Tem todo um ano que Marina nos deixou. Um ano inteiro que uma terrível notícia nos acordou; para o dia, para a realidade, para o futuro, para um antes e um depois. Para uma sentença que, uma vez dita, não muda seu tempo verbal nunca mais. Marina morreu. E isso não muda mais.
Eu ainda sinto muita falta de você, Marina. Todos os dias ainda lembrarei de alguma coisa nossa, sua, dos seus fazeres. Não por querer, por me forçar, mas porque é natural e sempre foi. A sua partida nos convida a lembrar. As distâncias se expandem quando se tornam permanentes.
Eu ainda escuto nossas músicas. Eu ainda escuto músicas querendo te indicar. Ainda vou até a praia e converso mentalmente contigo, esperando que de alguma forma a mensagem chegue até você. Ainda és uma das únicas pessoas que sei que me entendiam, e que entendia as frustrações, os medos e os anseios artísticos de quem não é visto.
Mas já disse antes: hoje sei que a árvore faz som quando cai, mesmo quando não tem ninguém para vê-la ou ouvi-la.
Me lembrei dessa foto da esquerda. Fotografei num dos primeiros café e cookies da praça do hipódromo. Tenho certeza que foi pós término do Clóvis Beviláqua. Choveu muito nesse dia, torrencialmente. Tava um dia "feio", sobretudo numa cidade tão aquática e ao mesmo tempo tão alérgica às águas, como o Recife.
Mas não desmarcamos o Café e Cookies, porque queríamos muito nos ver. Como disse, as distâncias se expandem quando se tornam permanentes. A gente sabia que não mais estudaria juntos, que não mais nos veríamos todos os dias, e que aquela convivência contínua tinha chegado ao fim.
É até engraçado pensar nas dificuldades de arrumar os rolês nos últimos dias e contrastar com um dia como foi esse, em que - mesmo na chuva, mesmo com trovoadas, mesmo onde não ter onde se abrigar, que não abaixo daquele quiosque furado, todos fizeram tanto esforço para comparecer. A foto da esquerda fui eu quem tirei, de suas mãos. Um pássaro. A esperança, de Emily Dickinson.
“A esperança é a coisa com penas
Que empoleirada na alma,
Canta a melodia sem palavras,
E nunca para,
E mais doce na ventania é ouvida;
E dolorida deve ser a tempestade
Que poderia abater o passarinho
Que manteve tantos aquecidos.
Eu a ouvi na terra mais gelada,
E no mar mais desconhecido;
No entanto, nunca, nos extremos,
Ela pediu uma migalha de mim.”
Emily Dickinson
A foto da direita foi você quem tirou. A foto de quem fotografa. Éramos nos dois os guardiões da memória desse grupo. Geralmente, as fotos em que saíamos era um sem o outro - porque um dos dois teria que tirar a foto - ou em selfies apenas.
Mas eu gostava muito quando um capturava a essência do outro. Você com seus desenhos, eu com as fotos. A gente se entendia. Se entende. E isso não vai mudar. Não pode mudar. Saudade infinita, Marina. Te amo que só.
Hipódromo, dezembro, 2015.