O deus da guerra é metalúrgico. Não por coincidência.
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O deus da guerra é metalúrgico. Não por coincidência.
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Salve a Malandragem!
Santuário do seu Zé Pilintra próximo aos Arcos da Lapa.
Revista Manchete e Curandeiros Potiguares
A Revista Manchete era publicada semanalmente e distribuída quase todo o Brasil. Além disso, trazia reportagens especiais sobre vários acontecimentos nacionais e internacional. No ano de 1982, eles criaram uma reportagem para falar dos curandeiros que aprenderam ler pelo programa Mobral e participaram do encontro da instituição que tinha o objetivo reunir a tradição. O repórter foi o potiguar…
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Onde o rio beija a floresta habita Logun Edé, divindade de uma dança nada única, num vai e vem entre o verde de Oxóssi e o dourado de Oxum. O filho do silêncio que caça e do reflexo que seduz.
Seu corpo é de contradições harmoniosas.
De seu pai, herdou o arco de galho flexível, a flecha de pena afiada, os pés sem ruído sobre folhas secas. Olhos de falcão veem o que é quase invisível: o rastro do vento, o tremor da folha, a verdade atrás dos troncos.
A mesma mão que empunha o arco ergue o espelho para se admirar. A vaidade lhe é prece. Ele se contempla por reconhecimento. A herança da mãe: elegância, delicadeza, sofisticação que embalam as águas. Autoestima e amor-próprio.
Logun Edé brinca na fronteira dos opostos. Num momento, sua energia é rápida e decisiva, a flecha que parte sem hesitação. No instante seguinte, é banho de rio que cura e acalma.
Ninguém é uma coisa só.
Logun Edé é a encarnação divina desse mistério. Ele ensina que a existência não é uma cela, mas um salão de espelhos. Em cada reflexo, uma faceta diferente se revela. Provedor e artista, lutador e poeta, selvagem e leve.
Assim, canta e dança entre o musgo e o ouro, entre a lança e as joias.
O orixá que é o equilíbrio da multiplicidade. O caçador que conhece o valor do belo é mais sábio. O príncipe que conhece a ferocidade da mata é mais completo.
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Oxum não propõe beleza fútil, admirações vazias, elogios condicionados. Carrega consigo um espelho para devolver um olhar que sonda, que questiona, que desnuda. Nesse espelho não se vê apenas o contorno do rosto, mas a topografia da própria essência: vales das inseguranças, montanhas da resistência, rios de lágrimas transformadas em passos adiante.
Nesse mergulho intimista, Oxum revela a beleza em desobediência. Como ato de rebeldia.
A beleza que se recusa a ser medida, que encontra poesia nas cicatrizes, poder nas formas que escapam à régua, graça no movimento que desafia o compasso.
Amor-próprio não é narcisismo. É a decisão corajosa de se enxergar com autoaceitação, como um mapa de histórias, não um terreno a ser corrigido.
Ela nos convida a procurar belezas fora do catálogo. A do silêncio que acolhe, da palavra que fortalece, do olhar que não julga. A de um coração que, mesmo rachado, recusa o desamor. A que se livrou da santidade inatingível e abraçou a autenticidade plena, com seus humores, suas paixões, sua humanidade sagrada.
Oxum carrega o próprio espelho. É uma armadura. É arma de guerra desapegar-se do reflexo que os outros te devolvem.
Amar-se, sob a graça de Oxum, é usar teu espelho. Parar de buscar a aprovação no rio alheio e passar a honrar a nascente que jorra dentro de si.
Ouvir a deusa do amor lindo simplesmente porque é. Porque existe. Porque é teu espelho, teu amor.
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Antes da ordem, houve o caos que dançava. E no princípio, ele já estava.
Ele é o eco que desafia a vastidão da resposta.
Ele rompe o silêncio com uma gargalhada antes que se saiba o que a alegria seria.
É o tropeço que ensina a firmeza ao pé, o primeiro olhar que escolhe o que se vê.
Ele ousa entrelaçar os caminhos, o que faz do vazio estrada.
Ele é o primeiro, porque o último não chega se o primeiro não vier. O primeiro que é o começo que o fim não contém. Que chega sozinho para que venham todos com ele.
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O riso fácil, a lágrima que seca rápido e o espanto diante de um caracol guardam um segredo. O que os Ibejis carregam na algazarra de seus ganzás. A dupla essência: inocência que cura e travessura que liberta.
Diz o itã que Iku, a morte, soberana e implacável, um dia marchou até eles com sua presença que aniquila cantos. Mas o que encontrou não foi medo. Encontrou a Ibejada em plena roda de brincadeira, rindo, dançando, girando na alegria. E Iku, confusa, parou. Sem saber como agir diante daquela força que desconhecia: a não resignação.
Os Ibejis, vendo sua hesitação, a convidaram para a dança. "Vem, baile conosco!" E cantaram para ela uma melodia tão cheia de inventividade, que Iku, a senhora do fim, distraiu-se pelo jogo, esqueceu seu propósito e foi embora sem cumprir sua missão. A vida venceu não pela força, mas pela brincadeira.
É o legado sagrado que os gêmeos deixam. Manter o espírito de criança aceso não é fraqueza, é estratégia divina para escapar da morte cotidiana. É a arte de enganar a sisudez que petrifica, que seca a alma.
Maturidade não é a prisão. É a liberdade de escolher quando ser sério e quando ser leve. É o certificado outorgado pela vida que nos permite, com plena consciência, assumir certas infantilidades.
É deixar-se maravilhar com o voo de um beija-flor, rir até chorar de uma bobagem, dançar sozinho na sala, pular uma poça d'água, comprar um sorvete colorido e sujar o rosto. É entender que responsabilidade inclui a obrigação de ser feliz.
O adulto completo não é aquele que apenas carrega o mundo nos ombros, mas aquele que, de vez em quando, põe o mundo de lado e se põe a rodopiar. Porque segurar o ser adulto é um fardo pesado. É preciso flexibilidade brincante, irresponsabilidade sagrada aqui e acolá, desviar da rota para seguir uma borboleta.
Ibejis cantam em nossos ouvidos: “Mantém a criança viva em si, mantém-se vivo. Quem sabe brincar, sabe vencer. E mesmo nas cinzas, encontre um riso”.
Que nosso coração-ganzá nunca cale o seu som de festa.
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