Calvino e Suas Institutas – Uma Leitura: Introdução
seen from Russia
seen from United States
seen from Japan

seen from Singapore
seen from Yemen
seen from Yemen

seen from Canada
seen from Brazil

seen from Australia
seen from United States
seen from United States

seen from Brazil
seen from Malaysia
seen from China
seen from United States
seen from China

seen from South Africa
seen from Canada
seen from United States

seen from United States
Calvino e Suas Institutas – Uma Leitura: Introdução
Nós não somos nossos, portanto não definamos nossos próprios planos e caminhos de acordo com a nossa vontade. Nós não somos nossos, portanto lutemos para esquecer de nós mesmos e de tudo o que é nosso. Somos de Deus, vivamos para Ele e morramos para Ele. Somos de Deus, assim deixemos que a Sua sabedoria guie nossas ações. Somos de Deus, portanto busquemos que o maior alvo de nossas vidas seja, em todas as coisas, irmos ao Seu encontro.
João Calvino
A marca distintiva da boa doutrina, da qual o autor é Cristo, é esta: ela não se inclina a buscar a glória dos homens, mas a de Deus [Jo 7.18; 8.50].
João Calvino, Institutas da religião cristã - Livro 1
Institutas da Religião Cristã
Institutas da Religião Cristã
Esta primeira edição das Institutas, escrita originalmente em latim, apresenta ao leitor o fundamento do pensamento e o coração de Calvino, estabelecendo-se como a mais importante obra de sua vida — obra que ele reeditou cinco vezes, até a sua última edição, em 1559. Depois de cinco séculos de seu lançamento, as Institutas permanecem úteis e relevantes para o estudo da doutrina e da piedade…
View On WordPress
Livro 3, Capítulo II - “Da fé; a sua definição, e as suas propriedades particulares” (Calvino é um carismático a sério!)
O segundo capítulo do terceiro livro das Institutas trata da definição de fé. É um capítulo longo de 43 pontos.
Calvino procura uma definição de fé que não assenta em base humana. Como assim? A fé está mais no que Cristo fez por nós, do que no que nós fazemos a partir de Cristo. A base deste entendimento é radical no alicerce que reconhece em Deus, e não um entendimento humanista da fé. Apesar de a fé ser para os seres humanos, o conteúdo dela é essencialmente não-humano. O que está em causa é menos a afirmação que o homem faz a partir do facto de Jesus ter feito alguma coisa. O que está em causa é o que Jesus fez e a consequência daí gerada, visível na fé de alguém.
Isto pode parecer de importância relativa mas não é. A partir do momento em que o fundamento da fé está menos no que ela mostra dos homens, e mais no que ela mostra de Jesus, a fé torna-se mais radical. A fé torna-se mais acerca do que Deus consegue em relação aos homens, do que acerca do que os homens conseguem em relação a Deus. Isto é muito importante se tivermos em conta que neste capítulo Calvino combate o entendimento que a Escolástica tinha da fé, mais flexível e humanista. Neste capítulo Calvino luta contra a ideia de uma fé implícita. Para Calvino a fé é sempre uma explícita afirmação de Cristo porque é em Cristo que a fé se torna possível. A fé não se torna possível graças a uma boa intenção genérica dos homens, a uma aptidão para acreditar. Calvino rejeita então uma natureza progressista da Escolástica para afirmar um entendimento mais radical da fé (claro que tudo isto está intimamente ligado com a justificação pela fé).
Compreender que a fé é uma coisa mais radical também é o que nos permite afirmar uma teologia mais trinitária. Através da assistência do Espírito Santo, sabemos que o Filho é a imagem do Pai. Uma fé mais flexível, como aquela sugerida pela Escolástica, torna mais obscura a identidade trinitária de Deus. Por isso é revelador que o ecumenismo tradicional à Século XX junte orações a deuses não-trinitários com orações ao Deus Triuno (esta também é uma razão porque este ecumenismo tradicional deve ser rejeitado).
