I SEE DEAD PEOPLE. ALL. THE. TIME.
Jill sabia que tinha algo de diferente nela quando era ainda uma criança e viu uma mulher de vestido longo andando pela sua casa. Era fim de noite e definitivamente não se parecia em nada com o pessoal que costumava andar por ali, gravando até tarde com seus pais. Seguiu a mulher por todo o caminho que ela percorreu, da sala até o segundo andar, parando exatamente em frente ao quarto onde seus pais dormiam. O olhar da mulher era meio melancólico e, de alguma forma, Jill sabia o que tinha para dizer, antes de esticar sua mão e sentir agarrar o ar, mesmo que pudesse ver seus dedos se entrelaçando com os da mulher.
— Ele está dormindo agora. Tá tudo bem. — Garantiu a mulher estranha, que balançou a cabeça, concordando.
Foi a primeira vez que avistou a sua avó paterna, mas não a última.
Não era como se Jill Rose fosse parte de uma família extremamente comum. Eles são cinco filhos que nasceram na estrada enquanto seu pai fazia sucesso no folk e sua mãe no country; a probabilidade de acontecerem coisas estranhas e improváveis sempre agia ao favor deles e era assim que tudo acontecia em suas vidas. Mas, ainda assim, se manteve calada, lidando com o fantasma familiar conforme crescia e entendia o que era ser paranormal.
Um dom solitário e um tanto quanto não prático quando se tratava do dia a dia.
— Olha... Eu sei que você tá aqui pra pedir uma ajuda pra desencarnar — explicava, pacientemente, dentro do ônibus, no último banco. As pessoas não olhavam em sua direção e se olhassem, jurariam que estava falando com alguém através de seu fone wireless. Mas eles estavam desligados e os olhos de Jill acompanhavam a figura difusa de um menino poucos anos mais novo que ela. — Mas eu tenho prova, hoje. Uma prova importante. Você chegou a fazer ENEM*? Se não, saiba que essa prova é uma das mais importantes que existe no nosso sistema de avaliação e eu preciso MUITO tirar uma boa nota nele. Então podia, por favor, não sugar a minha energia vital? Porque eu vou precisar dela nas próximas horas.
*chamei de ENEM porque esqueci a sigla correta nos EUA.
Os anos vieram e foram, e Jill conseguiu controlar aquele dom, jurando a si mesma que não iria se reproduzir para não passá-lo em frente. Porque quem mais desejaria uma criança que vê gente morta com frequência desde a pré-escola?
— Ah, eu gostaria de agradecer a sua sobrinha. Os banhos que ela me indicou super funcionaram — a professora de Melanie lhe disse no dia que foi buscar a garota na escola enquanto Katniss estava trabalhando.
— Eu... Okay... — balbuciou, confusa.
Jill entrou no carro e assistiu Mel balançando as pernas dentro do carro, as maria-chiquinhas penduradas batendo em seu rosto enquanto cantava uma música infantil em francês. Ela nem ao menos sabia de onde ela tinha aprendido francês, mas não quis perguntar sabendo já a resposta: os fantasmas lhe ensinaram. A mais velha então, suspirou.
— Mel, meu bem... O que você sabe sobre ver pessoas que não estão aqui nesse mundo?
E aquela pergunta mudou a vida das duas, para sempre.













