Apegada às memórias de um passado tão distante, um longínquo não verbal e nem um pouco estrutural, sem sequer uma viga para sustentar.
Na espera de quem parece nunca voltar.
As lembranças de um céu azul bem claro, irradiando cor de ouro, ainda me encontram. É estranho como algumas memórias se tornam refúgios, mesmo que frágeis.
A gente foi amor, calor, fogo e dor.
A gente foi e não voltou.
Ah, mas quando éramos, éramos mais amor do que qualquer circunstância ou obstáculo. Era isso que parecia quando estávamos, quando nos olhávamos.
Insisto em te buscar nos meus sonhos e no nosso lar, que me deixou resquícios ou até mesmo migalhas do que a gente um dia foi.
Parece que, para mim, só existir sem você não basta. E, para você, nem sei se ainda existo.
Mas, afinal, qual história tenho para contar?
Como foi que deixei de assistir você? Por vezes, me sinto viva, apesar do estrago.
E eu me lembro, lá pelas últimas, enquanto eu cozinhava na sua casa, você deitada no sofá estudava. Eu, parada junto à bancada, vi nossa vida passar diante dos meus olhos e perguntei se você se casaria comigo. Você disse que sim, depois de muito pensar, mas não naquele momento.
Seria mais uma promessa vazia? O que restou dela são vagas memórias, que aos poucos vão se perdendo aqui dentro.
E, a cada dia que passa, mais longe você está, e eu ainda espero.
Subindo a avenida Amazonas, parando em cada memória que a gente foi, sentindo em cada lembrança a epifania de vidas que não vivem mais.
Não restou nada de sua presença, além das minhas lembranças; um princípio de taquicardia em um capítulo de caos.
A correria matinal para não se atrasar, o suor de mãos dadas em pleno verão, a despedida sem beijo para não perder o ônibus e de lá notificar que conseguiu entrar.
Outrora nós íamos e vínhamos para tantos lugares, do começo; na Augusto de Lima com a Bahia, gelo e limão não podiam faltar. Na Curvelo com a Contorno a gente se via, sem parar. Sentamos em bares por toda BH, fizemos compras e batemos perna, do Milionários ao Asteca.
Mesmo depois de tantos “eu te amo” no vigésimo quinto andar, no epicentro de Belo Horizonte, quase chegando aos céus, você manteve seus pés no chão.
Em pré despedidas na Amazonas; até o adeus sem você olhar para trás. E foi de lá, da Amazonas na esquina com a Contorno, o desencontro; nunca mais nos encontramos.
A grande brincadeira do mundo dar voltas e eu sempre cair
Cheguei a achar que você me odiava, por dias e noites fui prisioneira desse pensamento que me consumiu vitalmente, não tive coragem de ir direto a fonte e perguntar “você me odeia?” por medo da resposta e da dor que viria se fosse um “sim” dito por vós.
Matutei relutantemente sobre você, sobre eu e você até a óbvia conclusão de que o “nós” já não existe há tempos e há tempos que eu não consigo parar de pensar em você, me assombra em meus sonhos, me ilude em meus próprios pensamentos e acaba que por fim você mesma não falou um A, enquanto eu fico aqui remoendo pensamentos e criando mil versões irreais de mim, de você, de nós, completamente apegada a um “nós” passado, sem pensar nas brigas e discussões, lembrando das carícias, dos cheiros, dos pequenos agrados e prazeres de te ter.
Uma amiga disse que é necessário ressignificar esse sentimento e desejo que tenho por você, mas a verdade é que há tempos que já ressignifiquei e não entendo como ele ousou voltar à tona de forma tão abusada, não sei como conseguiu escapar se estava trancafiado a mais de sete chaves, passando por onde hoje só se tem cacos, estilhaços e desconfiança.
“Se for de vocês voltarem, a desejo de Deus, universo, destino ou o que quer que seja, vai acontecer.” – Me disse você, ou eu disse a você? A grande brincadeira do mundo dar voltas e eu sempre cair, há mais de vinte anos aprendi a andar e ainda assim tropeço na atmosfera que me despreza enquanto ser humano, fazendo-me parecer tola.
