A Culpa é das Estrelas, e o dolorido prazer de viver e morrer com propósito.
A Culpa é das Estrelas é um livro fantástico sobre a dor, a morte, resoluções e também sobre o amor - sem uma ordem necessária destes. Dos livros que já li de John Green, o que mais diferente trata essa morte, que já é evento confirmado em suas obras.
Mas diferente dos outros (Tartarugas Até Lá Embaixo; Quem é você Alasca...), a morte é uma certeza logo em suas primeiras páginas - e nem quando acontecem as viradas, os "plotwists" da história, é algo necessariamente surpreendente. A perda também não é de supetão, mas lenta, dolorosa, sentida... Mas também não é só isso.
Hazel Grace e Augustus Waters nos "cutucam" com suas inquietudes acerca do mundo ao seu redor. E das injustiças, e na verdade até do niilismo, de sequer haver justiça a quem cobrar. Afinal, de quem é a culpa por seus cânceres, das estrelas?!
"Nas últimas semanas, nós nos limitamos a passar o nosso tempo juntos relembrando o passado, mas isso não significava mais nada: o prazer de lembrar tinha sido tirado de mim, porque não havia mais ninguém com quem compartilhar as lembranças."
John Green deixa novamente seus gostos transparecem na escrita destes personagens. São observadores, amorosos com o mundo ao redor - apaixonados demais pela vida, e pelas trivialidades do cotidiano. É bonito demais ver o mundo através de seus olhos , ou mesmo na ausência de seus olhos (como é o caso do Isaac, cujo câncer lhe tirou a visão), ainda através de seu humor irônico.
É triste - e real demais - quando a ironia, o ceticismo dos personagens, tão amorosos com o mundo e entre si mesmos, é substituído por dor e lamúria. Na verdade, é mais real do que triste. E por isso que é triste demais. De repente, não há mais energia em Hazel ou em Gus para ser carismático e gregário. É só a doença consumindo seu ser.
Uma morte rápida e lenta, da magia no mundo ao redor, mas de sua saúde, obliterada pelo câncer que se espalha. Mesmo tão anunciado em todas as quase 300 páginas, a morte é sempre uma morte. E deixa esse vazio que nunca é preenchido nas obras de John Green, mas podem ser sentidas. E eu gosto disso. Há espaço para morrer, mas também para o choro, o desamparo, para a raiva e quem sabe, para olhar para frente.
A Culpa é das Estrelas é, entre todos os livros de John, o mais real. E eu o odeio e o amo por isso. E a nostalgia me invade. A morte não necessariamente traz sentido, simbologias, um legado. Nem tudo são cruzamentos e respostas. Nem toda morte é mártir. E nenhum mártir durará a eternidade. Nenhum herói terá sua jornada contada por toda eternidade, muito menos a morte por uma doença lenta e dolorida, ou a morte rápida demais para ser vista. O fim é o esquecimento. O que fazemos com a cicatriz que em nós fica, até que seja a nossa vez?
"Parecia que a perda do colembrador representava a perda da própria memória, como se as coisas que tínhamos feito juntos fossem menos reais e importantes do que eram algumas horas antes."
E é claro, não estou lendo os livros de John Green agora por acaso. É a missão que designei a mim mesmo, em memória de Marina. Mas já falei disso incansavelmente aqui. O que me pegou nessa leitura foi essa passagem, o "colembrador." E meu coração foi ao chão; Marina e eu sempre fomos "guardiões da memória" (ou acumuladores digitais) dos Clovinalders. Quando não ela, era eu quem fazia os registros dos acontecimentos, de nossas aventuras, desde o ensino médio.
Perder Marina foi perder também essa colembradora, e isso me faz perder muito o sentido da memória. Quer dizer, é claro que todos ainda adoram as lembranças, quando as trago a tona. Mas já conheço todas. Sou eu o guardião. E de repente não tenho mais ninguém com quem trocar "figurinhas". Perdi a minha colembradora, quando perdi Marina.
No dia de seu enterro, nos juntamos na varanda da casa de Emily, e ficamos conversando e lembrando de alguns bons momentos, tentando abafar a dor (tarefa difícil). Inevitavelmente chegamos no assunto das fotos, dos vídeos, dos nossos áudios. E foi quando Pedro disse: É João, agora vai ter que ser contigo, a coisa toda de registrar.
Finalmente isso me alcançou. E me atingiu feito uma bala. "A nostalgia é um efeito colateral de se estar morrendo." E é mesmo. Ah, não sei se por destino, maldade ou o quê, mas esta semana o Facebook me lembrou dessa foto, de 11 anos atrás, na Bienal do Livro em Pernambuco. Marina, eu, Danilo, Emily, Laura e Acerola. E A Culpa é das Estrelas, bem ali. É engraçado o universo, quando busca ser notado. DFTBA.