10 de janeiro. O dia que eu mais esperei finalmente chegou. O dia em que eu, Rute — 32 anos, um metro e setenta de pura teimosia — me mudei para o meu próprio cantinho. A tão sonhada independência, o momento de respirar fundo e dizer: “agora é tudo meu”.
O apartamento? Bom… não é o maior de todos. Pra não dizer que é pequeno, eu prefiro chamá-lo de aconchegante. Ele tem uma varanda que integra a sala com o único quarto do apartamento. O que me ganhou foi que ao sair por ela, a vista se abre imensa, revelando a Serra da Cantareira, com seus tons esverdeados que mudam de cor conforme o humor do céu da Zona Norte de São Paulo. Do outro lado, uma pitada de caos urbano: o centro, arranha-céus e antenas desenhando o horizonte. Quem precisa do Terraço Itália quando se tem isso? Risos internos.
Desde o primeiro dia, quando saimos para a varanda a gente notava a presença do vizinho, . Eu evitava encará-lo diretamente — por vergonha, confesso — então mal conseguia registrar o rosto. Meu cérebro, espertamente, foi montando uma imagem a partir da silhueta, como se criasse um personagem com base em recortes de revistas antigas.
Minha mãe, claro, se incomodou mais do que eu com essa história. Um homem fumando na varanda ao lado? Investigação na certa. Descobriu — ou achou que descobriu — que ele era casado. Então ela ficou mais "tranquila". Mesmo assim ela fez uma cortina de plantas artificiais tampando a visão do pobi e me dando um pouco mais de privacidade.
Os dias passaram. Semanas. Meses. Toda vez que eu saía pra varanda e percebia que ele estava lá, voltava imediatamente pra dentro, como se fosse uma adolescente fugindo do crush no recreio. Tinha vezes que a fumaça do cigarro entrava na minha casa, o que me deixava puta, eu na minha própria casa sentir cheiro de cigarro. Fechava a porta na base do ódio, risos.
Enquanto isso, minha vida amorosa estava um desastre. Tinder? Só cilada. Contatinhos antigos? Decepção atrás de decepção. Parecia que eu tava procurando amor no mapa errado.
Só uma observação, todas, ou a maioria das vezes quando eu saia de casa eu passava pela porta do vizinho e sempre ficava olhando, pensando qual seria o dia que eu esbarraria a esposa dele, ou ele. Porque até então eu não tinha notado nenhuma outra presença, a não ser a dele.
Um belo dia, 10 de maio para ser mais exata, eu estava saindo do elevador, e quando eu olho para frente, ele estava saindo de casa no mesmo instante. E naquele momento, juro, o tempo parou. O som do mundo sumiu, os pensamentos congelaram, e eu só consegui abaixar a cabeça e correr pro meu apartamento como se tivesse visto um fantasma de olhos cor de mel.
Fiquei o resto do dia tentando processar o que eu tinha acabado de ver, um homem lindo, lindo. Posso estar sendo bem exagerada e ele pode ser considerado um homem lindo como qualquer homem lindo, mas eu estou falando dessa forma, como se ele fosse o único homem lindo do mundo, porque o cenário é exatamente esse. No prédio só tem gente velha e não muito favorecido de beleza, e o meu único vizinho de parende, de varanda, é um cara LINDO. E pensar que eu, doida varrida, estava lá quebrando a cara no Tinder, enquanto o único homem interessante do prédio fumava cigarros a dois metros da minha varanda.
Na mesma hora, fui pra varanda. Desta vez, puxei a cortina de plantas pra um lado, deixando espaço suficiente pra espiar… e ser espiada. E comecei a pensar: será que ele é casado mesmo? Nunca ouvi vozes, passos extras, nada. E à noite, as luzes só se acendiam quando ele chegava. Aparentemente, morava sozinho.. Então já descobri de das duas uma, ou o informante da minha mãe se confundiu, ou minha mãe inventou isso para eu não me envolver, talvez eu fique com a segunda opção.
A partir daquele dia, toda vez que eu notava ele na varanda, eu ficava mais nervosa do que o normal, ficava sem graça, do tipo "o que eu vou fazer, fica parada aqui olhando o horizonte?". Então eu comprei umas plantas, para ter algo para fazer sem intenção nenhuma de ser olhada. Então começou a saga de que precisava ver ele de novo, saber quem era ele. Foi quando eu percebi que ele chegava em casa sempre por volta das 00h - 00h30, então eu pensei em criar uma situação onde a gente se esbarresse novamente. Um certo dia, eu fiquei exatos 15 min parada no corredor, em frente ao elevador esperando ele chegar, para encontrar com ele por um acaso. Mas a voz da minha terapeuta ecoou na minha cabeça: “Rute, para de ser louca.” Voltei pra casa. Afinal, eu tinha louça acumulada e um resto de dignidade.
