O desespero já havia vencido a lucidez há tempos. A fome era um inimigo poderoso. Qual caminho tomar? Sair da cidade onde nascera e fora criado para andar à esmo, contando com a sorte para chegar vivo a outro lugar, onde há tanta certeza quanto onde está; insistir por emprego, mesmo tendo sido recusado diversas veze? Imediatamente, as memórias do sacerdote local pregando contra o roubo vieram à mente. Orgulhar-se por um senso se justiça que jamais fora posto à prova era muito simples, afinal. Pensar em certo e errado diante da desesperança e incerteza a cada dia mais era algo completamente diferente.
Hórlogo fora criado sem pai e por uma mãe alcoólatra após a perda do marido, que se suicidou para fugir da obrigação da guerra entre Duok, posto avançado da cidade-estado de Condoin, e as chamadas aldeias selvagens circundantes. A honra da família estava maculada de forma indelével. Apesar de distante, tentava, em seus momentos de sobriedade, manter a saúde e bem-estar do filho, mas nenhum trabalho lhe era ofertado, e jamais seria. A mulher, simples em educação e vida, optou pelo que parecia uma esperança de escapar enfim de uma vida laboriosa e cheia de sacrifício. Hórlogo estava sozinho agora.
Sem saber se tinha mais alguma família no mundo e ainda pouco mais que uma criança, Hórlogo cresceu introspectivo. Seu único tesouro era sua perspicácia. Era encarado como párea pela maioria dos habitantes da cidadela por ser filho de um desertor. Por anos, recebeu a comida que lhe era dada por dó, e abrigo que até mesmo os mais resilientes hesitariam em ocupar. Conviveu por anos com uma família de religiosos fundamentalistas. Cosmo, um respeitável senhor com lá para seus cinquenta anos de idade, era o chefe da família. Hórlogo aceitava o que conseguia, mas era certo que eles não buscavam fazer caridade, mas sim esperavam reconhecimento de seu deus.
Mesmo com alguns anos de convívio, pouco sobre seu eu aquela família realmente conhecia. Para eles, era apenas um garoto desafortunado e mudo, que precisava de espiritualidade. A aptidão para as artes mágicas do garoto era um detalhe desconhecido aos moradores da cidade. Ele certamente seria aprisionado a vida inteira, caso alguma boca grande descobrisse o fato. Cosmo lhe deu uma bela surra, ao ver o que Hórlogo fazia para se distrair. Repreendeu-lhe fortemente, e o fez jurar que não usaria seu poder, embora inocente, nunca mais. Numa cidade pequena e administrada por um sacerdote, como Duok, os mágicos eram seres favorecidos por entidades malignas, dignos apenas de ódio. Indiferente a isso, Hórlogo divertia-se com seu poder que florescia lentamente. Era apenas capaz de deslocar objetos leves, ou dobrá-los.
Por volta dos dezesseis anos de idade, cansou-se de sua realidade, e passou a cobiçar a de outros. A desigualdade não era algo lógico para Hórlogo. Andando pelas ruas de paralelepípedos corroídos pelo andar das incontáveis carruagens em Duok, Hórlogo desejou ardentemente um pedaço de bolo da vitrine. Não tinha dinheiro, e não poderia conseguir trabalhando honestamente. A deserção de seu pai condenou a sua mãe, e fazia meios para condenar-lhe também. Era noite, e a rua estaria vazia em menos de uma hora, quando todos os comerciantes locais fechavam as portas. Esperou, depois esperou mais, por segurança.
Sua consciência o alertou. Suas memórias dos sermões do sacerdote o alertaram. Prejudicar o próximo era indesejável, com ou sem deuses olhando. A memória de sua mãe o alertou, e o desejo de ser melhor que seu pai o motivou buscar mais do que era possível para alguém em sua situação. Moralidade e fome desesperada travavam uma disputa injusta para uma mente jovem, interessada apenas em comer algo decente. O que usava não poderia ser chamado de roupa, e não via sapatos há anos, deixando-o exposto ao clima variante. Sua saúde não estava das melhores.
Todas as luzes do distrito comercial estavam apagadas. Não havia viva alma transitando pelas ruas de pedra, e apenas os sons de animais noturnos sobressaiam do chiado de fundo. Medindo cada passo, chegou até a padaria do Sr. Brido. Ele sempre olhava Hórlogo com seu imenso nariz empinado, mas, ainda assim, não merecia ser roubado. Já havia cedido sobras de sua loja, apesar da aversão de sua esposa pelo jovem. Eram apenas mais dois seres formado num lugar que promovia preconceitos muito mais facilmente que compreensão e racionalidade.
