As redes sociais: um lugar perigoso para a saúde mental dos jovens.
E letal, as vezes.
Você já parou para pensar em um paradoxo curioso da sociedade moderna?
Nunca estivemos tão conectados. Carregamos no bolso dispositivos capazes de nos colocar em contato instantâneo com centenas ou até milhares de pessoas. Temos redes sociais, aplicativos de mensagens, chamadas de vídeo e uma infinidade de meios de comunicação. Mesmo assim, os índices de ansiedade, depressão e sensação de solidão entre os jovens continuam crescendo.
Como explicar essa aparente contradição?
Para tentar responder a essa pergunta, vale a pena recorrer às ideias de três pensadores: Byung-Chul Han, Émile Durkheim e Robin Dunbar.
Comecemos por Byung-Chul Han. Segundo o filósofo sul-coreano-alemão de 67 anos, em um passado não tão distante - sobretudo nas relações sociais da segunda metade do século XX - predominava uma lógica de controle baseada em regras explícitas do tipo "você deve obedecer e seguir normas". A pressão vinha principalmente de instituições externas, como a escola, o trabalho e o Estado.
Mas hoje a mensagem dominante é diferente: você pode ser o que quiser!
Você pode empreender, se destacar, alcançar qualquer objetivo.
Libertador, não é? Só que não!
Na verdade, temos um problema aqui. Se o sucesso depende apenas de você, o fracasso também parece ser exclusivamente sua responsabilidade.
Na concepção de Han, vivemos em uma sociedade que valoriza intensamente o desempenho. A mensagem transmitida o tempo todo é simples: você pode ser melhor, mais produtivo, mais bonito, mais popular, mais bem-sucedido. O problema surge quando essa liberdade se transforma em cobrança permanente.
Muitos jovens passam a acreditar que precisam estar sempre produzindo, estudando, treinando, empreendendo ou exibindo uma vida interessante nas redes sociais.
Descansar parece perda de tempo.
Falhar parece inadmissível.
E, pouco a pouco, a comparação constante com os outros pode gerar sentimentos de insuficiência e esgotamento emocional.
Sob pressão, nosso copo começa a apitar!
As fibras nervosas adrenérgicas são estimuladas a liberar mais neurotransmissor noradrenalina, o mesmo ocorre com a medula das suprarrenais, que passam a liberar mais hormônios adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea. Os batimentos cardíacos e a pressão arterial se elevam!
O córtex das suprarrenais, sob pressão, também passa a liberar mais cortisol no sangue, hormônio que eleva a glicemia por vias metabólicas da gliconeogênese, o que pode colaborar para a intensificação do estado de "pilha" ao qual o corpo humano é submetido.
Tudo isso está relacionado ao aumento de problemas como exaustão emocional, ansiedade, depressão, síndrome de Burnout e sensação crônica de insuficiência.
A pessoa sente que nunca é produtiva, bonita, inteligente ou bem-sucedida o bastante.
Mas existe uma segunda questão igualmente importante.
O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) defendia que os seres humanos precisam sentir que pertencem a grupos sociais. Família, amigos, escola, comunidade e outras formas de convivência ajudam a construir nossa identidade e oferecem suporte emocional nos momentos difíceis. Para Durkheim, quanto mais integradas as pessoas estão à sociedade, maior tende a ser sua sensação de pertencimento e significado.
A integração social defendida por Durkheim pode ocorrer presencialmente na família, na escola, no trabalho, na comunidade, nas amizades verdadeiras e até mesmo na religião.
E por sermos primatas e pelos primatas serem animais sociais, o mundo digital trouxe uma situação curiosa. Muitas vezes, um jovem pode conversar com centenas de pessoas online e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinho. Isso acontece porque quantidade não é necessariamente sinônimo de qualidade.
As vezes não tem como colocar nosso DNA primata debaixo do tapete, afinal foi assim que ele foi moldado, ou melhor, selecionado durante milhões de anos de evolução. Nossas relações sociais estão intimamente ligadas a sensações que só poderemos efetivamente obter presencialmente, interagindo de carne e osso com os outros, construindo vínculos verdadeiros.
Mas é aqui que entra agora o pensamento de Robin Dunbar.
