Tinham-me jogado para o chão com desprezo. Olhei para a cara deles, quase que jurei ver prazer no acto que estavam a praticar. Levei uma chapada e pensei em cair imóvel no chão. Mas isso não iria resolver nada, pois não? Fitei-os, com os olhos em lágrimas, sem nunca dizer para que parassem. De súbito, senti o meu dorso a ser invadido por pontapés. Ele estava com botas de biqueira de aço, mas não me doía. Eram quatro membros a pontapearem-me e apenas um cérebro para processar toda a dor que não estava a sentir. Apercebi-me, enquanto beijava a face fria do chão, que aquilo não iria durar muito tempo. Eles afastaram-se enquanto profanaram contra mim e isso deu-me tempo para me levantar. Mas não me apeteceu. Quis ficar ali a apreciar a minha dor, dor essa que não senti no exacto instante em que me invadiu. Havia sangue, pranto, suor e medo.
Ali fiquei naquele quarto para sempre. Aquele quarto era eu. Era sombrio pelas negrelas que me haviam flagelado. Não tinha cheiro porque a dor não é perfumada, e estava vazio porque eu apesar de não ter desaparecido, não queria ser vista.