E tola realmente estou por insistir em ouvir meu coração que grita por você, pouco falta para eu gritar para você, o que falta?
O que falta? Coragem? Não é coragem.
É claro, toda história de amor tem uma pedra no meio do caminho, e se por deus você for minha história de amor, seu novo amor é a pedra no caminho e o problema é que eu não quero atrapalhar, mesmo tendo absoluta certeza que ela não é o amor da sua vida, e que se não for eu, não sei quem é, porque eu tenho certeza absoluta que ela não te causa contração ventricular prematura, mas claro, é uma escolha sua.
“Amor é onde eu queria estar com você...” se eu fechar os olhos consigo te sentir num abraço entrelaçado e um sorriso de gengiva com os olhos semifechados, mas ainda assim olhando pra mim enquanto a gente dá umas “balançadinhas” o mais próximo possível do ritmo que conseguirmos, eu consigo te ver comigo, meu bem.
Meu bem, “meu” bem.
Duro encarar a realidade que já venho falando desde o segundo parágrafo, “nós” não existe. E você não é meu bem, não mais, não como quando você acordava assustada de madrugada e se acalmava sabendo que eu estava ao seu lado, como nossos olhares sempre se cruzavam gerando megahertz e do seu beijo que me arrepiava o corpo inteiro.
E isso são apenas histórias, sem equívoco algum, como eu te amei ninguém vai amar, porque nosso amor foi único no mundo. Mas isso não te impede de amar outro alguém, e que egoísta eu seria para ser contra.
Depois que soltei sua mão não teve cola, grude ou chiclete que lhe fez querer segurar a minha novamente, eu sei disso. Eu fui um erro, como você mesma disse e eu sei o quanto é difícil acreditar em mim porque o primeiro amor é único, e fui o seu, o primeiro grande erro também afinal, né?
Pensei que tinha superado isso a mais de um ano e eu que tanto me orgulho de não mentir, cai na minha própria mentira. Eu sinto que não resolvemos tudo mesmo tendo conversado tanto.
São apenas três palavras formadas por sete letras, há quem prefira em duas palavras, formada por cinco letras... Seja como for, eu considero uma das, se não A frase mais difícil de falar. Em tese é um vocábulo básico, mas carrega um peso enorme na pronuncia e no sentimento que vem embutido, parecendo um arame farpado que me corta a garganta e a transforma em nó.
Isso me lembra de um episodio em que uma ex minha gritava no meio do shopping: “EU TE AMO, GABRIELA! EU TE AMO!”, após uma tarde de dr comigo tentando reconciliação por sabe-se lá qual vez. Enquanto ela gritava, minhas bochechas coravam e eu só queria me enfiar dentro de um buraco. Ela só parou de gritar quando eu com muito custo consegui fazer o mesmo, porque realmente a amava e ela sabia, só foi difícil de falar.
Hoje em dia cansamos de ver rasas declarações de casais que em poucos dias já se separam e de certo modo, isso vem se tornado cada vez mais banal.
Conseguimos banalizar o amor, dizem: “eu te amo” por ai como se fosse um “bom dia” qualquer, sem mais nem menos.
Outra vez em que ouvi o mesmo “eu te amo” por outra pessoa demorou algum tempo para perceber que não era amor e sim paixão. E entre o amor e a paixão, a paixão e o amor há uma grande diferença. Nesse caso em especifico fica obvio que o amor não trai, não mente, não te usa ou te esfaqueia pelas costas, não que a paixão faça isso, mas vocês entenderam.
Apaixonar é fácil, a paixão platônica está aí como referência. Olhares se trocando ou não a paixão vem à tona. Só que o problema é que a paixão acaba. Não estou falando por falar, é comprovado cientificamente, ela dura apenas alguns meros meses e olhe lá.
Já o amor... O amor não acaba, ele se transforma, mas isso é assunto para outro texto.
O amor é mais complicado, envolve os dois, envolve escolhas, um abre a mão de um teco ali e o outro de um teco lá. Amar dá trabalho de juntar dois mundos e concilia-los, mas também não é pra ser tão difícil, é pra ser leve e prazeroso. Amar às vezes dói, mas só às vezes, porque amar não é pra doer tanto, é pra ser companhia, ser presente, ser ombro e amigo, dar puxões de orelha quando precisar e também dispor de colo, amar é planejar, é construir, deixar rolar, amar é compreender, ouvir e ajudar, é crescer junto e respeitar. Amar é tudo isso e um pouco mais, cada um com suas peculiaridades.
