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Donkey :3
Procura-se jumento
O desaparecimento silencioso de um dos animais mais importantes da história do Brasil.
Em escala global, o jumento (Equus asinus) não está oficialmente classificado como espécie em extinção, mas enfrenta um processo que muitos pesquisadores chamam de “erosão populacional silenciosa” — quedas rápidas e localizadas, ligadas principalmente ao comércio internacional de peles.
A própria FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) já alertou que vários países registram reduções abruptas de rebanhos sem reposição estruturada, o que pode levar a colapsos regionais mesmo sem configurar extinção global.
No Brasil, o jumento que sempre foi símbolo de resistência sertaneja vem sofrendo grave colapso populacional nas últimas décadas.
Bravo, destemido animal!
Animal forte, "pau para toda obra", resistente, símbolo cultural da bravura e resiliência nordestina. Não são essas as marcas simbólicas do jumento (asno, jegue) aqui no Brasil?
Durante décadas, o jumento foi um dos principais meios de transporte do sertanejo nordestino. Além de tremenda força de tração, o equino foi companheiro fiel dos roceiros e de milhares de famílias nordestinas.
O jumento foi introduzido no Brasil logo no início da colonização portuguesa, no século XVI, com a criação das Capitanias Hereditárias. Eles vieram principalmente da Ilha da Madeira e de Cabo Verde. Foram trazidos para cá para realizarem trabalhos pesados, uma tarefa que os cavalos não realizavam. Durante muito tempo, os cavalos foram considerados animais, digamos, mais sofisticados (talvez frágeis) e nobres demais para exercer uma labuta tão pesada
A resistência ao clima árido e a notável capacidade de sobreviver com pouca água, tornaram o jumento ideal para se aventurar no ambiente que os colonizadores encontrariam no interior.
A Ascensão no Nordeste: Séculos XVIII e XIX
Embora estivesse presente desde o início, o jumento se consolidou como o "principal" animal da cultura nordestina durante a expansão da pecuária e do ciclo do couro. Enquanto outros animais sofriam com as secas, o jumento prosperava e se tornou essencial para o transporte de água (ancoretas), lenha, algodão e alimentos entre as fazendas e as feiras.
Dócil e forte, o animal se tornou acessível para o pequeno produtor, principalmente o sertanejo mais humilde, ganhando o apelido jocoso de "cavalo do pobre".
Desenho de Jean-Baptiste Debret mostrando tropeiros conduzindo longas filas de muares (jumentos)
Consolidação Cultural: Século XX
O jumento se tornou um símbolo cultural definitivo em meados do século XX, muito por conta da música e da literatura de cordel. O marco principal dessa "canonização" foi a música "O Jumento é Nosso Irmão", lançada em 1968 por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Gonzaga defendia o animal como um herói injustiçado que ajudou a construir o Brasil, protestando contra os maus-tratos e o abandono que o animal começou a sofrer com a chegada dos veículos motorizados.
Jumento ameaçado!
Nos dias atuais, o jumento corre séria ameaça.
Estudos e levantamentos agropecuários indicam que o Brasil perdeu cerca de 94% do seu rebanho de jumentos em aproximadamente 25 a 30 anos.
Para se ter uma ideia, em 1999 havia no Brasil cerca de 1,37 milhão de animais, mas em 2025 havia apenas algo em torno de 78 mil. Alguns estudos alertam que, se o ritmo continuar, o desaparecimento da espécie em território nacional poderá ocorrer entre 2030 e 2040.
Que triste!
Se antes o jumento era considerado um patrimônio cultural da bravura nordestina, hoje ele passou a ser considerado obsoleto e até um estorvo em muitos municípios brasileiros.
Alguns pensam assim: "para que ter um jumento, se posso adquirir uma motocicleta pagando seu valor em suaves prestações? Além disso, a moto não precisa ser alimentada em tempos de seca severa e não exige cuidados veterinários, apenas combustível e mecânica básica."
O jumento era o "trator" do sertanejo, mas isso é coisa do passado.
Os microtratores substituíram a tração animal no preparo da terra e as caminhonetes passaram a fazer o transporte de grandes cargas (como o algodão ou a lenha).
Confira esta reportagem especial de Amorim Neto e Valmir Inácio, da TV Gazeta, afiliada da Globo de Alagoas.
Bem, talvez você esteja pensando que o desparecimento do jumento no Brasil, especialmente no sertão nordestino, deve-se apenas ao progresso dos meios de transporte e do agronegócio.
Mas isso é só o começo de algo pior.
O jumento virou matéria prima para mercados internacionais.
Fazenda com criação de jumentos para abate
A pele do jumento é usada para produzir "ejiao", uma gelatina rica em colágeno utilizada na medicina tradicional chinesa. Segundo a tradição local, o ejiao cura quase tudo. Um detalhe importante é que não há nenhuma eficácia comprovada cientificamente.
Será que o jumento está desaparecendo por mais um curanderismo chinês idiota?
