Debruce-se sobre as próprias águas antes de emprestar o espelho a qualquer outra pessoa.
Não é vaidade. É zelo.
A dona da água doce sabe de um segredo que a pressa do mundo insiste em esquecer. Nenhuma correnteza generosa brota de nascente seca. Antes de ser o rio que fertiliza, nutre, banha aldeias inteiras, Oxum é primeiro a nascente. O ponto quieto, particular, onde a água ainda não pertence a ninguém além de si mesma.
É ali, na nascente, que ela se demora. Contempla-se na superfície límpida. Cuida de cada curva do próprio leito, desobstrui as pedras que um dia poderiam turvar seu curso. Ama-se sem pressa, sabendo que beleza verdadeira exige tempo e presença.
Por isso, ela pode ser generosa depois. Água poluída não purifica nada por onde passa. Só a correnteza que corre limpa, cuidada em sua origem, chega às margens carregando fartura ao invés de resto.
O amor-próprio de Oxum não é sobre se admirar sozinha e ficar por aí. É sobre entender que o amor que ela oferece ao mundo, aos filhos que gera, amantes que aquece, searas que rega, existe em abundância porque a fonte foi honrada primeiro.
Antes de sair distribuindo beleza e afeto, pergunte à sua própria nascente: “Como você está?”
Que a sua água esteja potável antes de banhar qualquer margem.
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