Calvino diz que o conceito de fé implícita promove mais a Igreja institucional de Roma do que a fé. Como? Submeter as nossas convicções à Igreja não chega para ser fé. Porque a fé passa por um conhecimento do Deus Pai que envia o Filho (o tal esquema trinitário). Isto não significa que a fé é um conhecimento intelectual, mas significa que a fé também provoca esse conhecimento claro do que acontece entre Pai e Filho. Calvino não deseja que a fé se confunda com uma confiança nas nossas capacidades intelectuais de apreender uma determinada proposição religiosa, mas afirma que "é absurdo honrar a ignorância, temperada com humildade, sob o nome de fé. A fé consiste no conhecimento de Deus e do Filho (João 17:3), não na reverência pela Igreja" (pág. 471). Ler a Bíblia também é reconhecer o papel que o conhecimento empreende na fé.
Calvino preocupa-se em salvaguardar que passando a fé pelo conhecimento, isso não significa que o nosso conhecimento é total. De modo algum. Não é possível ser cristão sem uma verdadeira humildade epistemológica. A questão é compreender que o único terreno bíblico firme para afirmar algo de semelhante a uma fé implícita é descobri-la nos discípulos, por exemplo, como uma preparação para a fé (no sentido em que a fé é sempre misturada com a incredulidade). A única fé implícita possível para Calvino é a preparação para a fé, como visível no caso dos discípulos nos evangelho. Mais do que isso é especulação.
Calvino avança com uma definição de fé: "o verdadeiro conhecimento de Cristo consiste em recebê-lo tal como ele é oferecido pelo Pai - nomeadamente, investido pelo seu evangelho" (pág. 473). Isto é muito interessante: a fé, mais que ser um fazer à nossa maneira, é um fazer à maneira de Deus, porque recebemos Cristo como ele foi enviado pelo Pai. Isto leva-nos a uma ligação inseparável entre a fé e a palavra - por isso, crente pode ser um sinónimo de discípulo. Se perdermos a palavra, perdemos a fé. "A própria palavra, seja qual for a maneira como ela se apresenta a nós, é uma espécie de espelho onde a fé contempla Deus" (pág. 474). Mesmo se tivermos em conta que posteriormente Deus envolve as obras dos homens no processo da fé, é sempre a palavra que suscita essa fé (e consequentemente, essas obras). Ou seja, o poder das nossas mãos depende sempre da palavra. "A fé inclui não apenas um conhecimento de quem Deus é, mas também a percepção da sua vontade para nós" (pág. 474). O que nos leva a outra definição de fé: "a fé é o conhecimento da vontade divina em relação a nós, a partir de como a palavra a afirma" (pág. 474). Neste sentido, é impossível uma definição final de fé na medida em que nunca nos é revelado a totalidade da vontade de Deus para nós.
No relacionamento que temos com essa vontade que Deus tem para nós, importa sublinhar a importância da verdade e da misericórdia como características de Deus. "Seria presunçoso afirmar que Deus nos é propício, se não tivéssemos o testemunho dele (...) que não nos deixa dúvidas acerca da sua vontade" (pág. 475). Para que a palavra de Deus tenha crédito, a nossa mente tem de estar iluminada e o o nosso coração tem de estar confirmado. Isto é notável porque serve de clara afirmação carismática de Calvino. Não esqueçamos que estamos no terceiro livro das Institutas, aquele que trata do trabalho do Espírito Santo.
O que é que isto significa? Calvino destrói a noção escolástica de fé formada e de fé-não formada, implicando que isso significa uma rejeição prática do Espírito Santo. Calvino é um verdadeiro carismático! Calvino ultraja-se dizendo que os Escolásticos dão nome de fé a um uma persuasão pessoal desprovida do temor a Deus. Tal não é possível porque a fé só existe através do trabalho do Espírito Santo, que nos testemunha que Deus Pai nos adopta através do sacrifício de Deus Filho. "Uma vez que a fé recebe Cristo como ele é oferecido pelo Pai, e ele é oferecido não apenas para a justificação, para o perdão de pecados e para a paz, mas também para a santificação, como fonte de águas vivas, é então certo que nenhum homem conhecerá [Cristo] sem ao mesmo tempo receber a santificação do Espírito" (pág. 476). Isto é brilhante e significa que sem santificação não há salvação. Jesus morre para que possamos ser justos diante de Deus, mas Jesus também morre para que sejamos santos. Não é possível tratar bem Jesus tratando mal o Espírito Santo. Defender uma definição de fé mais flexivelzinha e inclusiva é rejeitar o Espírito Santo. Nesse sentido, só os pios (pessoas em santificação progressiva) podem ter fé. Não há fé de qualidade budget para os que ficam a meio caminho.