E o amor romântico qual tanto falo, não cai do céu nem vende em loja, posso contar pra vocês onde o encontrar? Ele vem nas entrelinhas da paixão. A paixão está lá descarada e o amor envolto a ela, como se fosse uma criança escondendo atrás da saia da mãe, e aos poucos vai dando a ‘cara’, vai crescendo até aquela hora que você simplesmente sente no peito, não tem como explicar, é particular.
Mesmo não gritando: “EU TE AMO!” no meio de um shopping ou para os mais de quatro continentes no mundo, eu amo ela e ainda tem paixão, vocês vão ver... Eu amo seu sorriso e a forma que ela sorri com os olhos, seu cheiro, seu toque, seu cabelo quase sempre bagunçado, seu jeito engraçado de ser, amo seu riso e quando a faço rir, quando me explica algo arqueando as sobrancelhas; ficando séria, quando me ajuda a ser melhor ou quando enfia o que quer que seja que esteja comendo na minha boca, amo seus beijos e quando acompanho sua respiração ficando ofegante, me puxando pra mais perto de si, quando faz chantagem por algo bobo me chamando de neném com uma entonação específica, inclusive, das vozes estranhas que ela faz e até como conversa com seu gato como se ele entendesse tudo, e no fundo, parece que entende. Em suma, eu a amo como um todo, mesmo que aqui exaltando apenas as partes boas, todos temos partes ruins que fazem parte do pacote.
Amo ela e cada detalhe.
Você enquanto leitor, o que espera do final dessa historia? Um final feliz? Se for, ficarei devendo.
Mesmo a amando, sabendo que ela acorda mau humorada e é extremamente difícil de lhe tirar da cama de manhã, ou que sua cor favorita é verde e ainda assim combina com todas as outras cores, em específico o azul.
Mesmo olhando em seus olhos e eles brilhando, não mentem, mas infelizmente para mim, também brilha para outra pessoa.
Talvez eu seja antiquada e/ou egoísta em querer ter aqueles olhos brilhando apenas para mim, ser a única companhia para dar-lhe prazer na cama, ser sua confidente e única amante. Será que entre esse meio tempo em que pedi honestidade e deixamos rolar, fui à única que ela levou a cozinha e preparou café? A única que ela teve completamente despida de corpo e alma e viu conforto nos olhos, acariciando o rosto antes de dormir?
Mesmo com tudo dito e muito sentido, o amor não é e nem mantem tudo.
Ainda que ela pareça ser tudo para mim.
O que fui para ela?
E não esperem que eu diga aquela baboseira de: “espero que ela seja feliz”, certo que no fundo espero, mas preferiria se fosse comigo, mas não é sobre mim, é sobre nós, demanda de duas pessoas para fluir.
E também não vou dizer que espero que ela encontre alguém que a ame e a faça rir, prepare um jantar a luz de velas, que descubra a música perfeita de sua banda favorita para tocar ao fundo, alguém que a leve flores, café na cama ou faça massagem nos seus pés, alguém que atravesse a cidade pra vê-la nem que seja por algumas horas ou poucos minutos, alguém que de bom dia e boa noite todo dia, alguém que esteja presente quando ela não conseguir conter lagrimas e procurar um guardião para um segredo ou alguém para papear quando não conseguir dormir.
Não serei hipócrita em desejar-lhe alguém que faça tudo isso, porque eu já fiz. Mesmo que ela não tenha pedido nada.
E se for para encontrar alguém, espero que me re{encontre e queira me ter com ela.
Espero que se ela um dia mudar de ideia não hesite em me ligar, as três da manhã ou às onze da noite, no meio da semana ou no fim dele e quem sabe até que daqui dias ou semanas. Que essa distância e aperto no peito causada por divergências sejam apenas páginas que viraremos em nossa história que acabou de começar.
