⟨ ❝ M A R I S A G O N Z Á L E Z ❞
Senhoras e senhores, permitam-me apresentar Marisa González. Nativa de Medellín, Colômbia, essa adorável donzela de 23 anos está aqui para vencer. Muitos dizem que se parece com Lindsey Morgan, mas nós discordamos. Afinal, toda beleza é única.
— She was like the moon, part of her was always hidden away. At first, they are a mystery, but is there beauty in their history?
— ( ♕ ) Olhos inchados encaravam o papel chanfrado com o logotipo da marinha colombiana. Mais uma baixa contra o tráfico de narcóticos, a menina tinha plena certeza, ainda que as palavras não fossem tão específicas. Diziam o mesmo em todas, apostava; morto em serviço. Aprendera a ler há pouco, e o desgosto ao ter palavras tão brutais como uma de suas experiências com a leitura trouxeram um tipo de desprezo pela arte, era certo. Marisa tinha cinco anos quando a missiva chegara; a avó por parte de mãe se recusara a lê-la e, criança espoleta e curiosa que era —— um pequeno diabo, muitos diriam ——, levou a carta para seu quarto naquela noite, intrigada. Desejava não o ter feito, era evidente, mas o estrago há muito já estava feito. Encarando o teto desbotado da casa no subúrbio de Medellín, ela se lembrava tardiamente da história que a avó sempre contara sobre seu pai. Um herói de guerra, um dos que não se dobraram às vontades de Escobar em meados dos anos oitenta; um sobrevivente, por assim dizer. Catalina era uma das gueixas mais desejadas de Bogotá, participando de diversas atrações e conhecida por todos como a dália de lábios carmesim, capaz de mostrar a qualquer um o real significado da beleza, fosse exterior ou da própria alma, por mais piegas que aquilo parecesse naturalmente. Enrico fora a sua desgraça, e isso até mesmo a garota de sete anos sabia dizer. De casamento marcado com um dos homens mais poderosos do país na época, a gueixa escolhera deixa-lo no altar para fugir com o soldado, certa de que ele traria a sua verdadeira felicidade. Eram todos condicionados a pensar que gueixas eram seres etéreos, mas Catalina sabia muito mais do que a reles plebe; a herança a fizera se desprender de laços familiares, viver única e exclusivamente em função de homens mesquinhos e arrogantes e, além de tudo, fizera com que se esquecesse o que era ser alguém normal. Em meio ao anonimato, ela encontrou paz novamente, a vó cantarolava em meio às estórias de ninar à pequena González. Uma pena que, dois anos depois, a jovem de cerca de vinte e quatro anos veio a falecer concebendo justamente a criança que agora olhava para o teto sem um mínimo de vontade de se levantar.
— ( ♕ ) Perder a mãe foi fácil, pensava. Era um mero bebê, não estabelecera laços com a outra, não tinha porque se vestir de luto ou chorar sua morte. Simplesmente não sabia que Catalina existia até a avó começar a falar sobre ela quando o pai se ausentava —— três, as vezes cinco vezes na semana; Marisa só o via quando pequena durante os finais de semana, tão ocupado que se tornara. Lidar com o luto nunca fora um dos pontos fortes de Enrico, a avó falara; conhecera-o antes de todo o envolvimento com a filha, de toda o escarcéu que formaram na Colômbia, e ele nunca mudou aquele aspecto. Matar se tornou o seu objetivo de vida, por mais contraditório que aquilo pudesse parecer, e tudo isso culminou naquela carta; na mesma carta que jazia mais do que amassada entre suas mãos, parte das palavras manchadas por conta das poucas lágrimas que derramara em honra do homem. Os anos seguintes passaram como um borrão para a pequena; em meio às ruas mal pavimentadas de Medellín, cresceu como um menino, especializada em socar seus amigos sempre que enchiam as bocas imundas ao falarem sobre seus pais: como a sua mãe era uma prostituta bem paga e o pai era um bêbado desregrado. Enrico era honrado!, lembrava-se de gritar sempre que o assunto vinha à tona, e sempre acabava ensanguentada, cheia de hematomas quando separavam as beligerantes crianças. Apanhava ainda mais da avó quando chegava em casa, e a mais velha chorava sempre que tinha que dar-lhe algum tipo de sermão sobre seus modos. Não gostava de pensar sobre os falecidos, e Marisa lembrava-a constantemente deles. Era hora de ir embora, pensava. Ajudaria até mesmo em sua aposentadoria não ter mais uma criança como ela por perto. Marisa atraía problemas, e era algo que a mulher simplesmente não poderia mais suportar.