Dos pontos 11 a 20 Calvino continua a explorar a definição de fé. Começa por reconhecer que às vezes não dá para distinguir inteiramente a presença de fé verdadeira em alguém que foi eleito por Deus, da presença de outra coisa que não chega a ser fé mas passa por isso, neste caso em alguém que não foi eleito por Deus para a salvação. É possível que uma pessoa prove da doçura da fé de uma maneira que parece que essa fé é genuína. No entanto, será uma experiência, que por fantástica que pareça, não durará. Isto porque apenas aqueles que foram eleitos por Deus para a salvação podem ter a certeza que essa salvação não deixará de o ser - a salvação não é temporária mas permanente. Fechando esta questão, Calvino alerta ainda para que os crentes não confundam segurança carnal com certeza da salvação. Convencimentos há muitos e ninguém é salvo por estar convencido disso - somos salvos por Cristo. "Não há nada inconsistente no facto de Deus iluminar alguns com um sentido presente da sua graça, que depois se prova evanescente" (pág. 479). Saul é dado como exemplo disto. O que resulta daqui é uma humildade superior para os crentes. Essa humildade oferece à segurança da salvação um proporcional sentido de temor da ira divina.
Calvino avança para explicar que a fé, passando por uma doutrina sólida, vai além do conhecimento intelectual de proposições teológicas. Até porque a visão dos efeitos do pecado no homem é radical: não há parte dentro de nós que não veja o estrago do pecado - como poderíamos então achar que por sermos cristãos a nossa mente passaria a funcionar perfeitamente? A segurança do crente reside menos no facto de ele pensar perfeitamente, mas mais no facto de ele ganhar uma certeza que Deus é seu pai por adopção. Passa a existir uma confiança que, ainda assim, luta com as consequências do nosso pecado.
Qual o sentimento de um cristão? "Só é um crente verdadeiro aquele que, firmemente convencido que Deus está reconciliado, e que é um tipo de Pai para ele, espera tudo da sua bondade, que, confiando nas promessas do favor divino, com uma confiança sem dúvidas, antecipa a salvação" (pág. 483 e 484). É importante sublinhar que o chão da certeza da salvação não é o que acontece na cabeça do crente, mas é o que acontece em Deus. Porque Deus não mente, posso confiar inteiramente nele. No coração da fé, está a esperança.
É preciso ainda assinalar que esta confiança não vive sem perturbações. "Quando dizemos que a fé deve ser certa e segura, certamente não falamos de uma segurança que nunca é afectada pela dúvida" (pág. 484). A dúvida existe, simplesmente não termina em abandono da fé. David ilustra isto em momentos de insegurança, como no Salmo 42:5 ("Por que estás abatida, ó minha alma?"). É preciso abrirmo-nos a todos os espaços que a Escritura nos desenha: o primeiro é da delícia pelo reconhecimento da bondade de Deus; o segundo é o da amargura pela consciência do nosso estado caído. Esta diversidade diz respeito ao facto da fé se traduzir na nossa realidade humana imperfeita. Lembremo-nos sim de lutar contra a descrença, uma arma do inimigo para nos convencer que Deus nos é hostil.