No fim, fiquei só por ouvir um: “acho que te amo”, que foi um achado e tanto, e não tive a oportunidade de dizer: “eu te amo!”. De achismo bastava eu achando que teríamos algo a mais. Em suas palavras banalizadas, não tínhamos “nada”. Parafraseando Parmênides: “para nada existir, nada tem que ser algo”, e era bom o algo que tínhamos.
É sobre essa liquidez no amor que tanto falam? Somos uma geração perdida em desamores e decepções, somos e estamos fardados ao fracasso no amor, porque afinal é tão fácil de falar, mas não sabemos amar. Como diria O Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”. Há quem desista rápido de mais. Há quem se acomode e não queira tentar ou mudar. Há varias versões que se encaixem no "há [...]".
E quer saber? Eu não quero mais paixões, nem amores, nem histórias para contar. Porque acaba que me perco, que me entrego e mergulho de cabeça em águas rasas. Acaba que eu sempre amo sozinha, acaba que eu sempre fico sozinha. Mas a quem eu quero enganar? Um dia sei que alguém vai escolher ficar.
E no mais tardar, queria ter tempo para dizer: "eu também acho que amo você!".
Por Gabriela Souza, e para ela: meu delírio radiante.
A dor do coração partido e a falta que ela faz chega à boca do estômago, sempre assim, na hora que deito.
Não que a vida parou e não tenha maiores preocupações com o trabalho, faculdade, amigos e família. Mas parece que meu cérebro programa um horário diário para pensar nela, seria para não esquece-la?
Hoje a reflexão foi sobre quantas portas tem em sua casa e porque eu saber disso. No meio de um isolamento social causado pela pandemia não temos vivências juntas em botecos, restaurantes, museu ou parque de diversão. E não sei qual lado da mesa amarela do boteco ela prefere sentar ou qual seria o nosso bar. Não sei quanto tempo ficaríamos olhando roupa na Marisa ou C&A. É engraçado né? (Modo de dizer.) Nem sei ao certo seu lugar favorito no cinema e se comeríamos um BK ou compraríamos pipoca antes da sessão começar.
Basicamente pulávamos uma para casa da outra, revezando mais aos fins de semana.
São 11 portas se você quer saber e também há um taco solto assim que sai do quarto para o corredor. Pequenos detalhes que não notaria nem daria atenção se não ficássemos a maior parte do tempo lá.
É ruim não ter feito o circuito da praça da liberdade ou aproveitado um festival na praça da estação e também nunca fomos a shows ou boates, mesmo que eu odeie boates.
Daqui a 2, 3 anos quando já nem lembrarmos mais da existência da outra e por acaso esbarrarmos lá no bar da Cássia, tomaríamos um litrão e conversaríamos sobre isso? Sobre uma paixão na quarentena?
Se não fosse essa confusão e fosse em outra época; ocasião, será que nos encontraríamos? São tantas perguntas não respondidas.
Hoje em dia o isolamento só existe para quem tem condição, quem não tem segue a vida "normal", pegando ônibus cheio e trabalhando na rua até tarde da noite. Há quem se arrisque a ver um filme numa sala de cinema completamente fechada ou sair para jantar, não que a vacina tenha saído e que a doença não seja altamente contagiosa.
Inclusive nem sei como ela está, chego a pegar o celular e procurar seu número que havia salvado em algum lugar caso precisasse, porque não daria certo ter seu número a mostra na lista de contatos e a ver on line no WhatsApp numa situação como essa por exemplo.
Já se passaram semanas ou meses, sei lá. E essa dorzinha chata no peito parece nunca passar, a metacognição é a raiz da auto sabotagem. Quanto mais queremos parar de pensar em algo, mais pensamos, nosso cérebro é extremamente jocoso.
A gente tentou, sabe? Ou pelo menos eu tentei. Se ela quisesse o mundo eu facilmente pedia três para viagem, colocando um laço para presenteá-la.
Mas o mundo também já foi nosso ou algo do tipo.
Se estivéssemos em época de DVD seríamos clientes VIP’s das locadoras, mas em tempos de internet os sites não nos da “olá” nem perguntam: "Gostou do filme? Chegou um novo ontem, vai levar?". A gente assistia pelo menos cinco filmes por semana ou alguns episódios de séries, mesmo que distantes; cada uma em seu canto, sincronizávamos o filme e comentávamos por ligação.