A tranca sem fechadura que mantinha a porta travada por dentro não era nenhum quebra-cabeças, mas Hórlogo jamais havia manipulado objetos múltiplos ao mesmo tempo, sem vê-los bem. Não era hora de titubear. A tensão era nítida, e suor escorria pela testa do jovem.
Foi mais fácil que o esperado. A porta abriu. Hórlogo começou a andar, cautelosamente, procurando qualquer comida de aspecto bonito que pudesse levar consigo. Repentinamente, tudo apagou.
Hórlogo acordou com o raiar do sol. Havia sangue em seus cabelos castanhos claros, mas sujos, e em sua nuca. Foi difícil até mesmo sentar-se ereto. O chão parecia fora do lugar. Sua percepção demorou até se ajustar, mas percebeu... Fora pego pelo dono do estabelecimento e derrubado. Não sabia, contudo, se o Sr. Brido o jogara para fora da cidade para evitar castigo pior no julgamento da igreja ou qualquer outra coisa. Não mudaria muito. A morte era mais interessante que a vida de Hórlogo.
Surpreendentemente, as semanas que se seguiram foram melhores para o jovem que a maior parte dos anos na cidade. Observou os animais silvestres, e comeu o que comiam. Larvas e outros insetos eram sua melhor fonte de alimento. Encontrou um local arborizado com um dossel denso o suficiente para aparar a maior parte da água da chuva. Hidratado e bem nutrido pela primeira vez em muitos anos, percebeu melhor as possibilidades de sua mágica. Colocar árvores pequenas abaixo não era muito trabalhoso, e fogo virou algo muito simples de começar. Sua habilidade na natureza desenvolveu-se de maneira formidável.
Sentindo-se incapaz de liquidar uma vida para alimentar-se, mas ao mesmo tempo carregando necessidade, Hórlogo desenvolveu um método que julgava bastante aceitável para conseguir carne. Uma armadilha com isca recheada por um extrato de Valeriana com Austoria, flores que o próprio Hórlogo nomeara: atraia herbívoros com alguma facilidade, e os colocava para dormir. O primeiro assassinato, contudo, foi difícil.
A estrada mais próxima ligava Duok ao entreposto naval Santa e a Condoin. Era um caminho bem mais longo que as vias principais, e, portanto, pouco movimentado. De toda forma, Hórlogo reconheceu o condutor de uma diligência. Era um indício de regularidade. Poderia ser uma carruagem de um cobrador de impostos, um onzeneiro ou mesmo um nobre com pouco poder que precisava transitar entre suas próprias propriedades.
Foram dois meses de observação tenaz. A cada duas semanas, o mesmo condutor e a mesma carruagem, passando sempre pela mesma hora.
A carruagem seguia seu caminho comum. Hórlogo liberou o pino que prendia os cavalos ao carro. O condutor, aturdido, disparou em direção aos animais que começaram a trotar, livres. Não os alcançou, mas continuou tentando. O jovem iniciou a evaporação de sua solução sonífera, criando esferas de vapor em pleno ar. Passados uns poucos minutos, todos os que saíram para verificar a confusão, estavam de volta à carruagem, dispostos a seguir a viagem, com pressa, mas ainda sem cavalos. O condutor, bastante fora de forma, certamente demoraria algum tempo para recuperar os animais em fuga.
O sonífero lançado pelo ar para dentro da carruagem já deveria estar fazendo efeito.
Hórlogo encontrou um baú-mala repleto de boas roupas. Outro com suprimentos e um terceiro com uma boa quantia de moedas e um objeto de aspecto bizarro, aparentemente feito de ágata, ou água-marinha, quem sabe. Tudo estava já no trenó improvisado, e pronto para ser levado à floresta pelo rapaz, aliviado pelo sucesso. Antes de sua partida, contudo, Hórlogo percebeu a falta de vida no corpo do condutor, e depois na dos passageiros.
Evaporando o que deveria ser apenas um sonífero potente para dentro da carruagem com o uso de uma magia simples, acabou eliminando a todos, silenciosamente.
Ao longe, viu o condutor voltando, com os dois servis cavalos atrás, segurados pelas rédeas. O rapaz saiu de seu estado de choque, e disparou floresta adentro, puxando seu trenó com o saque. O tempo transcorria de forma lenta. Tudo parecia lento. Cada detalhe, cada som.