Calvino prossegue falando sobre fé, registando-a como associada a um amor sério - neste sentido, um tough love. "Quando a tentação sugere que Deus é um inimigo porque nos aflige, a fé responde que enquanto ele aflige, ele é misericordioso, procedendo mais a sua correcção do amor que da ira" (pág. 487). Por isso, em Mateus 8:25, apesar de censurados pelo Mestre pela sua falta de fé, é ao próprio Mestre que continuam a pedir ajuda. A dúvida lança os seus dardos, mas não aniquila quem é espetado quando há fé nessa vida - a duvida não mata mas mói.
Calvino aponta a pedagogia de Paulo aos Coríntios, quando os avisava que Deus poderia destruir algumas pessoas como castigo pela desobediência, mas essa destruição era sempre em função do descanso que elas deveriam reconhecer em Deus. A pedagogia é negativa mas o ensino é positivo. Quando somos exortados em trabalhar a nossa salvação com temor e tremor é na medida em que confiemos na força do Senhor e não na nossa. "Os descrentes cortejam a letargia para que o medo de Deus não os aborreça" (pág. 489) mas o crente deve acolher o temor como parte da admiração que tem por Deus. Isto não oblitera a esperança, simplesmente reconhece que pessoas de fé também atravessam períodos onde sentem a sua fé soterrada em trevas.
Os cristãos têm de acolher o facto paradoxal de não valerem nada ao mesmo tempo de representarem para Deus um tesouro - a Escritura caracteriza-nos como nada e como grandeza. Deus é nosso Senhor e nosso Pai, e devemos responder como servos fiéis e filhos obedientes. Ambos os sentimentos existem. "Aquele que considera que Deus é um pai para si verá razão suficiente, mesmo que o Inferno não existisse, para a ideia que ofendê-lo é mais aterrorizadora que qualquer morte" (pág. 492). Isto conjuga-se com 1 João 4:18: "No temor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o amor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor" porque o temor mencionado é o temor do não-crente. Que temor do não-crente é esse?
O temor do não-crente não é baseado no medo de ofender Deus, porque eles ofenderiam Deus sem problema caso não sofressem consequências. O temor do não-crente é o temor do castigo. O temor do crente não é essencialmente o temor do castigo. O crente tem mais medo da ofensa que do castigo. O crente está mais preocupado com a ofensa que os seus pecados lançam sobre Deus, do que sobre o castigo que daí virá. O crente, no fundo, relaciona-se a partir do que Deus é, e não tanto a partir das consequências circunstanciais. O crente está mais preocupado com Deus que com ele mesmo, daí a diferença entre os temores.
As Escrituras descrevem a salvação como a remoção de toda a inimizade que existe entre nós e Deus, fazendo do perigo anterior uma história do passado. Isto é fantástico porque abre caminhos: "sejam quais forem as misérias e calamidades que esperam neste mundo os filhos de Deus, eles não conseguem deixar de fazer do favor divino a sua felicidade completa" (pág. 493). Por isso Paulo se gloriava nos seus sofrimentos e por isso declarava qualquer perigo como incapaz de o separar do amor de Deus.
A fé é a aceitação de uma promessa livre que Deus nos faz, e a fé reconcilia-nos com Deus porque nos une a Cristo. Somos consequentemente enxertados no Corpo de Cristo que é a igreja, como consequência.
Para destacar a importância da ligação entre a fé e a palavra, Calvino diz que "a fé não tem menos necessidade da palavra que o fruto da árvore tem da raiz" (pág. 495). O conhecimento desta palavra não está dependente da nossa imaginação dela mas do facto de ter sido Deus a dá-la. Logo, a eficácia da fé está necessariamente presa ao poder da palavra de Deus. É isso que Paulo diz em 2 Timóteo: "porque eu sei em quem tenho crido e estou certo que ele é poderoso para guardar o meu tesouro até aquele dia". O alerta de Calvino é forte: perdemos mais poder de Deus quando desvalorizamos a sua palavra, do que quando Satanás a ataca. O poder de Deus não se manifesta sem a presença da sua palavra. Poder e palavra vêm juntos.
Todo o poder de Deus está na palavra na medida em que Cristo a encarna e cumpre todas as promessas. "Só quando as promessas são recebidas com fé que a sua eficácia é recebida" (pág. 497). Por outro lado e negativamente, quem rejeita a palavra amealha condenação para si.
