável pra herdar a fortuna junto dela... ou, se nada der certo, assumir o lugar ele mesmo.
a família hochscheidt? uma desgraça para eisenhüttenstadt. e embora mikkel não se faça mais presente, o sobrenome ainda carrega ecos de violência, escândalo e dívidas impagáveis na cidade. a mencionada cidadezinha, alemã, pitoresca e decadente, na fronteira com a polônia, é marcada por graves índices de criminalidade, absurdos para qualquer padrão de cidade pequena da europa, e boa parte disso tem contribuição significativa da família de mikkel. o pai? viciado, fracassado em qualquer empreendimento legítimo e recorrendo ao tráfico da mesma substância que consome, era visto sempre correndo atrás de dinheiro para pagar fornecedores poloneses antes que estes cobrassem sua cabeça. a mãe? tão imprevisível quanto o álcool que consumia, batedora de carteira sedutora e fútil especializada em pequenos golpes em turistas desavisados. para mikkel, parecia que sua vida nascera destinada a caminhar entre essas sombras, sem ter como evitar que os próprios erros familiares o engolissem.
e ainda assim, algo o distanciava de seus quatro irmãos mais velhos. um senso crítico afiado, difícil de rastrear de quem herdara. inteligência que chegava a assustar. uma aptidão com números quase sobrenatural, para quem não havia tido muito em que se basear. ainda criança, já encontrava maneiras de racionalizar os débitos da família, sugerindo ao pai como organizar o dinheiro sujo, sem alarde. o pai subestimou-o, como todo adulto subestima uma criança que não se dobra, mas logo viu que mikkel não apenas entendia, como superava qualquer expectativa. aquilo que parecia arrogância, nojo e vontade de ser diferente de seus próprios pais, se transformou em valor. a família, com um novo contador, começou a respirar com dinheiro sobre a mesa, ainda que pouco.
wolfgang, mesmo com seu nome, nunca se misturava em matilhas, nem mesmo a em que havia nascido. observava, medido, calculava, e se afastava quando a situação cheirava a perigo. passar a vida inteira na ilegalidade, operando nas sombras, parecia mais assombroso do que tentador. na verdade, o loiro cresceu como quem observa um circo de perto. seus pais e irmãos, palhaços, ocupados demais com vícios e esquemas para notar algo além dos próprios umbigos. a atenção deles se dividia entre dívidas, bebedeiras e discussões que só serviam para reforçar o caos da casa. era uma infância em que qualquer gesto de inteligência própria era ignorado ou mal interpretado, e ele, paciente, aprendeu cedo que o mundo fora da família valia mais do que dentro dela. por isso escondia dinheiro, com a esperança de ter uma chance de escapar dali. a aprovação em ciências contábeis veio junto da notícia da prisão do pai, pelos delitos mais sérios. mal houve tempo de comemorar, e a família já perguntava: “você vai escolher a si mesmo, no lugar de nós?” e sim, ele iria. como fizera.
londres foi a primeira escolha, com pouco mais que alguns tostões e uma esperança fina. a universidade não era uma das melhores, mas dava conta do recado. sem bolsa integral, trabalhava em um clube de golfe, segurando tacos para homens riquíssimos com suas conversas pomposas. foi lá que conheceu victor bouchard. o homem reparou em mikkel logo de início, como raramente faria com funcionários comuns. havia a forma contida com que absorvia informações, no silêncio que pesava sobre qualquer ambiente. lembrava-se de suas preferências, antecipava pedidos. e em seu observar, um dia, a resposta que escapou de seus lábios antes que pudesse conter impressionou o homem. agradeceu, sorriu quase sem mostrar os dentes, e deixou-lhe o cartão. naquele instante, mikkel deixou de ser apenas empregado; havia se tornado alguém digno dele conhecer seu nome.
de uma hora para outra, alguém que conhecera apenas infortúnios, noites curtas e trabalhos incessantes conseguiu um estágio que dispensava os outros empregos. meses, anos depois, sua presença ao lado do empresário só se consolidava. o cargo crescia, mas o vínculo crescia ainda mais. respeito, confiança, quase uma filiação escolhida. mikkel tornou-se indispensável para o homem; sua perspicácia, frieza e silêncio calculado faziam dele alguém que o mentor estimava mais que qualquer laço sanguíneo (e vice-versa). e mesmo com proximidade e cargo consolidado, mikkel não nutria expectativas, ou ao menos não aquele tipo de expectativa. o anúncio da doença terminal do patrão trouxe mudanças importantes na na herança… agora, para que a filha assumisse o controle da fortuna, era imperativo que ela se casasse. e havia apenas uma pessoa em quem o mentor confiaria para manter a gestão intacta nesse meio-tempo.
a vida toma toda uma nova cor quando se é rico! mas ainda sim, mikkel não está na grécia para férias ou brincadeira. na verdade, fez uma promessa para o seu mentor de que não poderá se livrar tão cedo: se comprometeu a encontrar um pretendente à altura, e caso não o fizesse antes de sua morte… faria por onde a convencer de casar-se com ele mesmo. duas tarefas impossíveis, mas que pelo menos o levaram à possibilidade de desfrutar um cenário completamente novo em santorini.