Seu temor em ser capturado o transformou num individuo paranoico. Dia e noite era assombrado por seu ato. Sua paranoia cambou para um exagerado sentimento de urgência que não podia ser contido por nada. Os primeiros dias eram torturas descomunais. Buscou distanciar-se dos seus demônios, ou mesmo de sua humanidade que, de alguma forma, resistiu à infância, e agora a isso... Era um assassino. Apesar da tentativa, os sentimentos o consumiram. Seu pesar era mais do que poderia carregar.
Meses após o acontecido, Hórlogo juntou seus pertences e optou por deslocar-se em direção ao sul, ultrapassando o condado de Harebourgue. Sua mente não era mais a mesma. Com as moedas que havia saqueado, conseguiu uma pequena casa afastada de outras pessoas, numa aldeia já distante do condado.
Hórlogo privou a si mesmo do convívio com humanos. Apesar de não sentir, os anos deveriam estar passando. Os moradores locais nunca o importunaram, mas rumores muito sensacionalistas sempre surgiam.
Como pode alguém viver sem buscar comida? Ele não é humano! O que faz ele o dia inteiro? Meu primo disse que o viu carregar livros... Ele sabe ler! Ele sai de casa apenas à noite!
Era agora um homem formado, com um fio branco na cabeça e uma barba avermelhada cheia, mas vivia sozinho, evitando outros humanos. Imaginar qualquer interação era uma tormenta, que desencadeava em Hórlogo uma grande compulsão por livrar-se do sentimento que o oprimia. Mas havia solução, e era essa sua maior obsessão. Com o passar de anos, suas idiossincrasias e aversão ao social fizeram nascer talvez a mais poderosa dentre as poderosas magias da história, compreendida e conhecida apenas pelo próprio. Era um poder que um mero humano não poderia alcança . Seu feitiço fora inteiramente concebido para despistar de vez o que ele considerava a real raiz de sua aflição existencial. Uma magia para sumir com sua humanidade. Uma magia para enganar o tempo. Ele acreditava que esta era a solução. Seu sofrimento, suas perdas, todas ocasionadas por ser humano, e o que o tornava humano era o tempo.
Os rumores sobre a estranha figura da casa afastada continuaram a ponto de virar folclore local. Poucos realmente tinham coragem de chegar à porta de Hórlogo para lhe visitar. Alguns o fizeram por achar que o morador da bela residência em carvalho e pedras talhadas havia morrido há tempos e esquecido completamente.
Ele está lá desde que meu avô era criança! Eu o vi de longe, ele é alto e forte, mas nunca veio à minha loja comprar comida. Todos compram comigo! Ele está aí desde sempre, ninguém sabe quando chegou! Ele é eterno! Esse deve ser seu filho ou neto, não é possível!
Não era mais preciso comer, nem dormir, ou mesmo respirar. Hórlogo gozava de um quase total distanciamento da existência e condição humana. O que lhe restava eram apenas suas memórias, ainda que amargas. Em seu ócio perpétuo, beirou o limiar da loucura e em seus pensamentos nebulosos, regrediu à infância. Desejou ardentemente descobrir algo mais sobre sua família. Antes de tudo, buscou fazer regredir o tempo e anuviar sua vida desgraçada, salvar seu pai de si e sua mãe do desespero, mas a empreitada mostrou-se impossível. Conformou-se no fracasso. Precisava apenas de uma forma de encontrar algum membro de sua linhagem. Os resultados foram distantes do esperado. Deslocado de sua própria realidade, passou a receber visões sobre uma terra distante de tudo e todos, cercada apenas por água e ar; uma ilha... Três... Cinco ilhas. Mesmo bem distante do que procurava, recebeu com uma ampla gargalhada sua descoberta: um lugar repleto de nada e ninguém; bastava chegar lá, o novo problema era como.
Na mente de Hórlogo, vozes falavam com ele, como habitual: quanto tempo passou?
Apegou-se à ideia de um começo num lugar de ninguém, a ponto de considera-lo seu, e assim seria. O mestre mago batizou seu pedaço distante de terra com o único nome que lhe trazia conforto, o nome de sua mãe, a única pessoa que realmente o conheceu antes de se tornar o algo grotesco que se considerava agora: Ilma.
Última edição: 01/ 05/ 2017.