KAIRÓS: O TEMPO DAS ESTRELAS
Bem, há quem diga que a poesia expressa melhor os dizeres, mas acho que talvez falar que ela é esse dizer, define melhor. Ser poeta por vezes é de um vazio paradoxal. Digo isso pois mesmo que aquele velho clichê da solidão esteja ao de redor, o poeta sempre tem a palavra como aliada. Recentemente, um poeta simples, sem muita pretensão de agradar, contou-me uma linda história, daquelas que talvez não escutemos diariamente. Tudo começava com algumas estrelas. Bem, na verdade eram muitas estrelas.
Duas almas, de mundos distantes, momentos distintos e intenções desconhecidas, por coincidência do universo decidiram por um instante contemplar o céu que pairava sobre eles, e que por sorte (ou acaso), estava a disposição de ambos. De repente, aquele universo que antes habitava à quilômetros, juntou sua mala e decidiu invadir aqueles corações. À partir daí, o Clichê, colega rotineiro, envergonhou-se e decidiu se retirar, não soube bem o porquê, mas parece que não havia quarto sobrando para ele.
A história continuava e eu tentava juntar forças para acreditar em tudo que ouvia, era como se o credo que eu possuía não fosse o bastante para que eu pudesse digerir aquelas palavras. E o poeta não cessava de se encantar de como o tempo era tão distinto naquela história de amor, ou sei lá do que era a história, pois foram apenas 48 horas, nada mais. Outro dia, se me permitem abrir um parênteses, ouvi um ser dizendo que o tempo era de nossa autoria, e que era a maneira que pincelávamos a tela do relógio fazia com que ele se alterasse. E acho que naquele ocorrido, isso coube muito bem ("Sabe?!").
Fechando os parênteses, me perco um pouco nas palavras, mas relembrando a história que adentrou não só meus ouvidos, mas também minha alma, encantado fico ao perceber como a conexão de energias é algo tão inexplicável, como uma respiração pode juntar-se a outra, e usando um rabisco encontrado nas telas virtuais, como "o tudo pode se juntar numa coisa só". E novamente a falta de explicação para tanto devir, sente a necessidade da poesia. Querida poesia.
E perguntei ao poeta, após horas cedendo minha escuta, qual fim tinha tomado aquele ocorrido (Confesso que pensei num final feliz. É sério, parecia conto de novela), e para minha surpresa as palavras dele foram: não existe um fim, existe um como. E a dúvida passou a corroer-me. Mas ele acalmou meu espírito explicando um pouco do sentido que ali habitava.
As palavras foram poucas, ele apenas apropriou-se da poesia e escreveu um pequeno verso, e me perguntou "com qual finalidade um poeta escrevia, quando talvez nem o mesmo leria a produção depois?". Aquilo me calou e ele prosseguiu. Me disse que não importa qual fim as coisas terão, mas o que faremos com ela e de que maneira construiremos o que temos nas mãos, nos pés, na cabeça, enfim.
Após todo aquele intenso choque que retirou-me da realidade, atravessei a ponte e voltei ao caos que costumo frequentar. Peguei um lápis, uma borracha para possíveis erros, e dei a sequência que quis para aquela história. Creio que a existência e a veracidade de algo, somos nós quem construímos. E não há medição alguma, seja de tempo ou distância, que fará com que a poesia se aposente e desanime de pintar na tela da vida. Enfim, poesia, vamos nessa?