Oogin: A morte é apenas o começo
A vida já se fazia presente naquele pequeno casebre abandonado por Deus. Um casal de humanos que, há muito, vivia por lá estava esperando seu 3º filho, que estava para nascer. O filho mais velho vigiava as plantações dos roedores que atacavam no cair da noite, pois, por mais que pequenas e pouco variáveis, os frutos daquele canteiro eram o que ajudava na alimentação de todos da casa. O pai tinha saído em busca de uma velha mulher que servia como parteira e que morava na vila próxima. Enquanto isso, o filho do meio se embrenhava no meio da mata para colher lenha.
A casa possuía ramas que a envolviam; os musgos, que não foram devidamente removidos das paredes, cresciam em pequenos pontos específicos; e a madeira, já trocada várias vezes por conta de insetos, tinha tonalidades diferentes. Era um bom local para se viver, mesmo envolto de árvores e estando localizado a duas milhas da fonte de água mais próxima. É claro: se fosse algo excelente, não teria sido abandonado. Mas era um bom local. Como toda casa, essa também tinha suas peculiaridades, como a maçaneta enferrujada que precisava de ¼ de giro extra para ser aberta e o ranger das tábuas que já estavam precisando ser trocadas. Porém, mesmo vivendo longe da civilização, rumores sobre o casal se espalhavam. Havia o rumor de que a mulher era uma bruxa, que o marido era seu servo troll e que seus filhos eram pequenos diabretes; ou o de que eram criminosos exilados por seu antigo país. Mas o rumor que mais frequentemente era ouvido era o de que eram pessoas tentando fugir de uma vida desgraçada e miserável, de perseguição.
O filho mais velho era calmo, tal como o pai. O pai era alto, parrudo e mal pronunciava palavras, a não ser que fosse necessário. A mãe não era vista com frequência, mas diziam ser uma mulher alta, gentil e de beleza de tirar o fôlego. Já o filho do meio, sisudo mesmo com pouco mais de 7 anos, estava sempre sério, não falava com ninguém e gostava de passar longos momentos sozinho, contemplando a vastidão. Ele ficava olhando em linha reta por horas, como se não pensasse em nada, e isso meio que assustava alguns viajantes que passavam perto do casebre.
Ninguém sabia seus nomes reais, mas o sobrenome era conhecido por todos, pois foi assim que se apresentaram ao comprar sementes quando chegaram. Todos os conheciam como os Caschardann. Mas, é claro, tinham seus nomes próprios: a mãe se chamava Xenia; o pai, Grendel; o filho mais velho, Thorvald; o do meio, Oogin; e a criança que estava para nascer se chamaria Nya.
Enquanto Oogin voltava com a lenha colhida, um grito bizarro ecoou da direção de sua casa. Ele largou a lenha imediatamente e pôs-se a correr. Ao correr, percebeu que se afastara muito da casa, perdido em seus pensamentos. Já estava cansado, e o suor que antes escorria quente por seu corpo agora esfriara com a cena que vira. Seu irmão, que cuidava das plantações, fora decapitado por uma lâmina, e o silêncio tomava conta da casa. A porta estava fechada, e ele hesitou muito em abri-la. Mas quando o fez, seus olhos viram uma cena que nenhuma criança de sua idade deveria ver.
Uma senhora, a quem nunca vira antes, estava com as entranhas expostas. Seu pai e sua mãe tinham sido apunhalados por uma espada Zweihänder, que ainda estava cravada em seus corpos, na altura do útero. Mesmo sem querer acreditar, seus pais jaziam mortos. Ao sair da casa, percebeu que, ao longe, o pequeno vilarejo ardia em chamas.
Seus únicos pensamentos eram: "Quem fez isso?" e "Por que fizeram isso?". Caindo de joelhos, ele suplicou pela morte. Não entendia por que fora poupado. O que faria dali em diante? Então, um pensamento lhe veio: "E se eu acabasse com tudo agora?" Pegou uma faca e a levou ao pescoço, mas, no momento em que ia cortar, Oogin foi tomado pela ideia de devolver aquela arma — ainda perfurando os corpos de seus pais. Removeu a espada, cavou covas para todos, até para sua irmã, mesmo sem ter um corpo para enterrar. Preparou uma mochila com itens para sobreviver por alguns dias, amarrou cuidadosamente aquela imensa espada às costas e seguiu sem rumo.
Com o tempo, Oogin precisou usar a espada para se defender de bandidos, pessoas mal-intencionadas e até animais selvagens. Isso o levou a aprender a manejá-la, mas ele ainda busca o dono de sua "companheira" para devolvê-la — da mesma forma que a recebeu: dentro da barriga do assassino de sua família.