Até pessoas que na Bíblia mostraram fé sem um conhecimento pleno de Cristo (Naamã, Cornélio ou o Etíope, por exemplo) parecem ter demonstrado uma prova de aperitivo desse Cristo que não conheciam explicitamente (uma espécie de conhecimento obscuro prévio).
O que é contrário à luz da palavra? A treva do nosso entendimento natural. E aqui Calvino tem de se atirar à Escolástica: a Escolástica, exagerando no seu apreço pelas capacidades inatas da razão, acabava a desvalorizar um papel único da iluminação do Espírito Santo. Novamente, brilha o afiado pessimismo antropológico reformado. Só se percebe de Deus, quando Deus nos muda o perceber através da iluminação do Espírito Santo. O que temos inatamente não é a visão mas a cegueira.
A palavra não é recebida como fé quando apenas fica a pairar no cérebro, não constituindo uma fortaleza contra a tentação. É na luta contra a tentação que sentimos melhor que Deus é mesmo o nosso refúgio.
A fé não é uma conjectura moral mas a aceitação de uma verdade de Deus. Por isso se dissipa qualquer ambiguidade. O resultado é uma clara segurança no que a palavra promete. É o que Paulo faz em Romanos 8:38. É uma arrogância ingrata duvidar da vida eterna quando ela foi estabelecida por Deus e não por nós. Estar certo que Deus nos dá vida eterna não é acerca da nossa certeza mas acerca da fidelidade de Deus. E não há fé verdadeira sem esperança na vida eterna.
Por fim, o fundamento desta segurança é verdadeiramente familiar. Acreditamos porque Deus é nosso Pai. Não é só porque ele é um juiz justo que não falha.
Livro 3 (O modo de obter a graça de Cristo. Os benefícios que confere, e os efeitos que dela resultam), Capítulo I - “Os benefícios de Cristo disponíveis para nós e os efeitos resultantes deles”
O objectivo no início do seu terceiro livro, é concentrar-se na terceira parte do credo apostólico - o trabalho do Espírito Santo. E neste caso, há uma ênfase no facto der um trabalho referido como secreto.
O objectivo das bênçãos que recebemos de Jesus vai além do uso privado e estende-se aos que são necessitados. Se estivermos separados do que Cristo fez, não há benefício qualquer que tiramos do facto de ter morrido e ressuscitado para a salvação de pessoas. Esta afirmação serve para sublinhar a necessidade de uma ligação que precisamos ao que Deus fez - é aqui que se inscreve a pertinência do Espírito Santo. Para amarmos o que o Filho fez, temos de ser onde o Espírito fica. Habitando o Espírito em nós, temos uma ligação às bênçãos consequentes de Cristo ser salvador.
"Cristo veio pela água e pelo sangue, como o Espírito testemunha a seu respeito, para que não percamos os benefícios da salvação que ele comprou para nós" (pág. 463). Há uma correspondência então da realidade do Céu ser Pai, Palavra e Espírito para a realidade na terra ser água, sangue e Espírito. Cristo deu o seu sangue para nos purificar de todo o mal através da purificação do Espírito.
O Espírito habita em nós para mais que apenas nos dar uma energia semelhante a qualquer ser humano - o Espírito habita em nós para dar aos seres humanos em que ele habita uma vida que é própria do Céu. Nesse sentido, os que recebem o Espírito são separados dos outros para uma herança eterna.
A Bíblia tanto trata o Espírito Santo como o Espírito do Pai como Espírito do Filho (Romanos 8:9). O Espírito pode ter títulos como: 1) "Espírito de adopção", porque através do Filho Deus dá-nos um acesso ousado a podermos tratá-lo como Pai; 2) "Espírito de justiça", porque ele irriga em nós frutos de justiça sendo como água para nós (e a água também enquanto símbolo de matar a nossa sede); e 3) "Espírito de purificação, neste caso prefigurado através do fogo.
A salvação de Cristo não poderia ser perfeita sem o Espírito Santo habitar em nós.
