#Astrologia Percepções astrológicas – 12/04/2017
Hoje a Lua, ainda na fase cheia, está em Escorpião, começando o dia em oposição com Mercúrio Rx, mas em trígono com Netuno durante a maior parte do dia, com o Sol ainda na quadratura em T com Plutão e Júpiter Rx, se aproximando ainda mais de uma perfeita conjunção com Urano, e Vênus Rx, em perfeita quadratura com Saturno, enquanto também se aproxima de uma perfeita conjunção com Quíron.
Os processos de decepção são consequência da quantidade de expectativa e fantasias que colocamos sobre tudo que vivemos, e isto se faz presente, ainda mais estando sob a influência da fase lunar ligada à Libra, que tanto pode ser a beleza que colocamos na vida para harmonizá-la, quanto, também, podem ser nossas camadas de conceitos sobre as coisas, a distinção entre o “belo” e o “feio”, entre o “elevado” e o “pueril”, “sagrado” e “profano”, e esta pode ser uma das últimas dualidades a serem vencidas, que nos jogam nas tentações mais sutis e difíceis de serem identificadas – a tentação netuniana da vaidade. Sim, o desejo de se sentir superior, elevado, detentor de um conhecimento superior, que nos distingue dos demais. Mesmo aos mais aparentemente bondosos, quando, um dia, jamais surgiu um pensamento do tipo: “nossa, coitado daquele ali que não sabe aquilo que eu sei e, portanto, está tão perdido”. Ou quando ficamos doentes – a primeira coisa que ouvimos são coisas do tipo “tome isso e você vai ficar bom logo”, “fique bom logo”, “melhoras”, ou ainda, para os mais ligados às linguagens espirituais, “o que será que ele fez ou está pensando de tão ‘negativo’ para estar deste jeito...”
Isto me faz lembrar de dois filósofos que são fundamentais à minha vida: o primeiro é Michel Foucault, em sua “História da Loucura”, fala de como os conceitos de doença, saúde coletiva-pública e cuidado de si foram sendo criados com uma forma normatizadora dos corpos, para estarem adequados às exigências da escravidão do trabalho capitalista, de distinguir entre o “doente e o saudável”, ou o que precisa e não precisa da abusiva intervenção médica. Este, o médico, passou a ser um dos grandes poderes do Estado, o que seleciona, intervem, diagnostica e vigia e determina costumes. E, com isso, o ser humano foi se afastando ou sendo afastado de suas próprias avaliações sobre si mesmo, sobre as decisões sobre seu próprio corpo, sobre uma maneira própria de funcionar e que, de certa forma, colocaria em xeque nossos conceitos atuais sobre “doença” e saúde”. O que é “estar saudável” para poder servir a uma “sociedade doente” e que tem a doença como sua grande condição de existência? Será que nosso corpo, ao “escolher estar doente”, não está tentando nos dar um sinal de que outra doença, muito mais profunda e perigosa está acabando conosco, e está tentando nos retirar deste mar poluído que é nosso sistema de vida como um todo? E, principalmente: quem é que faz o conceito de “saudável” e “doente”? Por exemplo, a opção que uma pessoa faz porque está satisfeita em ser gorda não é um direito de ter um prazer em si mesma, e arcar com todos os seus ônus? Ou ela tem que ser perseguida e proscrita porque, na verdade, ela precisa se adequar a um mundo cujo mercado se volta apenas para o consumo do que é “saudável” ou “belo aos olhos”, como roupas feitas para magros, academias, vitaminas, etc? E o mercado é tão perverso que oferece, ao mesmo tempo, todas as oportunidades para que as pessoas se tornem “doentes” - comidas de péssima qualidade, lavagens cerebrais constantes do marketing, exploração constante da natureza, do trabalho servil, etc.
Será que o conceito de saúde não deveria ser mediatizado com cada um? Será que, dentro do possível, cada um poderia viver com um padrão seu, sem ser culpabilizado por isso? O que seria de um Van Gogh se não fosse um maníaco-depressivo? De uma Clarisse Lispector? Quem seriam, por exemplo, Jimi Hendrix ou Janis Joplin hoje, se tivessem deixado de usar drogas e vivido até hoje? Velhos chatos? Cada “doença” molda seus talentos ou cria suas prisões de culpa e inadequação, e talvez seja isso que o complexos Vênus-Quíron-Saturno e Sol-Urano nos trazem, e devíamos ser mais compreensivos ao tempo que cada um tem neste mundo, em vez de, no fundo, expressar nossa frustração no desdém de classificá-los como “tolos”. Em qual loucura ou perda de normalidade poderíamos alçar voo, correndo riscos, claro, em vez de viver numa superfície morna e morta em vida? Doente, no meu ver, é quem não sabe correr riscos, quem não dança na beira do abismo com os olhos vendados, que adoece por tentar se adequar ao controle de quem sequer sabemos quem está por trás dele.
O outro filósofo se chama Friedrich Nietzsche, que em seu livro “Ecce Homo”, relata sobre os longos períodos em que ficou doente, e que era exatamente nestes momentos em que ele se tornava mais produtivo, pois dois motivos: um, por se recusar a ficar em uma indigna posição de autopiedade; outro, porque o desejo de ficar curado o impelia a produzir mais e, o estado de ficar doente, para ele, representava muito um estado de normalidade do que quando ele estava “saudável”. E ele ainda dizia: o que pode ser saudável para uma pessoa, pode não o ser para outra, e cada um opera dentro de um padrão em que funciona melhor. Ou veríamos um próprio Nietzsche sem sífilis ou depressão? Ou teríamos um Foucault não alcoólatra, heterossexual, pudico, que morreria dentro de uma sala de aula?
Sim, meus queridos: quanto mais próximo se dança na beira do abismo, mas se é capaz de desabrochar para o mundo. Muitos que experimentaram a morte de perto, voltam de lá transformados, a experiência de perda e de esgotamento de tempo são verdadeiros remédios para os que ainda perdem tempo em micharias estéticas, em adequações ideológicas, morais, para receber, em troca, esmolas financeiras, afetivas, pagas em moeda falsa. Vamos, dance com a morte, com as trevas, como se fosse sua última dança. Boa quarta-feira a todos.
¹ FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1978.
² NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.