Epa, já escrevemos um artigo sobre as ideias desse antropólogo britânico de 78 anos há alguns posts atrás (https://planetabio.tumblr.com/post/740492034230697984/at%C3%A9-150-rela%C3%A7%C3%B5es )
Dunbar propôs que o cérebro humano possui limites naturais para manter relacionamentos sociais significativos. Podemos conhecer milhares de pessoas, mas apenas uma parcela relativamente pequena dessas relações - algo em torno de 150 -consegue alcançar um nível profundo de confiança, apoio e intimidade.
Em outras palavras, nossos cérebros evoluíram para construir vínculos genuínos em grupos relativamente limitados. As redes sociais ampliaram enormemente nossa capacidade de contato, mas não ampliaram na mesma proporção nossa capacidade emocional de cultivar relações profundas.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes questões da saúde mental dos jovens na atualidade.
Vivemos cercados por conexões digitais, mas nem sempre por vínculos humanos significativos. Somos incentivados a mostrar resultados, mas raramente aprendemos a lidar com nossas fragilidades. Recebemos curtidas, comentários e visualizações, mas isso nem sempre substitui uma conversa sincera com um amigo, um familiar ou alguém disposto a nos ouvir.
Ao observarmos as ideias de Han, Durkheim e Dunbar em conjunto, percebemos que s saúde mental dos jovens depende menos de acumular desempenho e conexões superficiais e mais de construir pertencimento, significado e relações humanas genuínas.
Han nos alerta para o excesso de cobrança, Durkheim nos lembra da importância do pertencimento e Dunbar nos recorda que nossa capacidade de manter vínculos profundos é limitada.
Talvez uma das grandes tarefas da juventude contemporânea seja justamente encontrar um equilíbrio entre um mundo digital gigantesco e necessidades humanas que continuam sendo, em muitos aspectos, as mesmas de milhares de anos atrás: ser aceito, ser ouvido, sentir-se útil e pertencer a um grupo.
Talvez a grande pergunta não seja quantas pessoas nos seguem nas redes sociais, mas quantas estariam ao nosso lado quando realmente precisássemos delas.
E talvez a resposta para uma vida mental mais saudável passe menos por acumular conexões e mais por fortalecer vínculos verdadeiros.
Leia também:
1-https://planetabio.tumblr.com/post/740492034230697984/at%C3%A9-150-rela%C3%A7%C3%B5es (acesso em 05/06/2026)
2-https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/05/07/filosofo-byung-chul-han-vence-premio-princesa-das-asturias-de-humanidades.ghtml (acesso em 05/06/2026)
3-https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2018/11/19/o-que-ganhamos-e-o-que-perdemos-com-a-era-digital.ghtml (acesso em 05/06/2026)
O desaparecimento silencioso de um dos animais mais importantes da história do Brasil.
Em escala global, o jumento (Equus asinus) não está oficialmente classificado como espécie em extinção, mas enfrenta um processo que muitos pesquisadores chamam de “erosão populacional silenciosa” — quedas rápidas e localizadas, ligadas principalmente ao comércio internacional de peles.
A própria FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) já alertou que vários países registram reduções abruptas de rebanhos sem reposição estruturada, o que pode levar a colapsos regionais mesmo sem configurar extinção global.
No Brasil, o jumento que sempre foi símbolo de resistência sertaneja vem sofrendo grave colapso populacional nas últimas décadas.
Bravo, destemido animal!
Animal forte, "pau para toda obra", resistente, símbolo cultural da bravura e resiliência nordestina. Não são essas as marcas simbólicas do jumento (asno, jegue) aqui no Brasil?
Durante décadas, o jumento foi um dos principais meios de transporte do sertanejo nordestino. Além de tremenda força de tração, o equino foi companheiro fiel dos roceiros e de milhares de famílias nordestinas.
O jumento foi introduzido no Brasil logo no início da colonização portuguesa, no século XVI, com a criação das Capitanias Hereditárias. Eles vieram principalmente da Ilha da Madeira e de Cabo Verde. Foram trazidos para cá para realizarem trabalhos pesados, uma tarefa que os cavalos não realizavam. Durante muito tempo, os cavalos foram considerados animais, digamos, mais sofisticados (talvez frágeis) e nobres demais para exercer uma labuta tão pesada
A resistência ao clima árido e a notável capacidade de sobreviver com pouca água, tornaram o jumento ideal para se aventurar no ambiente que os colonizadores encontrariam no interior.
