@themousefromfantasyland @sabugabr @gravedangerahead
"Estou convencido de que meu primeiro contato com a música, o canto, o conto e a mitologia se processou através da primeira cantiga de acalanto que me entrou pelos ouvidos, sem fazer sentido em meu cérebro, é óbvio, pois a princípio aquele conjunto ritmado de sons não passava dum narcótico para me induzir ao sono. Essa canção de ninar falava no Bicho Tutu, que estava no telhado e que desceria para pegar o menino se este ainda não estivesse dormindo. Mas se ele já estivesse piscando, com a areia do sono nos olhos, a letra da cantilena era diferente: uma advertência ao Bicho Tutu para que não ousasse descer do telhado, pois nesse caso o pai do menino mandaria matá-lo. E aí temos sem dúvida uma enfabulação ou estória, uma melodia e um elemento mitológico. Amas e criadas encarregaram-se de enriquecer a galeria mitológica da criança, contando-lhe estórias fantásticas, de caráter francamente sadomasoquista como aquela da madrasta que mandou enterrar vivas as três enteadas. (Ouço uma voz remota exclamar: "Xô, xô, passarinho!...".) Dessa história das meninas enterradas - Capineiro de meu pai/não me cortes os cabelos/minha mãe me penteou/minha madrasta me enterrou... - guardo mais o terror que ela me inspirou do que o seu enredo. Por essa época a criança já caminhava, e a fita magnética de sua memória estava ainda praticamente virgem, pronta para registrar as impressões do mundo com suas pessoas, animais, coisas e mistérios. Através de estórias de cemitérios à meia-noite, meteram-me na cabeça e no corpo o medo da "alma de gato", um duende cuja forma e cor nunca me foram claramente revelados. Havia ainda o lobisomem, que costumava sair à rua nas noites de sexta-feira. Quanto aos contos de assombrações, o meu favorito era o do bravo homem que apostou com um amigo que passaria uma noite sozinho numa casa mal-assombrada. Ao anoitecer tocou-se para lá e sentou-se numa velha cadeira, na peça onde o fantasma costumava aparecer. Ao soar da meia-noite ouviu uma voz soturna que gemia: "Eu caio... Eu caio... Eu caio...". O valentão gritou: "Pois caia!". E do teto escuro tombou uma perna humana, com um baque surdo. (E a contadora da estória fazia "Buum!", sem imaginar, é claro, que estivesse alimentando com seu relato de horror um mal emplumado masoquista.) Passaram-se segundos e de novo se ouviu a mesma voz: "Eu caio..." O homem tornou a responder: "Pois caia!". E caiu então a segunda perna. O horripilante diálogo continuou e foram caindo, um a um, o tronco, os braços e finalmente a cabeça de um ser humano, que assim ficou completo. É uma pena que eu não me lembre o agora do resto da estória. Sinto muito!"
(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta, p. 60-61, 1973)
