Livro 2, Capítulo XVII - “Cristo justa e propriamente adquire meritoriamente graça e salvação para nós”
No último capítulo do segundo livro das Institutas, Calvino afirma que o mérito do que Cristo faz começa no facto de Deus assim ordenar. O que é que isto significa na prática? Que a beleza de Cristo vem da predestinação de Deus Pai e não da resposta que nós, enquanto homens, lhe damos. Explicando ainda de uma maneira mais simples: Cristo não é bonito porque fazemos bem. Nós é que podemos fazer bem porque Cristo é bonito. A beleza última de tudo não está na nossa resposta à iniciativa divina, mas a beleza última de tudo está na iniciativa divina (e, neste sentido, na predestinação).
O chão é o amor de Deus que provoca a obediência de Deus Filho a este plano, pelo método da fé que as pessoas têm nele. Termos fé em Cristo não é onde a nossa fé começa, mas é onde ela se exprime. Termos fé em Cristo começa no amor de Deus por nós, não no nosso amor por ele. Termos fé em Cristo é possível através do pagamento que ele faz em favor do prejuízo causado pelos nossos pecados a um Deus que é santo. Logo, a propiciação é um símbolo maior deste amor por nós. Jesus não morre por uma questão de crueldade divina. Jesus morre por uma questão de amor divino.
Não há como tratar destas questões de um modo piegas. "Como Deus é a fonte de toda a justiça, ele tem necessariamente de ser o inimigo e o juiz do homem enquanto o homem permanece pecador" (pág. 455). O começo do amor é a atribuição de justiça, justiça essa que pede duas imputações: a imputação do nosso pecado a Cristo para que depois a sua justiça possa ser imputada a nós. Todo este negócio sangrento é prova de amor.
A obediência de Cristo é uma parte fundamental da fé cristã. Porque sem ela não poderia haver a capacidade de Deus vir até nós para que nós possamos ir até ele. Se Cristo não se expusesse a essa descida sofrida (Filipenses 2:5-11), não haveria fim para o sofrimento justo que passamos pelo mal que fazemos. Todos os símbolos de sacrifício do Velho Testamento "são figuras antigas que nos ensinam admiravelmente sobre o poder e eficácia da morte de Cristo" (pág. 456).
As implicações disto ficam óbvias: "pouco efeito é dado à graça de Cristo, a menos que concedamos ao seu sacrifício o poder de expiar, aplacar e satisfazer" (pág. 456) a ira de Deus pelos nossos pecados. Isto não é uma religião primitiva - isto é uma religião séria e consequente com a existência do mal.
Por último, Calvino atira sobre Pedro Lombardo e a Escolástica quando emagrecem a importância do esquema expiatório da salvação de Cristo. Se o facto de Cristo expiar os nossos pecados não é contemplado, e parte essencial do trabalho da sua salvação, é como se ele fosse um sacerdote incompleto. E, acrescentaria eu, daí o encaixe incontornável da justificação pela fé na fé reformada. Sempre que se desbasta no aspecto expiatório da morte de Cristo, ficamos expostos a uma salvação que se torna mais acerca do que nós podemos fazer depois de Deus, do que uma salvação acerca do que Deus faz por nós e, consequentemente, como respondemos. Acaba o segundo livro das Institutas.
Livro 2, Capítulo XIX - Cristo, embora dado a conhecer aos Judeus sob a Lei, todavia apenas manifestado sob o Evangelho
Neste capítulo, João Calvino pretende afirmar qual a relação entre a Lei e o Evangelho. Mais particularmente, Calvino quer explicar a continuidade que existe entre os dois. Para isso é necessário entender que a Lei só existe baseada no carácter de Cristo. O que é que isto quer dizer? Que quando Deus instituiu os meios de expiação e sacrifícios da Lei, esse não era um meio que ia ser substituído por Cristo mas completado por ele. O carácter de como Deus era conhecido durante o tempo da Lei é o mesmo carácter de como Deus é conhecido no tempo da vida de Cristo - a luz é que é muito maior. Cristo não vem para dizer: "agora trato eu do assunto porque já vimos que esta história de vocês se relacionarem com Deus a partir de obedecerem à Lei não funciona!" Antes pelo contrário, Cristo vem para dizer: "para provar que esta história de vocês se relacionarem com Deus a partir de obedecerem à Lei funciona é que eu dou a minha vida como o sacrifício final." Isto significa que nos salvamos pela Lei? Como já varemos mais à frente, não. Não é uma questão de luta mas de integração.