A Ascensão no Nordeste: Séculos XVIII e XIX
Embora estivesse presente desde o início, o jumento se consolidou como o "principal" animal da cultura nordestina durante a expansão da pecuária e do ciclo do couro. Enquanto outros animais sofriam com as secas, o jumento prosperava e se tornou essencial para o transporte de água (ancoretas), lenha, algodão e alimentos entre as fazendas e as feiras.
Dócil e forte, o animal se tornou acessível para o pequeno produtor, principalmente o sertanejo mais humilde, ganhando o apelido jocoso de "cavalo do pobre".
Desenho de Jean-Baptiste Debret mostrando tropeiros conduzindo longas filas de muares (jumentos)
Consolidação Cultural: Século XX
O jumento se tornou um símbolo cultural definitivo em meados do século XX, muito por conta da música e da literatura de cordel. O marco principal dessa "canonização" foi a música "O Jumento é Nosso Irmão", lançada em 1968 por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Gonzaga defendia o animal como um herói injustiçado que ajudou a construir o Brasil, protestando contra os maus-tratos e o abandono que o animal começou a sofrer com a chegada dos veículos motorizados.
Jumento ameaçado!
Nos dias atuais, o jumento corre séria ameaça.
Estudos e levantamentos agropecuários indicam que o Brasil perdeu cerca de 94% do seu rebanho de jumentos em aproximadamente 25 a 30 anos.
Para se ter uma ideia, em 1999 havia no Brasil cerca de 1,37 milhão de animais, mas em 2025 havia apenas algo em torno de 78 mil. Alguns estudos alertam que, se o ritmo continuar, o desaparecimento da espécie em território nacional poderá ocorrer entre 2030 e 2040.
Que triste!
Se antes o jumento era considerado um patrimônio cultural da bravura nordestina, hoje ele passou a ser considerado obsoleto e até um estorvo em muitos municípios brasileiros.
Alguns pensam assim: "para que ter um jumento, se posso adquirir uma motocicleta pagando seu valor em suaves prestações? Além disso, a moto não precisa ser alimentada em tempos de seca severa e não exige cuidados veterinários, apenas combustível e mecânica básica."
O jumento era o "trator" do sertanejo, mas isso é coisa do passado.
Os microtratores substituíram a tração animal no preparo da terra e as caminhonetes passaram a fazer o transporte de grandes cargas (como o algodão ou a lenha).
Confira esta reportagem especial de Amorim Neto e Valmir Inácio, da TV Gazeta, afiliada da Globo de Alagoas.
Bem, talvez você esteja pensando que o desparecimento do jumento no Brasil, especialmente no sertão nordestino, deve-se apenas ao progresso dos meios de transporte e do agronegócio.
Mas isso é só o começo de algo pior.
O jumento virou matéria prima para mercados internacionais.
Fazenda com criação de jumentos para abate
A pele do jumento é usada para produzir "ejiao", uma gelatina rica em colágeno utilizada na medicina tradicional chinesa. Segundo a tradição local, o ejiao cura quase tudo. Um detalhe importante é que não há nenhuma eficácia comprovada cientificamente.
Será que o jumento está desaparecendo por mais um curanderismo chinês idiota?
Existem espalhadas pelo nordeste brasileiro fazendas de abate de jumentos. O problema é que muitas dessas fazendas, para não dizer todas, exercem uma atividade meramente extrativista, isto é, retiram o animal do meio - sem reproduzi-los - para depois simplesmente abatê-los.
Nessas fazendas não sustentáveis, o único objetivo é o lucro imediato.
Há denúnicias de fazendas "invisíveis", efêmeras espalhadas no interior dos Estados do nordeste que apenas abatem a espécie sem resposição, sem profissionalismo e sem assistência veterinária.
inclusive, há diversas denúncias de maus-tratos.
Na Bahia, há frigoríficos licenciados pelo SIF (Serviço de Inspeção Federal), mas mesmo assim os ambientalistas não cansam de apontar nelas irregularidades no controle de doenças, na rastreabilidade e no abate. que deveria ser mais humanizado ou humanitário, segundo o Ministério da Agricultura.
Criar jumentos em fazendas com dignidade, saúde e alimentação adequada custa muito caro.
É mais fácil e principalmente rentável comprar animais abandonados de atravessadores, engordá-los por um tempo em alguma fazenda e depois simplesmente abatê-los.
Jumento dá dinheiro!
