Como uma coincidência estatística virou a maior mitologia do rock — e por que o mundo insiste em acreditar que existe uma maldição.
Jim Morrison está morto numa banheira no número 17 da rue Beautreillis, em Paris. Não há autópsia completa, o médico que assina o atestado nunca examina o corpo com profundidade, e o caixão é lacrado antes que qualquer jornalista chegue perto. Ele tinha 27 anos.
Dois anos antes, quase no mesmo dia do calendário, Brian Jones — o fundador entorpecido e já expulso dos Rolling Stones — havia sido encontrado no fundo de sua piscina em Cotchford Farm, Sussex, a mansão que um dia pertenceu a A.A. Milne, o criador de Ursinho Pooh. Também tinha 27 anos.
Entre essas duas datas, num intervalo de pouco mais de doze meses, Jimi Hendrix sufoca em vômito depois de uma overdose de barbitúricos num apartamento em Londres, e Janis Joplin é encontrada sem vida num quarto do Landmark Motor Hotel, em Hollywood, uma seringa ainda ao lado da cama. Ambos tinham 27 anos.
Quatro mortes. Dois anos. A mesma idade exata. Nenhuma explicação sobrenatural naquele momento — apenas jornalistas de música e fãs enlutados comentando, em tom de assombro, uma coincidência cruel demais para ser ignorada.
Segundo o biógrafo Charles R. Cross, foi só quando Kurt Cobain tirou a própria vida em 1994 que a ideia de um "Clube dos 27" de fato se cristalizou no imaginário popular. Foi a internet nascente, a imprensa sensacionalista dos anos 1990 e, mais tarde, as redes sociais que transformaram uma sequência de tragédias isoladas numa mitologia com nome, número e — para muitos — uma maldição.
Esta reportagem tenta separar três camadas que se misturaram ao longo de meio século: os fatos documentados, as teorias que nasceram do luto e da necessidade humana de encontrar padrão no caos, e o folclore oculto que se anexou ao fenômeno — pactos com o diabo, numerologia cabalística, isqueiros brancos amaldiçoados e sussurros de sacrifício ritual. Nenhuma dessas três camadas é dispensável para entender por que o Clube dos 27 continua, décadas depois, sendo uma das lendas mais virais da cultura pop.
Como uma coincidência estatística virou a maior mitologia do rock — e por que o mundo insiste em acreditar que existe uma maldição. I. Um qu