𝒅𝒆𝒊𝒏𝒆 𝒔𝒆𝒆𝒍𝒆.
mikkel é sempre a pessoa observa primeiro, avalia cada gesto, cada respiração, cada vacilo, e só depois decide se vai interagir; e como. é calculista, frio na superfície, mas sempre carregando uma tensão interna, um jogo de forças invisíveis que o torna imprevisível. desde cedo, a vida em eisenhüttenstadt lhe ensinou que sobreviver exigia mais do que força, mas controle absoluto sobre si mesmo e sobre o que podia manipular. ele aprendeu a não se deixar engolir pelo caos, a racionalizar até os impulsos mais primitivos, a antecipar reações e planejar movimentos duplos, triplos, como um xadrez que nunca termina. essa consciência se traduz em suas relações; ele é leal, mas seletivo; intenso, mas contido; provocativo, mas discreto. quando interage com alguém, mesmo de forma aparentemente casual, há uma coreografia silenciosa de observação, teste e ajuste.
enquanto érebo pode ceder à compulsão ou à força bruta, mikkel se ancora na paciência, na análise e no controle de cada variável emocional. emocionalmente, mikkel é um paradoxo... ele sente profundamente, deseja intensamente, mas não se deixa consumir. a frustração, a necessidade, o desejo de posse se manifestam de maneira controlada, quase ritualística, e cada gesto, cada toque, cada palavra é medida, como se ele estivesse sempre dois passos à frente. sua frieza calculista convive com uma necessidade de ordem quase obsessiva, de racionalidade aplicada a tudo, negócios, relacionamentos, até mesmo os próprios impulsos.
𝒅𝒆𝒓 𝒇𝒍𝒖𝒄𝒉.
a maldição silenciosa em mikkel se manifesta quase como uma benevolência compulsória. ah, ele está sempre agindo como deveria, sempre colocando todos em sua frente, o orgulho de qualquer outro, a felicidade de qualquer outro. cada gesto, decisão, parece seguir pressão invisível que o obriga a atender expectativas, sociais, morais, emocionais. ele sente, e mesmo sem compreender ao certo o motivo, contrariar significa ter algo retorcendo em sua mente, uma culpa que o consome. a benevolência forçada o segue em cada interação, sempre em constante peso, limite, prisão invisível. ele deseja liberdade, quer agir segundo a própria vontade, quer explorar a frieza, a manipulação, a força que seu eu anterior possuía, mas a compulsão o impede. o sabor da frustração, um nó na garganta, um calor incômodo no peito. há uma luta interna constante entre o que ele realmente é e o que a maldição o força a ser. cada ato de bondade é ao mesmo tempo natural e forçado, cada sacrifício é ao mesmo tempo escolha e imposição. é um retrato de perfeição social e profissional, mas por dentro, há tensão, desejo e raiva contidos, quase proibidos de se manifestar plenamente.
é a antítese de érebo. enquanto a antiga encarnação buscava poder, dominação e prazer sem limites, a nova existência o obriga a refrear tudo, a render-se à moral, à ética, à bondade, mesmo quando isso é doloroso. o efeito é psicológico, físico, emocional. ele sente uma espécie de exaustão moral constante, permeado há momentos de rebeldia silenciosa... que cedem à culpa. incapacidade de ceder à própria escuridão, de se perder no que é proibido.
𝒖𝒏𝒅 𝒔𝒆𝒊𝒏𝒆 𝒇𝒂𝒌𝒕𝒆𝒏.
normalmente, prefere ambientes pouco iluminados para se concentrar melhor;
dificilmente come por prazer, já que faz das refeições um momento de rotina estratégica e muito rapidamente;
gosta de sentir o peso de objetos nas mãos, quase sempre, manifestação de curiosidade;
prefere andar por rotas conhecidas, sempre avalia os melhores caminhos para onde vai;
tem o hábito de checar portas e janelas antes de dormir;
uma pessoa táctil, também gosta de sentir texturas diferentes, couro, seda, madeira;
às vezes fala sozinho em alemão quando resolve problemas complexos;
ao conversar, tem mania de inclinar levemente a cabeça para estudar o interlocutor;
aprecia o silêncio antes de um evento importante, quase como preparação mental;
gosta de sentir o frio da água ou o cansaço de uma longa corrida quando precisa clarear a mente;
tem uma afinidade particular com sombras e penumbras.