Existem espalhadas pelo nordeste brasileiro fazendas de abate de jumentos. O problema é que muitas dessas fazendas, para não dizer todas, exercem uma atividade meramente extrativista, isto é, retiram o animal do meio - sem reproduzi-los - para depois simplesmente abatê-los.
Nessas fazendas não sustentáveis, o único objetivo é o lucro imediato.
Há denúnicias de fazendas "invisíveis", efêmeras espalhadas no interior dos Estados do nordeste que apenas abatem a espécie sem resposição, sem profissionalismo e sem assistência veterinária.
inclusive, há diversas denúncias de maus-tratos.
Na Bahia, há frigoríficos licenciados pelo SIF (Serviço de Inspeção Federal), mas mesmo assim os ambientalistas não cansam de apontar nelas irregularidades no controle de doenças, na rastreabilidade e no abate. que deveria ser mais humanizado ou humanitário, segundo o Ministério da Agricultura.
Criar jumentos em fazendas com dignidade, saúde e alimentação adequada custa muito caro.
É mais fácil e principalmente rentável comprar animais abandonados de atravessadores, engordá-los por um tempo em alguma fazenda e depois simplesmente abatê-los.
Jumento dá dinheiro!
Muitas vezes, os atravessadores compram jumentos de pequenos criadores pela bagatela de R$ 20,00 a R$ 80,00 por cabeça.
Em alguns casos, o pequeno fazendeiro ou proprietário de um sítiozinho chega a doar o animal porque ele “apenas gera gastos”.
Depois de reunidos em lotes, atravessadores revendem os animais aos abatedouros por cerca de R$ 100,00.
Mas depois do abate, a pele pode ser vendida por valores de até US$ 3000 no mercado internacional do ejiao.
Ejião, gelatina milenar chinesa rica em colágeno
O que poderia ser feito para salvar o Jumento no Brasil?
Salvar o jumento no Brasil não é impossível se o atual modelo extrativista for substituído por uma asinocultura sustentável, profissional e estruturada.
Os nossos representantes poderiam ajudar se em vez de legislarem em causa própria (muitas são ruralistas e produtores), atuassem na preservação de uma espécie tão importante para a cultura brasileira.
Em um primeiro momento deveria ser proibido, pelo menos por um tempo, o abate desses animais para não esgotar a população da espécie.
Depois, a criação e o manejo do jumento deveriam ser normatizados e regulamentados por leis, exigindo algumas regras de exploração comercial da espécie.
A legislação deveria exigir uma asinocultura sustentada por medidas profissionais, como a seleção de matrizes e reprodutores; manejo nutricional adequado ao semiárido; programas de melhoramento genético; assistência técnica rural específica.
Os investidores deveriam ter um pouco de paciência, haja vista que o jumento tem reprodução lenta e os lucros só seriam obtidos a longo prazo.
Em certos países europeus, como Itália, França e Espanha, o jumento é mantido dentro de uma lógica zootécnica de ciclo longo, semelhante à bovinocultura leiteira de pequena escala. O valor do animal está na produção ao longo da vida e não no abate.
Nesses países, o leite da jumenta é explorado comercialmente na produção de cosméticos, por exemplo. O jumento é usado até mesmo no turismo e em atividades terapêuticas (asinoterapia).
E se Ele estivesse entre nós?
Aqui no planetaBio nos orientamos apenas pela ciência. Mas também respeitamos àqueles que considerem outras cosmovisões, sem cair em fundamentalismos.
Segundo os cristãos, há mais de dois mil anos, um jumento conduziu, silenciosamente, uma das cenas mais emblemáticas da história: a entrada de Cristo em Jerusalém. Não era um animal de ostentação, mas de serviço; não representava poder, e sim mansidão.
Hoje, enquanto sua população diminui de forma tão acelerada, talvez caiba a nós uma pergunta incômoda: se aquele mesmo gesto tivesse de acontecer agora, ainda haveria jumentos suficientes pelo caminho?
Cuidar dessa espécie não é apenas uma questão de biodiversidade ou de produção rural. É também preservar símbolos que ajudaram a construir nossa própria cultura — e lembrar que até os mais humildes companheiros da humanidade têm lugar na nossa responsabilidade ética.
Leia também:
1- O jumento virou ouro no Brasil (acesso em 13/02/2026)
2-Jumento brasileiro pode entrar em extinção até 2030 (13/02/2026)
Donkey // Jumento ❣️
EUDES DOMINGOS inFoko PalkoMovel Show JM - Fortal-CE-BR
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A força do jumento
Animal morde homem no município de Manhuaçu, na Zona da Mata de Minas Gerais. Vítima teve o braço dilacerado
Um homem de 55 anos ficou gravemente ferido e precisou ser hospitalizado ao ser mordido por um jumento na tarde dessa quinta-feira (29/6) na cidade de Manhuaçu, na Zona da Mata de Minas, informa o jornal Estado de Minas. A vítima teve o braço dilacerado após o ataque do animal. Ainda segundo o jornal mineiro, o homem estava sendo levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade, mas o…
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