Era nosso
Vento rodopiante levanta as folhas por onde eu passo, o frio corta a minha cara, como pequenas agulhas que passam raspando a pele, as árvores peladas não servem mais de refugio. No céu, tons claros de cinza e branco pintam a manhã meio enevoada, não ouço pássaros, nem nada. Talvez um carro ou outro, derrapando no asfalto congelado. Um homem dorme sentado no banco, vez ou outra um ronco sonoro lhe escapa, depois de uma sequência, o vejo acordar assustado. De relance, apenas o assisto correr apressado, atravessar a rua, e sumir de vista. O foco na verdade estava nas minhas próprias mãos, enluvadas, e mesmo assim congeladas. Um dejavú para completar minha cena. Encaro as palmas, viro-as e estendo-as para longe. Trago-as para perto, tento aquecer as pontas dos dedos com pequenos sopros quentes, tentativas infrutíferas. Como fui parar no parque? Deixei a casa dela, a cama quente dela, o abraço dela e vim parar no parque gelado, sem ela? Não tinha motivos para a briga, ninguém possuía a razão, não quisemos ouvir. A lágrima que escapou-me, nem sequer conseguiu escorrer pela bochecha, dedos finos, frios como a morte, enxugaram-na. Um "desculpe-me" saiu dos lábios de alguém que estava fora do meu alcance de vista cabisbaixo, mas reconheci sua voz. "Desculpe-me também!", disse, finalmente completo de coragem ao olhar para ela. Estava esquelética, roxos profundos contornavam seus olhos de noites sem dormir. Tomei-a em meus braços, segurei forte, meu calor era seu calor, sua tristeza era minha tristeza, minha força era sua força, nosso amor... Era nosso.
Eu, eu mesma e um pouco do universo.