Chegava a ser também um web namoro. Regressão para pré-adolescência e adaptação para atualidade.
Às vezes também dava pra sentir saudade, uma tosse ali ou uma rouquidão evitávamos contato por segurança, porque além de nós duas havia nossas respectivas famílias, nem todo mundo pensava assim o que ainda é péssimo porque nos obriga a ficar mais tempo isolados.
Certa vez fomos ao parque municipal quando reabriram seguindo protocolos de segurança, estava vazio e silencioso, tirando as crianças que por vezes rodeavam. Era bom esses pequenos momentos que tínhamos contato com a natureza porque na maior parte do tempo trancafiadas em casa mal víamos árvores ou conseguíamos escutar o canto de um bem-te-vi. Da saudade desse dia. Conversamos bastantes sobre historias do passado; nada acontecia de novidade, mal mal uma mexerico do trabalho ou fofoca da internet. E depois de tanto falarmos só ficamos em silêncio ouvindo os pássaros e vendo os enormes patos rebolando pelo parque. Tudo foi ótimo mas aquele beijo que demos na hora de ir embora foi inexplicável de bom, se soubesse que não teria outros logo mais pediria replay sem hesitar.
E aqui está toda confusão aleatória que penso antes de dormir, falando em dormir, é péssimo não tê-la deitada aqui no canto roncando, e também é péssimo saber que vou acordar e ela não vai estar.
Maldita dor do coração partido que não se resolve com uma dipirona ou dorflex, quem sabe neosaldina?
Enfim, aqui em casa são dez portas, será que ela notou? Não faço ideia e também que diferença isso faria?
Agora o mal mesmo é revirar a galeria.
Eu preciso dormir.
E se eu contar para vocês quem sempre aparece em meu sonhos? Nesse caso parece que ela também sonha comigo, uma espécie de conexão paranormal? Ou apenas meu cérebro idealizando o que quero ver?
Pois chega.
Vou ver mais nada.
Questão de milésimos de segundos depois, fiquei sem reação. Teve uma rápida chamada. Dois toques, nem deu tempo de pensar e ela já havia desligado.
Devo retornar? Ou apenas sonhar? Fingir que já estava dormindo também é uma opção, como saberia que era ela? Ninguém mais decora o número dos outros, bem, ninguém da minha idade que eu conheça além de mim.
E se for alguma urgência? Não é normal ligar para as pessoas de madrugada.
Tá! Vocês estão certos, eu retornei.
Que os sonhos esperem e que o sono se desfaça, loucura ir para lá às duas da manhã? Só vou descobrir se for, não é?
Começou com um: "Tá tudo bem?" e acabou em:
— Vem pra cá, vamos conversar.
— Agora? São duas da manhã.
— E?
...
— Isso é uma boa ideia?
Houve um silêncio como se ela estivesse analisando a situação.
— É uma péssima ideia.
Então eu simplesmente fui atravessar a cidade para vê-la. E depois de horas de choro, lavando as roupas sujas, calcinhas e colocando botões em seus respectivos lugares sem nenhuma falácia.
Ela me beijou, ou eu a beijei? A gente se beijou, e se encarou. Ela alisou meu rosto por segundos e eu segurava sua mão, absorvendo o momento.
De repente lá estávamos nós despidas cientes que quando acordássemos não encontraríamos algumas peças de roupa. Reconectamos da carne a alma tentando por em dia os dias perdidos e saciar a vontade que tínhamos uma da outra, rolavamos na cama entre gemidos, tapas e arranhões, sem mais caricias.
Deitadas cobertas por um leve lençol para não sentir frio quando o corpo esfriasse, novamente nos encaramos enquanto ajeitávamos em uma posição anormal, porém super confortável e quando notamos a claridade vindo de fora, já era dia.
O sol já invadia as frestas da janela, ela se levantou e puxou a cortina numa falha tentativa de escurecer o quarto.