— ( ♕ ) Com o pouco de influência que o nome de Catalina ainda fazia, vendeu-a por um bom preço à oky-ia de Bogotá, longe de más influências e pronta para se tornar uma bela flor, que muito em breve traria a honra que o país precisava depois de anos a fio sob o comando do narcotráfico. Assim que Daniella viu a menina, entretanto, sabia que traria trabalho; por pouco não diminuiu o preço da venda, mas algo em sua mente a levou a pensar que o nome de Catalina seria suficientemente valioso. Marisa valia ouro, meramente não sabia; o fogo que queimava em seus olhos seria apagado com o tempo, esperava, e ela se tornaria uma bela dama, pronta para vender a virgindade ao comprador mais opulento, que pudesse pagar mais pela honra de estar com a morena. No momento, no entanto, era um moleque. Viera aos pés de Daniella aos dez anos com uma careta feia e ofensas prestes a serem destiladas a medida em que os punhos cerrados e o maxilar trincado demonstravam a agressividade inerente —— herdada do pai. Ela aprenderia, e Daniella se certificaria que fosse a gueixa mais bem paga da Colômbia, senão do mundo inteiro. Recusou a despedida para com a avó, incapaz de olhar nos olhos da mulher que a vendera, assim como vendera a sua mãe, anos antes, à mesma oky-ia.
— ( ♕ ) Os anos seguintes foram extremamente estranhos para a menina; de jogar bola, fora obrigada a entender de línguas, de história, de música, dança e artes em geral. Quanto mais tempo passava dentro das oficinas, mais odiava o lugar; era um espírito livre, uma pantera que simplesmente não poderia se conter por muito tempo, ou ao menos era assim que pensava. Até o mais selvagem dos espíritos era contido, eventualmente, e Daniella só precisou ter paciência até que a morena se interessasse por algo que não jogos masculinos, que em nada divertiriam os compradores aos quais mirava no momento. Fora a música que tomara sua atenção, mas não da forma que a gueixa mais velha realmente esperava. Em meio às danças latinas, Marisa encontrou o compasso e um tipo de paz que jamais encontrara no restante da oky-ia; os passos ingênuos e incertos em não muito tempo se transformaram em uma espécie de segunda pele para a morena. Não se importara com tecnicalidades, ainda que Daniella tentasse impor na González a perfeição a qual era necessária às gueixas; meramente sentia a música, se conectava com ela e simplesmente imprimia o que a canção trazia para si —— dentre as clássicas, González chegava a se sentir melancólica, infeliz, mas os gêneros mais animados, mais frescos e enérgicos a faziam delirar em meio aos acordes do violão e da bateria. Não demorou muito até que González se distanciasse um pouco da matriz natural das gueixas da oky-ia; desvencilhando-se o máximo que conseguia do local para ir às festas do submundo de Bogotá. A baça luz, o bate-estaca ressoando em seu peito e o montante de pessoas simplesmente seguindo o ritmo da música em muito a deixava estupefata, fazia com que os olhos, naturalmente agressivos, levantassem as chamas da menina que um dia fora, bem diferente do pequeno robô que Daniella criara.
— ( ♕ ) Passara a viver uma vida dupla; de dia, dentro da oky-ia, tentando ser o exemplo perfeito de gueixa que Daniella desejava —— desistira de tentar contrariar a mulher, os hematomas das brigas de quando era criança em nada se comparavam com os que a gueixa deixava em seu corpo quando a desrespeitava em meio às outras, e ainda que não aparentasse, Marisa prezava muito pela própria preservação ——, enquanto, à noite, deixava-se guiar pela música. Fora a única forma que encontrara para se manter sã em meio àquele mundo. O narcotráfico, todavia, nunca se ausentara da Colômbia, de forma que, ao descobrirem da existência da pequena, assim como a sua profissão, não poderiam deixar de observá-la com outros olhos. Marisa era um símbolo: a união entre um dos que trouxeram horror à classe no início dos anos noventa e de uma gueixa renomada, não poderiam deixa-la passar ilesa. Era uma forma de se vingarem pelo rumo que tomaram com o passar dos anos, sempre escondidos, longe dos olhos públicos, via de regra. Aos dezenove, Marisa deveria voltar de mais uma das raves —— pela primeira vez tinha sido convidada a subir à cabine do DJ e a mostrar as capacidades de mixagem ——, mas foram mais rápidos, espertos e fortes do que a gueixa. Cabe citar que ela provavelmente não seria tão alienada se ainda continuasse a viver entre as vielas de Medellín, mas uma gueixa sempre deveria se mostrar indefesa e intocada. Sequestraram-na por dias, mas não tocaram na morena. O resgate parecia não chegar, e Daniella trincou os dentes ao perceber que treinara a garota por anos para… Nada. Milhares de pesos convertidos em dólares para educa-la, o dinheiro gasto com comida, e a gueixa sumiu de um dia para o outro.