Foi se passando os dias e eu estava inconformada como todo esse tempo eu não tinha visto ele direito e como a gente nunca se encontrava pelos corredores.
Mas a verdade é que eu precisava descobrir o nome dele. Só o nome. Pra procurar no Instagram, no Tinder, no LinkedIn se fosse preciso. Primeiro, tentei pelo grupo do condomínio. Nenhuma foto batia. Então decidi apelar: perguntar para o porteiro. Nos dois dias seguidos desse plano, o porteiro que eu tinha amizade não foi, então pensei que poderia ser um sinal para eu esquecer essa história, mas a imagem dele saindo de casa, não saia da minha cabeça. No quarto dia eu encontrei o porteiro, toda sem jeito de pedir uma coisa tão aleatória, sem parecer uma solteira desesperada, comecei a falar :
“Boa noite… o senhor sabe o nome do morador do 88?”
Ele não sabia na hora, mas disse que avisaria depois. E avisou. O interfone tocou e, do outro lado, uma única palavra:
Pronto. Tinha um nome. Corri pro Instagram, procurei todos os Renans possíveis, testei com dois N’s, tentei no Tinder. Nada. Maldito algoritmo que me mostra gente de Campinas e ignora o meu vizinho.
Então vi que o primeiro nome era totalmente inutil, eu precisava pelo menos do segundo nome. Mas como pedir mais uma informação da mesma coisa para a mesma pessoa, sem parecer uma solteira desesperada, uma vizinha tarada? Então lembrei de um outro porteiro que eu também tinha uma amizade. Mas nossos horários não estavam batendo, quando eu ia trabalhar ele ainda não tinha chego, e quando eu voltava ele já tinha ido embora. Foi se passando os dias, e eu ficava mais tempo na minha varanda, quando eu sentia a presença dele, eu não fugia kkk, mas também não conseguia olhar, então ficava ali fazendo a egipcia como quem não queria nada.
Nesse meio tempo eu fiquei pensando alguma forma de falar com ele. Meu fogão não é eletrico, então tinha pensando em pedir o isqueiro emprestado, o pessoal da minha loja falou para eu cortar o fio do chuveiro e pedir para ele vir me ajudar.. enfim mas desde o dia que eu tinha visto ele, eu não parei de pensar um minuto até conseguir falar com ele.
Sete dias depois, em uma sexta - feira, eu encontrei o outro porteiro:
"Boa noite, será que você poderia fazer um favor para mim? Eu precisava do sobrenome do 88"
Ele olhou pra mim, pensou por dois segundos, e respondeu:
Quê? Sim. SIM! Anotei, voltei pra casa… e travei. O que eu ia dizer? “Oi, sou sua vizinha, tem açúcar?”
Foi ai que eu me vi na estaca zero de novo.
Nessa mesma noite, por volta das 00h a Zucka, minha gata, não parava de miar para a porta da varanda, querendo ir la fora. Eu abri e fui acompanhar ela, a primeira coisa que eu fiz foi olhar para o lado direito.. PUTA QUE PARIU ele estava lá, sentado, fumando. Respirei, fingi que nada tinha acontecido, fiquei ali brincando com a Zucka, pensando em várias coisas. Nessa noite, a lua estava praticamente cheia, e o céu tava limpo, então a luz dela estava iluminando nossas varandas. Eu por um acaso tinha uma garrafa de ice na geladeira, não sei como, mas eu tinha.. kkk
Então coloquei meu plano em ação. Tinha que mostrar para ele que eu estava sozinha em uma sexta - feira a noite, peguei a ice, apaguei tooodas as luzes de casa, fui para a varanda e sentei no chão. Aí ficou aquela cena bem drámatica, eu sozinha, bebendo na varanda, só com a luz do luar iluminando. Então fiquei ali, sentada, virada para frente, de lado para ele. Ele fumando e eu bebendo, ficamos ali por um tempo, logo depois ele entrou, eu ainda fiquei la fora mais um pouco esperando para ver se ele voltava, mas não voltou mais. Então eu entrei, pensando que realmente ele não quisesse nada, e que não tinha mais nada a ser feito. Minha última cartada seria a ideia do esqueiro, mas eu tava criando coragem para bater na porta dele. Então, 1h30 da manhã, eu já debaixo das cobertas, pronta para dormir desiludida, o interfone toca.