Muitas vezes, os atravessadores compram jumentos de pequenos criadores pela bagatela de R$ 20,00 a R$ 80,00 por cabeça.
Em alguns casos, o pequeno fazendeiro ou proprietário de um sítiozinho chega a doar o animal porque ele “apenas gera gastos”.
Depois de reunidos em lotes, atravessadores revendem os animais aos abatedouros por cerca de R$ 100,00.
Mas depois do abate, a pele pode ser vendida por valores de até US$ 3000 no mercado internacional do ejiao.
Ejião, gelatina milenar chinesa rica em colágeno
O que poderia ser feito para salvar o Jumento no Brasil?
Salvar o jumento no Brasil não é impossível se o atual modelo extrativista for substituído por uma asinocultura sustentável, profissional e estruturada.
Os nossos representantes poderiam ajudar se em vez de legislarem em causa própria (muitas são ruralistas e produtores), atuassem na preservação de uma espécie tão importante para a cultura brasileira.
Em um primeiro momento deveria ser proibido, pelo menos por um tempo, o abate desses animais para não esgotar a população da espécie.
Depois, a criação e o manejo do jumento deveriam ser normatizados e regulamentados por leis, exigindo algumas regras de exploração comercial da espécie.
A legislação deveria exigir uma asinocultura sustentada por medidas profissionais, como a seleção de matrizes e reprodutores; manejo nutricional adequado ao semiárido; programas de melhoramento genético; assistência técnica rural específica.
Os investidores deveriam ter um pouco de paciência, haja vista que o jumento tem reprodução lenta e os lucros só seriam obtidos a longo prazo.
Em certos países europeus, como Itália, França e Espanha, o jumento é mantido dentro de uma lógica zootécnica de ciclo longo, semelhante à bovinocultura leiteira de pequena escala. O valor do animal está na produção ao longo da vida e não no abate.
Nesses países, o leite da jumenta é explorado comercialmente na produção de cosméticos, por exemplo. O jumento é usado até mesmo no turismo e em atividades terapêuticas (asinoterapia).
E se Ele estivesse entre nós?
Aqui no planetaBio nos orientamos apenas pela ciência. Mas também respeitamos àqueles que considerem outras cosmovisões, sem cair em fundamentalismos.
Segundo os cristãos, há mais de dois mil anos, um jumento conduziu, silenciosamente, uma das cenas mais emblemáticas da história: a entrada de Cristo em Jerusalém. Não era um animal de ostentação, mas de serviço; não representava poder, e sim mansidão.
Hoje, enquanto sua população diminui de forma tão acelerada, talvez caiba a nós uma pergunta incômoda: se aquele mesmo gesto tivesse de acontecer agora, ainda haveria jumentos suficientes pelo caminho?
Cuidar dessa espécie não é apenas uma questão de biodiversidade ou de produção rural. É também preservar símbolos que ajudaram a construir nossa própria cultura — e lembrar que até os mais humildes companheiros da humanidade têm lugar na nossa responsabilidade ética.
Leia também:
1- O jumento virou ouro no Brasil (acesso em 13/02/2026)
2-Jumento brasileiro pode entrar em extinção até 2030 (13/02/2026)
Há evidências científicas que Marte já apresentou condições favoráveis à vida
De onde veio a ideia de que há vida em Marte?
Nossa Terra é o terceiro planeta do sistema solar e Marte é o quarto. Ele é nosso vizinho cósmico, quase irmãos!
Dá para ver Marte a olho nu, a leste, no começo do anoitecer (um pontinho brilhante movendo-se lentamente no céu) ou um pouco antes de amanhecer, também a leste (ponto avermelhado perto do horizonte). Com um pequeno telescópio (refrator de 70 mm) - esses que vendem nas lojas de brinquedos do shopping - apontando para o lugar certo, é possível visualizar Marte como um pequeno disco avermelhado.
Mas foi no século XIX que as pessoas começaram a olhar Marte com "outros olhos". Na verdade, no final do século XIX, os astrônomos já utilizavam grandes telescópios com grande poder de resolução.
E munidos de telescópios com resolução razoável, astrônomos puderam observar as calotas polares marcianas, além das variações sazonais na coloração da superfície de Marte. O italiano Giovanni Schiaparelli ,em 1877, observou estruturas lineares chamadas canali (canais naturais) na superfície do planeta.
Quando os detalhes de Marte começaram a ser desvendados, na mesma medida começou a florescer o imaginário popular de que Marte é habitado por formas de vida.