Os Patriarcas do Velho Testamento não foram homens que, comparados connosco, tiveram acesso a uma forma mais primitiva do cristianismo cumprindo regrinhas. O que a Bíblia nos explica é que os Patriarcas viram em sombra aquilo que nos foi dado a ver claramente. Isto é uma responsabilidade enorme, tendo em conta a piedade dos Patriarcas comparada com a nossa preguiça. Logo, "é detestável a ingratidão daqueles que andam com uma venda nos olhos perante esta luz meridiana" (é em passagens destas que Calvino demonstra que, a par da sua dimensão intelectual, há uma dimensão poética na sua escrita que é absolutamente excepcional). É como se os Patriarcas do Velho Testamento se tivessem preparado para umas férias numa ilha paradisíaca que não conseguem concretizar e nós, que efectivamente vamos passar essas férias, escolhemos ficar na cama o dia inteiro no hotel.
Calvino descreve o evangelho então como "a manifestação clara do mistério de Cristo" e deve ser compreendido insto da doutrina da fé às promessas feitas por Deus no Velho Testamento através da Lei. "Num sentido lato, o evangelho compreende as evidências de misericórdia e favor paternal que Deus outorgou aos Patriarcas." O evangelho não é o que aconteceu depois do Velho Testamento, o evangelho também é o Velho Testamento.
Era importante afirmar isto com clareza ao mesmo tempo que se condenava Servetus, por rejeitar a Lei. Sob o pretexto aparentemente bonito de Cristo ter completado a nossa salvação, Servetus inferia que já estávamos na presença de todas as bênçãos compradas por Cristo. Ao que Calvino tem de chamar para a importância da esperança na vida do cristão - "não há inconsistência nestas duas coisas - que em Cristo possuímos tudo que pertence à perfeição da vida celeste, e que, no entanto, a fé é apenas uma visão das «coisas que não se vêem» (Hebreus 11:1)".
Calvino aponta então o erro de olhar para a Lei com o se ela baseasse no mérito das obras, em vez de no mérito da graça. Isto significa que é certo que Paulo contrasta Lei com a graça, no sentido em que Deus não nos tem como justos por nós cumprirmos a Lei - de facto, ninguém a consegue cumprir como deve ser. É nesse sentido que o contraste entre Lei e graça é feito - na medida em que ninguém a consegue cumprir. Mas, com esse contraste, Paulo não quer dizer que a Lei não serve para nada e é de qualidade inferior à graça. Antes pelo contrário, o que Paulo pretende é demonstrar que a graça não salva de uma maneira diferente que a Lei. Jesus não vem ao mundo para salvar as pessoas de uma maneira diferente que a Lei os podia salvar. Jesus vem ao mundo para salvar as pessoas do modo que a Lei prometeu que elas seriam salvas - pela intervenção graciosa do próprio Deus. Isto significa que quando a Lei foi dada, ela já foi dada num gesto de graça divina. Calvino remata: "Quando falamos de toda a Lei, o evangelho só se distingue dela em termos de clareza de manifestação." Lei e graça não são inimigos. São manifestações distintas da mesma qualidade de Deus nos salvar por sua iniciativa. Salvamo-nos pela graça sendo capacitados para cumprir a Lei. Do mesmo modo como Cristo nos salva porque cumpriu toda a Lei. A relação entre as duas não é de inimizade mas, como já vimos, de integração.
Por fim, Calvino chama a atenção para o facto de João Baptista ocupar um lugar único, ao estar entre a Lei e a graça para testemunhar daquele que estava para chegar que cumpria a primeira por manifestar perfeitamente a segunda.