Coração de mãe
Algo tengo que hacer. – decidiu enquanto acariciava o retrato do menino vestindo uniforme completo de goleiro e estampando no rosto o sorriso que concentra a ilusão de quem ainda precisa conhecer melhor o mundo.
O rádio já estava ligado no tradicional programa de esportes. Então tomou coragem e levantou o fone do gancho. A partir daí, tudo ficou um pouco mais claro em sua mente.
Do outro lado uma produtora atendeu e avisou que ela seria a próxima a entrar no ar. Já não havia mais possibilidade de voltar atrás.
- Hola. Llamo para opinar sobre... para opinar sobre Peñarol. – disse com a voz ainda um pouco insegura.
- Dale. – respondeu o radialista do outro lado parecendo disperso.
Tomou alento, como um arqueiro que pega impulso para cortar o centro de um escanteio fechado, e sentenciou:
- Peñarol no va a ganar mientras tenga a Guruceaga en el arco.
Alguns incômodos segundos de silêncio absoluto.
- Sí, pero... – antes mesmo que o condutor do programa radial pudesse desenvolver sua linha de raciocínio, ela aproveitou o fôlego, emendou um chutão para o campo de ataque e saiu jogando.
- Tienen a Frascarelli de suplente, un golero titular, con experiencia, que ha jugado en Chipre, en Chile...Jugó tres temporadas en River y los comentaristas decían que estaba entre los tres mejores goleros de Uruguay. – disse como quem lê a folha de apresentação de um CV. – Y siguen con Guruceaga en el arco mandadose macanas y macanas y macanas! A Guruceaga lo salva la defensa.– Terminou já sem qualquer traço de cordialidade.
De pronto o homem do lado de lá compreendeu o valor da queixa. Uma torcedora com um reclamo específico, uma crítica que procedia levando-se em consideração a última apresentação do arqueiro titular.
- Sos hincha de Peñarol? – perguntou.
- Sí. Soy hincha de Peñarol y tengo un hijo jugando en Peñarol. – respondeu.
- No me digas nada. Sos la mamá de Frascarelli! – retrucou o homem com o esboço de uma gargalhada inesperada na voz.
- Y sí... Pero decíme una cosa... no tengo razón? – disse a senhora.
É claro que tem.
Mães sempre têm razão.
Incluso la de Guruceaga.