Ainda no final do século XIX, o estadunidense Percival Lowell interpretou as estruturas lineares observadas na superfície de Marte por Schiaparelli, como sendo canais artificiais de irrigação e vegetação construídos por uma moderna civilização marciana.
Desenho de 1905 dos canais de Lowell na superfície de Marte
Na verdade, hoje se sabe - especialmente após as imagens mostradas pelas diversas sondas que chegaram a Marte no século XX - que tais estruturas lineares visualizadas por esses astrônomos não são de fato estruturas físicas e sim uma espécie de "ilusão de ótica", uma imagem construída por cérebros em busca de algum padrão frente à limitada nitidez das imagens da superfície de Marte que eram captadas pelos telescópios da época. Astrônomos mais modernos afirmam que o alinhamento casual de crateras e talvez de outras características naturais da superfície marciana tenha "enganado" os olhos e o cérebro de Lowell.
Percival Lowell utilizando um telescópio de alta resolução no Lowell Observatory em 1914
Mas os "canais de Lowell" inspiraram vários artistas do século XX, sobretudo no cinema, na literatura e nas artes visuais. A coleção Barsoom com 11 volumes, escrita pelo estadunidense Edgar Rice Burroughs (mesmo autor de Tarzan dos Macacos) entre 1911 e 1914, relata as aventuras do personagem John Carter em uma sociedade decadente de Marte (Barsoom, segundo os marcianos). O romance traz príncipes e princesas, marcianos vermelhos e verdes, espadas, lutas etc. Uma espécie de Star Wars da época.
O fato é que essa obra de ficção científica fez enorme sucesso na época e ajudou a consolidar a imagem de Marte como um mundo habitado no imaginário popular.
A Princess of Mars -primeiro livro da série Barsoom
Outra obra famosa publicada no final do século XIX - influenciada pelos "canais de Lowell" - A Guerra dos Mundos - autoria do britânico H.G. Wells, traz com muito entusiasmo e emoção um planeta Terra invadido por marcianos inteligentes munidos de alta tecnologia, como os famosos tripods, além de armas de raio carbonizador. Ah, isso ai você já viu no cinema, não é?
Ilustração do Tripod da edição belga do livro (1906)- a autoria do desenho foi do brasileiro Henrique Alvim Corrêa
Bem, dentre as várias versões de "A Guerra dos Mundos" nas artes talvez aquela que causou grande impacto na sociedade ocorreu em meio a uma transmissão de programa de rádio. Foi um episódio histórico genial!
Em outubro de 1938, o cineasta americano Orson Welles narrou uma versão dramática para rádio do livro A Guerra dos Mundos. Welles foi tão eloquente e convincente em sua narração sem interrupções sobre a invasão marciana que fez com que muitos ouvintes realmente acreditassem em "marcianos tomando conta do pedaço", muito provavelmente devido a esses ouvintes terem sintonizado a rádio depois das mensagens iniciais do programa, que se tratava da narração de um livro.
Milhares de pessoas telefonaram para a polícia, jornais e emissoras buscando confirmação ou ajuda e em algumas localidades, as linhas telefônicas ficaram congestionadas, os relatos de medo se espalharam rapidamente.
Ouça a Transmissão de Wells, sobre a invasão marciana
Com o avanço da tecnologia no século XX, inclusive com a produção de telescópios mais potentes contidos em observatórios espaciais espalhados pelo globo, a ideia de canais marcianos entrou em descrédito.
A partir do final da década de 1950 e, sobretudo, nos anos 1960, com o início da Era Espacial, ficou mais forte a ideia de envio de sondas ou naves espaciais para estudar os planetas do sistema solar. Esse interesse não surgiu apenas por curiosidade abstrata, mas por uma convergência de fatores científicos, tecnológicos e geopolíticos.
Embora a "corrida espacial" entre as duas superpotências que se firmaram após a Segunda Guerra Mundial (claro, estamos falando de URSS e EUA) tenha sido a força motriz da exploração de Marte, o interesse científico em relação a origem do sistema solar ou a origem da própria Terra, além da busca pela vida extraterrestre, mesmo que microbiana, cresceu vigorosamente no meio científico.
Perguntas fundamentais precisavam ser respondidas como: há água líquida fora da Terra? Há oxigênio em outras atmosferas planetárias? Existe vida microbiana em outros corpos do Sistema Solar?