Nos ajeitamos de novo e minhas mãos junto às dela pairavam sobre seus seios, conseguia sentir cada batida de seu coração até que os meus aparentemente sincronizaram com os dela. Com um beijo em minhas mãos me desejou bom dia como se fosse noite e eu retribui. Assim fomos dormir enquanto o mundo acordava.
Mas o que eu tenho a ver com o resto do mundo se meu mundo estava bem ali nos meus braços? O resto não importava.
Tenho pensado sobre como o olhar fala, tirando o fato em que vivemos em tempos de uso contínuo de máscara, onde é claro, só vemos olhos às espreitas.
Desde sempre ele fala por nós, quando somos tão puros, pequenos e inocentes, incapazes de comunicar com palavras ou gestos, quem nos dá colo sabe se estamos atentos, tristes, com fome antes mesmo de berrar... E quando somos crianças e já sabemos falar, andar, mas ainda assim nos faltam palavras depois de uma briga boba na escola, a vó te olha e já sabe que algo ruim aconteceu. Não poderia ser diferente quando crescemos e vamos de jovens meramente iludidos a adultos terrivelmente frustrados e/ou apaixonados, e quanto aos idosos? Ainda não sei bem, mas assim como nossas avós nos entendiam sem uma palavra se quer, agora também sabemos ler aqueles olhares demasiadamente cansados.
E se cada olhar esconder um universo dentro de si? É interessante aprofundar nesse assunto.
Sabe quando você acorda cedo indisposta e precisa de uma água no rosto para desapertar? E por alguns milésimos de segundos se vê atônita? Bem, esqueça-se das espinhas, de seu cabelo bagunçado e das olheiras de noites mal dormidas, foque naquele instante em que você chega tão próximo de seu reflexo no espelho e nota aquela pequena “grande” imensidão castanha, também conhecida como íris.
Então, eu vejo a íris como um “universo” e seguindo esse pensamento, carregamos universos, certo? A probabilidade de uma íris ser idêntica a outra é aproximadamente 1 em 1072. Ou seja, seguindo essa matemática de probabilidade temos certa garantia que não haverá nenhuma íris idêntica à outra no mundo.
Voltando aos termos leigos, diga-me o que acontece quando diferentes universos (metaforicamente) se encontram? Spoiler: não tem fuga.
Naquele triz em que o olhar de duas pessoas se cruzam e os universos explodem ofuscados pela expansão das pupilas perdidas em breu é que se percebe: “fodeu!”. Não é o linguajar mais apropriado, porém não há outra palavra no vocabulário português para descrever tão bem quando se percebe que não tem como correr, que já perdeu tudo, ficou completamente exposto; desarmado, e sem nem querer ou perceber estar envolto de uma nova conexão. Seriam as almas se conectando? Há quem acredite que sim, porque não tem explicação, não tem como prever ou se prevenir, simplesmente acontece. De fato que: se a eletricidade que corre pelos fios e ilumina a cidade fosse da energia emanada pela conexão da troca de olhar, com um milésimo daquele segundo teria energia suficiente para a cidade inteira ficar iluminada por horas ou quem sabe? Talvez dias.
Os ponteiros do relógio não hesitam em continuar, assim como o eixo terrestre girando, mas para as duas pessoas em coalisão, o mundo parece parar e eu sei que se tivessem asas, estariam voando, de tão leves, encantadas, apaixonadas, sem nada mais no mundo a importar.
O coração acelerado como dizem: “saltando pela boca”, e também há quem fale que já tenha sentido “borboletas” no estomago, aquele incomodozinho de ansiedade e claro que o peito berrando, feito bobo; apaixonado. A boca chega a ficar seca, as palavras parecem difícil de serem formadas na primeira vez que isso acontece, dá um nó na garganta. E agora?
Se os “divertidamentes” deles estivessem sendo filmados aposto que estariam em pânico; desesperados, correndo em círculos com o alarme estridente disparado junto à luz vermelha cintilante e claro, todos gritando: “FODEU! ALERTA VERMELHO!”. Puro caos.
É literalmente assim, a paixão chega do nada nos desestabilizando, pegando-nos desprevenidos; como um tiro a queima roupa.
Entenderam a forma que o olhar fala? Não teve palavras, mas você simplesmente sente e sabe o que é, isso que importa, porque o olhar não mente.
