Quando acabava a revisão deste livro de sermões, dei por mim a gravar oito canções que servem de acompanhamento musical para o livro (ou, como os miúdos dizem agora, de playlist). Este disco, com o mesmo título de "Milagres no Coração", é uma edição da FlorCaveira com a Valentim de Carvalho. Nele, o que se diz guia o que se toca, num registo despojado e sem artifícios - nu e cru.
Como a capa dá para mostrar, com a corajosa fotografia do Hugo Moura, este é um disco de chegada à (crise da) meia-idade. Este disco tentou ser o meu primeiro disco de louvor. Disco de louvor é no vocabulário de um cristão evangélico um disco de canções que directamente adoram Deus, canções essas que podem ser usadas num serviço de culto normal de uma igreja. Apesar de ser um cristão evangélico e um músico, nunca em 40 anos me apeteceu fazer um disco tão religioso, nesse sentido tão restrito. A questão é que, na tentativa de fazer um disco de louvor, rapidamente comecei a louvar de uma maneira que para muitos será considerada oblíqua. Comecei a louvar o Deus do Céu a partir das coisas da terra. Na verdade, não há qualquer heresia nisso, antes pelo contrário.
As canções são sobre filmes como o "Karate Kid", "Os Ladrões de Biciclcetas" e "O Padrinho", sobre a série "Breaking Bad" e, vá lá, também vão ao Santo Agostinho, ao David Foster Wallace e o Jack, o estripador, um dos meus pavores nocturnos. É o meu estranho mas sincero tipo de worship music.
É bem diferente, a maior parte da música religiosa que gera números impressionantes na internet que, para mim, tem o efeito retro-activo de me cansar. De cada vez que tento ouvir os discos do 'worship' actual fico com a ideia de que sou pouco espiritual. As vozes lá parece que nasceram para cantar para Deus. Para mim não é bem assim. Para mim o louvor é uma luta. A minha necessidade de louvar é proporcional à dificuldade que sinto em fazê-lo. Mas também devo ser sincero e assumir que o custo que o louvor me pede me parece ser mais parecido com o louvor que encontro na Bíblia. Os salmistas das Escrituras parecem-me muito menos emo do que os cantores evangélicos americanos e brasileiros.
Por outro lado, no final de Dezembro de 2017 a minha audição estava quase exclusivamente dedicada a country e a hip-hop. Não pelo som propriamente dito, porque não suposto as lap-steel guitars dos cowboys nem o narcisismo dos rappers. Mas pela fixação na história pessoal, que o country assume descomplexadamente, e pela predominância da palavra, que o hip-hop conserva. Se adicionar a isto a libertação que foi conhecer nos últimos anos a música do Mark Kozelek, diria que este disco que gravei saiu deste encontro inesperado entre o acústico e o discurso directo.
Ao mostrar este disco a pessoa em quem confio pelo seu critério musical, tenho encontrado reacções diferentes. Uns aderem à primeira audição e outros questionam a pertinência destas canções. O facto de estarem a ler estas linhas significa que tenho teimado em acreditar nelas. Sinto necessidade de empregar a minha voz como empreguei a dizer as coisas que aqui disse. Trabalhei para retirar artifícios porque é mesmo isto que queria fazer (e foi a primeira vez que voltei a depender apenas de mim para gravar desde o IV há dez anos). Talvez este "Milagres no Coração" se resuma a uma espécie de semi-diário-musical-terapia de um ano que para mim foi especial. Eventualmente nem chega mesmo para se justificar enquanto disco. Mas o meu coração não consegue guardar para si estas coisas simples que, honestamente, tenho como milagres. Espero que contá-las assim sirva para alguma coisa também na vossa vida.
Sexta-feira está disponível nas lojas e nas plataformas digitais.