Até nos dias de hoje essas perguntas não foram totalmente respondidas. Já pensou o impacto na sociedade se um dia a ciência encontrar vida fora da Terra, mesmo que seja uma vida simples, prosaica, como a de um ser similar a uma bactéria?
Isso com certeza seria incrível, talvez uma das maiores notícias da história e teria implicações em todos os setores de nossa vida, inclusive na nossa forma de enxergar a nós mesmos.
Então, vamos para Marte!
A antiga União Soviética lançou várias sondas rumo a Marte desde os anos 1960, muitas delas com falhas de lançamento ou comunicação. Embora algumas tenham alcançado a proximidade de Marte e até realizado um pouso inicial (como o Mars 3 em 1971), nenhuma delas retornou evidências significativas sobre água ou possíveis ingredientes para a vida — feitos que só foram obtidos posteriormente por missões norte americanas e europeias.
A tabela a seguir apresenta de forma sucinta as missões espaciais norte americanas até Marte, além das recentes missões chinesas e indianas.
Repare que as missões espaciais até Marte utilizaram diferentes tipos de equipamentos (flyby, orbitador, lander, rover etc)
Flyby (ou sobrevoo) é uma missão espacial em que a sonda não entra em órbita nem pousa no planeta. Ela passa próxima ao corpo celeste, coleta dados por um curto período e segue viagem, como fez a Mariner 4 que registrou imagens históricas de Marte em 1965.
As crateras da superfície de Marte - foto obtida pela Mariner 4 (1965)
Um orbitador é uma sonda espacial que entra em órbita ao redor de um planeta e passa a girar continuamente em torno dele, coletando dados por meses ou anos, como a Mars Odyssey que chegou a Marte em 2001 e que continua orbitando por lá.
Foto do vulcão marciano Monte Olímpo, o maior do sistema solar (foto tirada pela Mars Odyssey)
Lander é uma sonda que pousa em um planeta, asteroide ou lua, mas permanece fixa no local onde aterrissa. A lander Phoenix pousou em Marte em 2008 e ficou em operação durante 5 meses rastreando a presença de água no estado sólido na superfície do planeta e ela encontrou!
Mas o que há de mais moderno em termos de exploração da superfície marciana são os rovers.
Rover é um veículo robótico móvel que se desloca pela superfície, explorando diferentes locais, como se fosse um mine jeep. Possui rodas (ou esteiras); percorre metros (ou até quilômetros) ao longo da missão, analisa rochas, solo e atmosfera em vários pontos diferentes.
Exemplos famosos de rovers são: Sojourner (1997), Spirit e Opportunity (2004), Curiosity (2012) e Perseverance (2021). Esses dois últimos rovers ainda estão em operação.
Localização dos rovers Curiosity e Perseverance em Marte
A Curiosity vem investigando a composição de rochas e a história de água em um local conhecido como Gale Crater, enquanto que a Perseverance percorre o solo marciano, de um antigo lago, em um lucar chamado Jezero Crater. Ela busca de biossinais de vida antiga, coletando amostras de rocha e solo que são armazenados em tubos para um futuro retorno à Terra.
Em setembro de 2021, o rover Perseverance tirou uma selfie, uma composição de dezenas de imagens, sobre uma rocha chamada Rochette. JPL-Caltech/NASA, MSSS
Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas toda essa tecnologia, toda a energia gasta para essas empreitadas, todo o financiamento envolcido, valeu a pena?
E aí? A vida foi encontrada em Marte?
O que foi encontrado em Marte?
Não! Não foram encontrados marcianos de nenhum tipo (ainda) em Marte?
Nem mesmo formas de vida simples como micro-organismos.
Nem mesmo água líquida estável na superfície (até o momento),
Mas não perca sua esperança científica, porque os elementos necessários para o desenvolvimento de formas simples de vida em Marte foram encontrados.
Em 1965, a concepção daqueles canais de Lowell foi totalmente descartada frente as fotos precisas da Mariner 4, que revelaram um planeta craterado e seco.
Mas os achados da Mariner 9 (1971) foram inquietantes, essa missão trouxe evidências robustas de que rios e vales fluviais foram esculpidos na superfície do planeta por água líquida (ou outro líquido). Foi a primeira prova inequívoca de que Marte não foi sempre seco.
