O Mausoléu do Pedante
Dois dias a cavalo da fronteira sul do condado de Harebourgue, localizada a oeste de Duok, um ponto de singularidade no tecido da realidade jaz aparentemente abandonado. Uma grande e pomposa construção feita de tijolos claros, precisamente talhados, entre árvores de copas exuberantes e grama muito alta. O aspecto alvo da faixada do prédio certa elegância ao local, e o cheiro de barro molhado vindo dos tijolos úmidos deixava os arredores da mansão com um sentimento generalizado de serenidade, digno de uma tarde calma e repleta de verde recoberto por orvalho. A arquitetura era atípica, distante do estilo corrente mais comum para a época, parecendo muito mais um palacete levantado em outra época, outrossim tudo parecesse estar em perfeito estado, como se não estivesse onde está até o dia de ontem.
Uma grande porta de metal, de formato redondo e adornada com linhas finas concentricamente dispostas, precisamente forjadas a lembrar ponteiros de relógio, marcava a entrada principal. Um grande batente no centro, beirado por tochas apagadas, encerrava a peça. Com exceção de alguns, poucas pessoas passavam perto da mansão. Sua localização a quilômetros de distância do centro da cidade já era desfavorável a visitas. Menor ainda é o número daqueles que ousaram atravessar os portais ornamentados da mansão. A lenda, passada de boca em boca, conta sobre o antigo morador da mansão: um nobre, recluso, que dedicou sua vida ao estudo para, no fim, morrer soterrado por seus próprios livros, em um acidente na biblioteca. Jamais se casou, e não elencou nenhum descendente para assumir suas posses, por isso a grande casa está hoje vazia, e assombrada pelos sentimentos de arrependimento e tristeza do nobre. De cada pessoa a contar, a mansão está como está há, mais ou menos, três séculos. Ninguém que se lembre, ou tenha a palavra confiável, realmente viu seu morador, na época em que deveria ainda estar vivo, ou mesmo chegou a saber que fim levou o cadáver, que talvez ainda esteja no recinto, mesmo que apenas em ossos.
Dos que decidiram, por extrema curiosidade ou ímpeto em furtar o que fosse possível e cruzaram os portais, a minoria é daqueles que voltaram fisicamente íntegros e com capacidade cognitiva suficiente para articular frases coesas. Nas balbucias delirantes e pouco compreensíveis de Milo, um jovem de um vilarejo próximo que ousou entrar na mansão, foi relatado cheiro de chá de ervas negras e papel velho. Nada de assombrações. Além de Milo, todos os afetados pela maldição do Pedante, que de lá voltaram, viveram numerosos anos além da média. Fingon, ainda saudável de corpo em seus 120 anos, pode ser visto perambulando sem destino e com olhar vago pelos campos verdejantes que circundam Vila Adrian. Ele é cuidado pelos seus bisnetos e não mostra sinais de adoecimento ou fraqueza. Pouco come e pouco fala. Um destino perturbador, sem dúvidas.
Última atualização: 16/05/2017.











