Andamos em dupla. Pela mão, levamos a criança que fomos, que somos, que não largamos.
A vontade de brincar, de carnavalizar.
Essa pequena pessoa que você tem, que te olha com saudade do que você foi, que te ensinou a ser mais do que agora você é, te é permanente, ainda que você a negue.
Ela que te tenta a bulir em sujeira, a se meter em mato, a correr pra água, a amassar a terra, a decidir sem culpa.
Os deuses da infância são também os do inesquecível. Aqueles momentos onde a seriedade vai para o banco de reservas e entra em campo a coragem do ridículo. Sem pensar nos julgamentos, nem mesmo o teu, você vive.
Eles são 2 porque a gente é 2.
Erês que ainda somos, que contemos num cantinho por obediência ao contrato de maturidade.
É pelo desacato às cláusulas que a pequena dupla de orixás interfere, porque sem o cheiro de bala, capim e chulé, a maturidade é a carranca estúpida, autoritária e insuportável do mau-humor, que respeito não consegue, somente medo desperta.
Numa cidade, Iku, a morte, levava indiscriminadamente muitos cidadãos antes da hora. Ninguém dava solução. Os Ibejis, muito espertos, bolaram um plano. Com seu tambor mágico, um dos gêmeos tocaria uma música irresistível enquanto o outro dançava.
Iku, atraída pela canção irresistível, dançou, dançou, dançou até não aguentar mais. Enquanto Ikú se cansava, os irmãos trocavam de posição, sem que Iku percebesse nada, hora no tambor, hora dançando, festejavam sem parar.
A morte, exausta, não parava de dançar. Implorou trégua. Jurou que não levaria mais ninguém antes da hora.
Com festa, alegria, zoação e sabedoria infantil, os pirraias derrotaram a morte.
Venceram a morte prévia, aquela quando, ainda com o coração batendo, a dança inexiste, a brincadeira encerrou, a molecagem se apagou e se largou a mão do erê.
Oni beijada, Beijiró, nossos senhores do entusiasmo.
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