O Império do Silêncio
Caminho erraticamente pelo meio da rua. Não me preocupo em usar as calçadas. Nenhum carro vai passar aqui, buzinando para que eu saia do caminho. Foco no som dos meus passos e sigo adiante. Não há nada com que eu deva me preocupar justamente por que não há mais nada.
Eu tinha medo dessa rua, tempos atrás. Me diziam que era cheia de ladrões, perigosa de dia e ainda mais à noite. Ela é bastante antiga, no coração do centro da cidade. Mantém essa aura old fashioned até hoje. Lembro-me de caminhar por ela com um grupo de amigos, tarde da noite, às duas da manhã. Não havia nada nela para temer. Estava quase tão deserta quanto a vejo hoje. Mas isso não é importante. Não sei quanto tempo se passou desde então. Porém, o momento jaz no leito do rio do tempo, preso às pedras, e talvez em breve solte-se de lá e vá embora, como tantos outros. O vento faz balançar as folhas das árvores e soar a sua língua, que me lembra que mesmo em silêncio o mundo continua vivo.
Pouco tempo depois dou com as paredes brancas tão conhecidas do prédio da faculdade. Logo adiante está o ponto de ônibus, logo atrás dele. Sentado na praça, posso vê-lo de frente com suas imponentes colunas. Atrás de mim, a fonte está seca, e as estátuas e bustos observam bancos vazios. Nada parece ter mudado além de alguns sinais de descuido, que precisei observar atentamente para perceber. As bordas dos capitéis ainda são a casa de alguns pombos, suas fezes continuam caindo sobre o chão do hall de entrada. Mas não há mais azarados para serem acertados por elas. A porta, para minha surpresa, tinha ficado destrancada. Andar pelo prédio vazio parecia interromper uma ordem cuidadosamente construída e mantida por forças invisíveis que por algum motivo eram incapazes de me expulsar. Talvez fosse só a reação do silêncio ao sentir-se violado. Esse enorme e profundo silêncio, que roubava todo o meu som, à única exceção dos meus pés contra o mármore e a madeira.
Na minha antiga sala, as carteiras estavam bem arrumadas, como se todos tivessem acabado de sair da aula. Alguns esquemas e avisos ainda estavam no quadro negro. Haviam fezes de pombo em algumas das carteiras, mas era a única coisa que poderia dizer algo diferente. Alguém havia esquecido uma pasta debaixo de uma das carteiras, mas tinham só alguns textos. Nada havia de muito diferente nas outras salas, só umas em melhor ordem que outras. A biblioteca continua tal como costumava ser, senti a pontada de um sorriso transbordando das linhas enrijecidas do meu rosto. Eu dispunha de muito tempo, para tudo, mas os sentimentos haviam estacionado em algum lugar. Não me lembro quando, mas em algum ponto eu tinha parado de sentir, talvez para livrar-me da confusão que reinava antes, das lágrimas ardentes rompendo seu caminho pela pele, sem qualquer razão específica, e ao mesmo tempo por toda e qualquer razão possível. Se a mente humana é impotente em face ao absurdo, o coração não se sai muito melhor. Passei os olhos por alguns títulos, com uma fração minúscula do interesse que me despertaria antes, e depois saí, fechando a porta respeitosamente ao fazê-lo. Um pequeno resquício, força do hábito.
Não lembro quando foi que todo mundo sumiu. Pode ter sido a um mês, uma semana. Ontem ainda me lembro de não sentir mais nada, e esse estado particular demorou a chegar. Pode ter sido há um ano. Ou mais. Para todos os efeitos ainda tenho 20 anos. Mas pode ser que eu tenha mais. Não tenho como saber, não fico em um lugar só por muito tempo. Não estou vendo o tempo passar, e não vejo motivo algum para me preocupar com isso. Pensei que ficaria louco, perderia toda a sanidade, deliraria até a minha morte, tal como nos filmes. É o que dizem que a solidão faz conosco. Porém, não me sinto louco, não me sinto fora de mim, lembro com clareza de muitas coisas, apesar da minha percepção temporal já em frangalhos. O que é estar são? Como distinguir o são do insano, sem levar em conta a alteridade que no momento é impossível? Por que eu inventaria definições sobre mim mesmo se no fundo não mudarão nada? O sol está quase baixo, acompanhado de perto por algumas nuvens escuras. Busquei abrigo no prédio branco, sem refletir que me molhar não teria nenhuma consequência importante. Decidi permanecer por ali, mesmo assim. Não estava cansado, minhas pernas não se cansam mais do andar. Continuam presas a mim para fazer exatamente isso. Depois da chuva, depois do sono, sairei novamente a caminhar pelo meio das ruas vazias, veias mortas da cidade, para longe do coração que não pulsa.