— ( ♕ ) Autoridades locais foram acionadas, até mesmo o Estado agiu em prol do resgate da colombiana, mas os narcos só a liberaram semanas depois, intocada como sempre. Daniella a acolheu novamente, mas jamais poderia ter imaginado que já não era mais a mesma. Tornara-se medrosa, temendo todos os cantos escuros da oky-ia, temendo qualquer um que se aproximasse de si. Por meses, nem mesmo a dança conseguiu acalmá-la. Fato era que não tocaram no corpo de Marisa, mas em sua mente. Com estresse pós-traumático e alguns outros distúrbios, parecia que tudo estava perdido para o Concurso de Madame Deveraux, lugar ao qual Cordelia nunca pensara em pisar —— enojava-a desde que entrara na oky-ia; a ideia de ter que se vender por dinheiro não fazia jus à sua personalidade, tampouco ao seu temperamento. Daniella, todavia, não perderia o investimento que tivera com a dama; era uma mulher soturna, maquiavélica, até, e os fins sempre justificavam os meios adotados. Marisa seria a gueixa escolhida da Colômbia no concurso dali alguns anos, e ela se certificaria de que não a fizesse passar vergonha diante das outras oky-ias. Contratou psicólogos para lidarem com os problemas da González em segredo —— ninguém poderia saber que seu tesouro estava comprometido psicologicamente, certo? Aliando as práxis psicológicas com a própria metodologia de Daniella, envolvendo as duras sessões de açoites de vara, Marisa se recuperou, ou ao menos o fez aparentemente. A tortura psicológica que fora infringida a si meramente fora enterrada nos recantos mais escuros de sua mente, e até então nunca foram devidamente ligados.
— ( ♕ ) Na idade certa para participar do concurso, a oky-ia de Bogotá inscreveu a Dália rubra que representaria a Colômbia do outro lado do mundo, e, por algumas semanas, Marisa sequer se deu ao trabalho de ignorar as palavras de Daniella sobre o concurso. Ela não iria, estava decidido —— não poderiam amarrá-la, de toda forma, e ninguém desejava uma gueixa que pouco tem a oferecer, graças a Deus ——, todavia, quando seu nome fora nomeado assim que passaram pela Colômbia, o choque foi capaz de deixa-la em transe por tempo suficiente para que toda uma oky-ia entrasse em júbilo com a escolha de uma de suas gueixas para a competição. Marisa não era, nem de longe, a mais indicada para o trabalho, mas aparentemente precisavam do dinheiro e que ela fosse a vencedora. Não poderia se importar menos com o destino de Daniella, ou da própria instituição —— criaram-na para o abate, por Cristo! ——, recitava para si mesma, mas verdade era que a gueixa fora o mais próximo de figura maternal que tivera. Uma bem distorcida, mas que foi suficiente para que aceitasse o pedido, ou ordem, dada pela mais velha, muito a contragosto.
Mirror, mirror on the wall, can you see through them all?
— ( ✔ ) Sociável, enfática, eloquente, empática, decidida.
— ( ✘ ) Desorganizada, imprevisível, agressiva, delinquente, ferina.
Graciosidade não pode defini-la, evidentemente. Marisa tem um certo tipo de magnetismo cru, que nunca pôde ser moldado ao bel prazer da gueixa que lhe formou como é hoje; uma parte de si que sempre seria agressiva, selvagem e ferina, pronta para atacar a qualquer um que se interpusesse entre ela e algo que deseja ou entre ela e seus entes queridos, por mais que estes sejam mais escassos do que sua família se tornou com o passar dos anos. Naturalmente receptiva, são poucas as pessoas que Marisa não gosta de imediato —— em contrapartida, essas recebem seu total desprezo e desafeto, tornando a convivência impraticável visto que muitas vezes os modos de gueixa falham frente à natureza desregrada e agressiva da menina que antes era. Poucas são as vezes em que está completamente tensa e submissa, como uma boa gueixa deve ser (mais um dos motivos por não se considerar apta para o concurso como um todo), visto que não consegue agir de outra forma que não rebater acusações ou injustiças da forma que seu sangue quente define. Um tanto quanto ansiosa e desleixada, a desorganização tende a ser um dos problemas apresentados pela gueixa, assim como o senso de humor negro, exatamente em situações que não ditariam que deva ser uma dama verdadeira. De fato, em todos os anos dentro da oky-ia, Marisa absorveu tópicos pontuais do que uma gueixa deve ter, tão forte era a sua personalidade quando entrou no instituto; meramente foi amansada, mas isso não quer dizer muito, quando se fala sobre a colombiana. Vaidosa e preocupada demais com questões relacionadas ao corpo, chega a ser levemente neurótica no que tange à imagem que passa para os outros acerca de si, neurose essa passada por Daniella durante os anos. De opiniões fortes, um filtro entre os lábios e a mente que pouco funciona verdadeiramente e tolerância insana para a dor —— anos sofrendo deveriam oferecer ao menos isso ——, Marisa é um espécime raro.







