Oiçam, eu percebo. Isto de insinuar a homossexualidade em alguém que é homofóbico é tentador, simplesmente porque sabemos o quanto o irrita. Dá mesmo vontade de o fazer porque, para nós, homossexualidade não é um insulto, é só uma cena. Às vezes até o fazemos casualmente, naquela de “não estás a dizer porque és reprimido?” Mas foda-se, meu. Vivemos também num tempo com a liberdade suficiente para parar e pensar sobre o que isto significa. Sobre o que significa criar imagens super conspícuas relacionadas não apenas com a homossexualidade mas a própria feminilidade e espetar na tromba de um assumido racista, homofóbico e machista -- que só quer que lhe dêem a atenção que lhe estão a dar. Podemos parar um bocadinho e pensar: quem é que isto afecta, realmente? Será que é o Ventura que se sente insultado, ou se calhar milhares de rapazes que seguem o programa do RAP, estão no armário, no seio de uma família conservadora, e vêm o paizinho a rir desta piada que usa a palavra “larilas”? É o rapaz gay que finalmente aprendeu a superar o trauma de ser chamado larilas na escola, só para ver um heterossexual utilizar a mesma palavra como punchline para insultar um facho?
Ou será que o facho quer mesmo saber?
Isto de fazer humor é muita giro meu, e toda a gente com um teclado e um box é humorista, mas há contextos a ter em conta. Eu percebo: fazer uma piada sobre “haha és gay” a um homofóbico é tentador, porque caímos muito facilmente na esparrela do: quero que sofras do mal que gozas. Mas quando pensamos isto, acoplamos logo a homossexualidade a “mal”, e o MAL começa logo aí.
Para quem não sabe, isto vem a propósito do comentário do Ventura ao Agir, que lhe chamou “gangster efeminado”. Esta foi a resposta que o RAP sentiu que estava à altura.
Esqueceu-se que o Ventura não é tanto homofóbico como é um boyzinho de famílias de bem alpinista que só quer trepar nas influências com as coisas mais controversas. Esqueceu-se que o André Ventura, embora abertamente homofóbico, não está tão desconfortável com a homofobia assim, tendo em conta que já escreveu ficção sobre homens gays (e da pior maneira). E no fundo, a conclusão que tiro disto é: achas mesmo, Ricardo, que o Ventura quis saber?
A segunda imagem é a (muito previsível) resposta do Ventura.
O que isto iniciou, naturalmente, foi uma troca de insultos entre duas celebridades (porque é mesmo a única coisa que vocês são, a este ponto) baseado em palavras prejorativas.
Larilas. Isto é o melhor que um comediante licenciado em jornalismo, e que ensina Escrita para Comédia em cursos de pós-graduação, conseguiu sacar. Ahaha, és larilas. Como o Miguel, miúdo de 14 anos, que teve de ouvir o pai dizer que, se fosse ele, dava porrada em todos os gays. Ou como o Zé, de talvez 17 anos, cujo pai que disse que preferia ter uma filha puta a um filho gay. Ou se calhar até o Joaquim, de 65, que está preso num casamento há 25 anos só para esconder algo de que tem vergonha de mostrar na aldeia. O pai do Miguel, o pai do Zé e a esposa do Joaquim? Riram. Riram a bandeiras despegadas. Que piada que teve pra eles.
E assim, num só instante, a palavra larilas -- que afectou a vida do Miguel, do Zé e do Joaquim -- passou a ter passe livre nas suas casas. Larilas é agora um termo que se atira para a frente e para trás, enquanto por dentro, se despedaçam.
Acredita, RAP, que não é impossível fazer piadas de homossexuais sem se insultar. Tu que proclamas a influência do humor inglês, devias se calhar ver uns sketches do Stephen Fry ou do David Mitchell, ou da Sandy Toskvig. é perfeitamente possível escrever-se sketches de humor sem recorrer ao insulto. Mas pegar precisamente num termo pejorativo, que durante SÉCULOS (porque a língua evolui, amigo) foi utilizado como arma não só contra homossexuais, mas contra homens num geral, para atacar violentamente a falta de standards de hiper-macheza, e danificou a sensibilidade e confiança de milhares de homens, e apontá-la a um fachistazinho que só está a tentar escalar e que já se viu, caralho, já se VIU que se está profundamente a cagar para o que é que lhe chamam -- ISSO foi uma coisa que causou (e vai causar) mais danos do que esperas, e ao lado errado.
Esta retórica do “homofóbicos são gays no armário” já está ultrapassada e mais do que confirmada que é falaciosa. É perigosíssimo recorrermos a esta narrativa porque acopla homossexuais (e gente LGBTQ em geral) a estes ideais quando são as suas maiores vítimas. É também uma maneira muito subtil (ou cada vez menos subtil, com o passar dos tempos) de impingir um certo sentido de perdão a atitudes degradantes e nojentas. O que me estás a dizer é “tens de compreender, porque ele na verdade só está a reprimir e a projectar o ódio” quando basta conhecer um homem casado com a sua homossexualidade reprimida -- UM, caralho -- para perceberes que não é mesmo assim que funciona, e que um merdas é só um merdas, e ninguém merece troféus de participação por ser gente decente.
“Mas Ana, isto é uma referência aos Produtores” será mesmo? Achas mesmo que é? Vai lá ver os Produtores outra vez.
“Mas Ana, é só uma piada” vide texto acima.
“Mas Ana, eu sou gay e não me sinto insultado” ainda bem que a TSF não te liga para fazer estatísticas, então, porque tenho más noticias: tu equivales a um e cheira-me desde aqui que és da cidade (10 pontos dizem de Lisboa).
“Mas Ana, a intenção de atacar um homofóbico dizendo que ele é gay é mesmo fazendo-o sentir-se desconfortável” repito: fizeste mesmo o Ventura sentir-se desconfortável? O homem que escreveu sobre homens gays (se não me engano, até era o Arafat) e com sida? O homem que no passado já chegou a escrever textos em defesa dos homossexuais? O homem que claramente só recorre a esta narrativa para escalar poder, dê por onde der? Achas mesmo, mas mesmo, que o deixaste desconfortável? Ou será que deixaste os seus seguidores desconfortáveis a ponto de agora virem aos magotes para as redes sociais protestarem? Mais: estou a ver pessoal de direita por aí (CDS, PSD, até monárquicos) a virem em defesa do Ventura porque A ELES -- os conservadores que protestam o casamento homossexual -- é que os deixou desconfortáveis. Não ao Ventura. Foi a ELES. Os católicos que espalharam vídeos a pedir para ir à missa? Os betos da Feira da Golegã? Os conservadores que vão a marchas pró-vida? A malta que votou contra o salvamento de migrantes no Mediterrâneo? ESSES estão insultados. ESSES revoltaram-se nas redes sociais. Mas o Ventura? Pfft, até se saiu ali com os photoshop skills para atacar “a esquerda”. E repara que o fez da forma mais eficaz possível: alusão ao Estaline. Que é, diga-se, exactamente o tipo de argumento que o seu seguidor atira. Estás mesmo a causar uma reacção ou a lançar barro à parede?
Querem uma merda que tem piada em alternativa, que já corre há algum tempo, e que não é homofóbica?
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Pronto, RAP. Sete marmanjos no Twitter têm mais piada que tu.











