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geminiano
Escrevo para te demorar porque você não vai. Faz parte de algo na sua essência ser volátil, volúvel, levado pelo vento como folhas soltas. Apesar da chegada forte, suas palavras são tão incertas quanto os bom-dia que dou a estranhos porque seu afeto escapa entre os dedos com a mesma rapidez que se ajunta. Suas incertezas pontudas e meias-verdades ásperas compõem uma visão tão nova que quase me tira o ar. Quase. Faz parte da sua natureza a fuga da compreensão, mas, meu bem, preciso entender tudo para permitir que permaneça. Preciso conhecer seu jeito antes de te deixar (me) ver um pouco mais. Te distraio com mil palavras que se fingem profundas, gasto vocabulário e lirismo para te distrair da sensação crescente de não saber. Porque não saber me assusta, porém, saber demais também. Sei que nada me aterroriza mais que a sua assertividade. Acuso como mentira, pois sei que se for verdade, palavra por palavra, estamos fadados a falhar. Se ousar significar algo, o fracasso é certo.
Cercar você é apostar no desejo transbordando do corpo, inundando mil Venezas entre suas mãos. Você diz que não conhece o terremoto interno e eu invejo, pois meu mundo já é de ruínas há anos. Não me identifico com sua lacuna de catástrofes naturais, pois quando você brinca de fazer sentido meu peito faz tsunami. Nosso embate mais íntimo é que você quer ser desejado e eu quero ser amada. Você quer se banhar nos meus olhares, se vestir da libido e da paixão, já eu me prendo às sensações quentes de dormir sobre o peito de alguém. Geminiano, sua brisa bagunça meu cabelo e minha mente que só quer terra firme, entretanto, não me arrependo de essa noite ser poeta, e você, Afrodite. Você pode me chamar de “amor” pelo fim de semana enquanto fingimos juntos não ser de verdade.
Pago o preço de te deixar marcar hora na minha agenda e sei que em algum lugar você sorri com essa possibilidade. O que foge de seu radar é que minha prosa é maquiagem para as marcas que não quero que veja, e meu lirismo esconde entre linhas o meu medo de fracassar de novo. Te encapsulo nas páginas até que se torne apenas história, pois se for mais que isso o sangue para nas veias. Transformo seus olhos em quadro, suas mãos em divindade, te guardo no pote dos quase morrendo de medo de deixar de ser.
Morrendo de medo da sua impermanência te fazer ser mais. Te tornar poesia é o fim mais seguro, mesmo que tenha te dito ser perigoso, pois a poesia acaba no ponto e na rima e nós não acabamos — ainda. Te tornar poesia é um fim seguro, repito, mas minha poética é prosa e eu falo demais.
Falo pouco sobre o que sinto Eu só sei me expressar quando canto O passado me deixou mais frio Eu também errei, não sou santo
Conversa com uma menina hétero
Em uma conversa com uma menina hétero, ela disse que desde a infância foi criada para achar que o certo seria gostar de um garoto.
Intrigante que nossa infância foi tão parecida, mas vamos dizer que tenho um pensamento menos escroto.
Em uma conversa com uma menina hétero, ela disse que foi criada na igreja e que não gostaria de ir para o inferno por amor.
E eu que mesmo sem ter religião sou acusada de ir para o inferno sem nenhum pudor?
Em uma conversa com uma menina hétero, ela me disse que não gostava de homens, mas que gostaria de ter um.
E isso é mais comum do que LGBT espancado na rua sem motivo algum.
Em uma conversa com uma menina hétero, ela falou sobre o tipo de homem quase que inalcançável dela.
Será que ela também se preocuparia com os olhares e palavras rudes sobre ela?
Em uma conversa com uma menina hétero, ela começou a falar sobre os garotos dos quais já tinha recusado.
Será que ela também já foi recusada? Ou esse acontecimento é apenas defasado?
Em uma conversa com uma menina hétero, ela me disse sobre querer alguém que a apresentasse para a família e assumiria para o mundo.
Aí eu percebi que não sou uma garota normal, talvez que fosse do “submundo”.
Em uma conversa com uma menina hétero, ela falou sobre quem namorava escondido, chamou de todos os nomes possíveis pela covardia.
É mais doloroso amar em segredo ou ver quem você considera te abandonando e ficando sem moradia?
Em uma conversa com uma menina hétero, ela falou sobre como é difícil amar um homem.
Eu realmente escutei isso? Me informem.
Em uma conversa com uma menina hétero, ela disse que já tinha gostado de uma garota antes, mas foi fase, apenas.
Eu gostaria de poder rasgar meus tímpanos, soaria melhor do que essas “conversas plenas”.
Em uma conversa com uma menina que dizia ser hétero, ela me deu esperança de que poderíamos ser alguma coisa.
Aquelas palavras me machucaram profundamente.
Jurei nunca mais acreditar na voz de uma mulher igual ela, aquilo me marcou eternamente.
Sentir aquilo me quebrou em pedaços.
Ela me iludiu e me deixou igual falava que homens deixavam; em estilhaços.
Viver aquilo me matou friamente.
Ela me deixou igual falava que os homens deixavam; Definitivamente.
Ver ela fingindo que nada existiu ainda me desgasta.
A conversa com a menina hétero acabou abrindo mais minha ferida, agora basta.
— Garotas que gostam de garotas, Merj.