Grande Merda
Acumuladora de Memórias
Dia 22, 1h18 da manhã.
Não sei vocês mas desde pequena, sempre tive o hábito de guardar as coisas.
Guardava tudo em uma gaveta. Um papel de bombom que eu achava bonito, uma florzinha que eu ganhava, um desenho de um amigo, cartinhas de bafo, desenhos, fotos... Enfim.
Tudo ia pra uma caixinha dentro da gaveta.
Depois que eu cresci um pouquinho, comecei a expor os meus desenhos no quarto. Tava criando uma bela galeria.
Até que o meu irmão, com toda a delicadeza dos seus três anos, rasgou tudo e jogou pelos ares.
Lembro que fiquei muito chateada. Mas no dia seguinte minha mãe me deu um caderno de desenho.
Passei a desenhar quase todos os dias nele. Guardava todos os meus desenhos. E a parede ficou vazia.
Branca.
anêmica.
Hospitalar.
Com as mudanças da vida, a gente sempre se mudava de casa. Em toda casa nova, o meu quarto continuava branco, sem cor.
Só tinha a minha mesa verde, os desenhos feitos na fita e colados na porta do guarda-roupa e o pisca-pisca na janela.
Eu não sei explicar direito, mas, por incrível que pareça, desde então, eu não me sentia mais no meu quarto.
Eu me sentia em um quarto.
Mas toda vez que eu abria a gaveta e via todas as minhas coisas, os meus desenhos, as minhas lembranças...
Eu me sentia feliz.
Eu via aquilo e lembrava que eu era uma pessoa alegre. Que eu tinha memórias felizes.
Era o meu grande segredo.
Quer dizer...
Quase.
Porque o meu irmão de três anos continuava mexendo na minha caixa. O que sempre me deixava irritada.
Mas isso é engraçado.
Porque ele dizia que aquilo era um tesouro.
E realmente era.
Então hoje, arrumando o meu quarto de madrugada, decidi tirar o tesouro da gaveta e jogar tudo na parede.
Lembranças.
Momentos.
Coisas que me deixam feliz.
Porque quando eu entro no meu quarto eu quero ver a minha felicidade.
Quero lembrar de quando fui no cinema com os meus irmãos.
De quando comprei broches no centro.
De quando reescrevi uma peça pra escola.
Dos momentos da minha igreja.
Dos animes que já assisti.
Da minha vida.
De quem eu sou.
Não só do branco.
Branco anêmico.
Sem vida.
Porque é nesses momentos que eu percebo que talvez a vida não seja uma grande merda.
Eis uma foto meio merda de como ficou kk