Todas as vezes que meu olhar se cruzou com o de alguém no acaso; no momento, o mundo parou. Subindo-me a sensação de desejo; vontade, de “quero mais”, por ora na rua, calçada, sala de aula, no serviço ou que fosse na subida de uma escada, do nada.
Agora, deixando o passado e histórias a parte para lá, toda vez em que nossos olhares se cruzam e acontece àquela explosão sem aviso prévio que falei, meu coração acelera, meu peito se aquece e me falta fôlego, porém não me faltam palavras, emanando desejo e vontade de você. Tenho conforto e sinto um ar de casa, o que não impede minhas bochechas de corarem, afinal, se como falo não parecer, eu me acanho com seu olhar fixado em mim, e estando sem barulho ao fundo juro que sou capaz de ouvir as engrenagens do seu cérebro funcionando, tomando notas sobre cada detalhe expresso por mim. É nesse exato momento em que uma de nós sorri primeiro; de forma pura e quando seus lábios começam a formar o sorriso você nem percebe, mas seus olhos sorriem junto e diante de Deus, se tiver alguma forma de me perder mais em você, eu me perco sem mapa, relógio e hora pra voltar.
Após o sorriso e mesmo não me vendo, sei que minhas pupilas continuam dilatadas junto as suas, nossos lábios se tocam, criando uma faísca para uma nova explosão: “BUM!”, voltamos à estaca zero e tenho a certeza que estou perdidamente apaixonada por você, que me olha de volta de forma serena, sem querer nada, enquanto só estamos ali nos encarando em completo silêncio, e isso basta. Você vê que gosto de você, assim como vejo que gostas de mim. Nem teria como esconder.
Assim tenho à falsa sensação de que vai durar para sempre e vontade de congelar o tempo para que dure… mas tola como sou esqueço que o “para sempre” sempre acaba, em culpa, em incerteza, em nada, simplesmente acaba.
Da mesma forma como a primeira vez que tive total certeza e acanhei-me toda ao dizer:
“Te amo!”.
Para ela saber que a clamo
Nos meus sonhos mais leves e profundos onde me afogo no seu afago
Toda manhã quando abro meus olhos e toda noite quando os fecho com céu estrelado
Para ela saber que de tanto ficar longe
Sou feliz e grata por estar perto
Perto, mas não tão perto
Mas um perto bom, de não estar tão longe
Para ela saber que eu quero
Eu a quero
E como quero
Queria poder não querer tanto
Para ela saber que tem um sorriso lindo
Mesmo andando de cara fechada
Sei que é apenas fachada
Para ela saber que eu mudei
Pois ela sabe que mudou
Nós mudamos com mala e tudo
Viajamos por vilas e mundos
Para ela saber que meu coração acelera ao sentir a presença dela
Que me perco ao tentar vestir minha melhor roupa
Mesmo sabendo que ela não se importa
Que minha ansiedade dispara quando os minutos dentro do ônibus parecem infinitos
Mesmo sendo poucos minutos, pequeno percurso interminável
Para ela saber que seu cheiro me acalma
Me excita
Me instiga
Me faz ter desejos obscuros
Mas não escuros
Chegam a ser claros
Para ela saber que é motivo do meu sorriso de canto
Que me encanto ao vê-la cantando
Para ela saber que sou ouvidos
Abraços, beijos e carinho de mão
Sou diário, confidente
Sou amante, que ama
Sou manta, que protege
Para ela saber que eu sinto
Como já senti muito
Por parecer sentir tão pouco
Mesmo sempre sentindo muito
Para ela saber que eu estou aqui
Como sempre estive
Como sempre digo
“Aconteça o que acontecer,
Eu sempre estarei.”.
Para eu saber que falei tudo
E não ficou nada engasgado
Ou algum fardo pesado
Passado, sem ferro
Prata ou ouro, nem mesmo cobre
Como me cobro
Para ela saber que nada cobre seu espaço
Como meu amor
Como meu dengo
Como minha ouvinte
Como minha confidente
Como minha companheira
Como minha namorada
Como minha amiga
Como minha metade transbordada
Como quem me transborda além das bordas
Bordadas em linha, nesse quadro da vida
Ávido.