As landers Viking 1 e 2 (1976) foram as primeiras a realizar experimentos biológicos diretos no solo marciano para detecção de vida microbiana ou vestígios dessa vida, mas seus experimentos trouxeram resultados inconclusivos, muito embora tenham sido registrados a presença dos elementos essenciais à vida como Carbono, Hidrogênio e Oxigênio.
O orbitador Mars Odyssey (2001) detectou gelo de água logo abaixo do solo marciano, sugerindo a existência água no planeta, embora sólida.
NASA's Mars Odyssey detected water ice in the northern hemisphere. During the winter months, the icy soil is covered by a thick layer of car
Os rovers Spirit e Opportunity (2004) mostraram marcas geológicas relevantes em Marte, como a presença do minério hematita, além de sulfatos e argilas hidratadas, cujas existências só seriam possíveis em Marte se no passado houvesse água líquida.
Em 2008, a lander Phoenix encontrou gelo de água diretamente no solo marciano, além de íons percloratos (ClO₄⁻) que em tese teriam sido formados (apenas) na presença de água líquida no planeta (ainda não encontrada).
A presença de perclorato no solo marciano gera uma ambiguidade no estudo de supostas formas antigas de vida em Marte, simplesmente porque o perclorato é tóxico para a maioria das formas de vida. Em tese, o achado do perclorato seria análogo a "colocar água no chopp" daqueles que acreditam na existência passada ou atual em Marte.
Mas muita calma nessa hora, porque, por outro lado, foram detectados aqui mesmo - em certos ambientes salinos de nosso planeta - micro-organismos extremófilos capazes de utilizar o perclorato como aceptores de elétrons no metabolismo energético. Isso abre a possiblidade teórica de que formas de vida microbiana marciana, se existirem ou tiverem existido, poderiam ter explorado metabolismo semelhante.
Você lembra quais são os elementos químicos essenciais para a formação de vida semelhante a da Terra? Se você pensou no famoso CHONPS, você acertou!
Ocorre que o rover Curiosity (2012) achou evidências de antigos lagos de água doce e detectou moléculas orgânicas complexas, além dos elementos químicos essenciais para a vida: C, H, O, N, P, S. Essa foi a primeira missão a provar que Marte foi habitável e não apenas “molhado”.
O outro rover em operação no solo marciano, a Perseverance (2021), vem coletando amostras do solo marciano em tubos de ensaio. Essa coleta é seletiva direcionada a rochas sedimentares ricas em carbono orgânico. A princípio, a ideia é de transportar essas amostras de volta à Terra para análise mais detalhada. Esse retorno dependerá de uma missão futura a Marte (Mars Sample Return), que ainda está sendo planejada. Dependendo da arquitetura final e da aprovação das agências espaciais envolvidas, as amostras das rochas marcianas poderão chegar à Terra na década de 2030 ou mesmo mais tarde, caso o cronograma seja afetado por custos e complexidade técnica.
O "resumo da ópera" é que diversas missões a Marte demonstraram que o planeta já abrigou água líquida em abundância, lagos, rios e possivelmente oceanos, além de possuir elementos químicos essenciais à vida, como carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre.
Embora nenhuma missão tenha comprovado a existência de vida marciana, os dados indicam que Marte foi habitável por longos períodos de sua história.
Bem além dos marcianos verdinhos!
Represetação artística de John Carter da obra Barsoom
Do ponto de vista científico, valeu e vale muito estudar Marte, assim como outros planetas. Começando pelo aspecto do desenvolvimento tecnológico.
A busca por vida em Marte impulsionou avanços em robótica, química analítica, geologia, engenharia, telecomunicações; gerou tecnologias usadas hoje em medicina, sensores, materiais e IA; treinou a humanidade para exploração interplanetária segura.
Terra e Marte, o terceiro e o quarto planetas do sistema solar são irmãos e muito provavelmente tiveram origens semelhantes. Porém, Marte congelou precocemente muito provavelmente devido à perda de seu campo magnético, assim como de sua atmosfera espessa além de grande parte da água.
Marte é um laboratório astronômico, um registro geológico quase intacto de como um planeta rochoso pode evoluir — ou fracassar.
Estudar o que tem ou teve em Marte é estudar nossas próprias origens, tanto em termos geológicos como em termos biológicos.
Até agora, não encontramos vida em Marte, mas encontramos evidências robustas de ambientes habitáveis no passado: antigos lagos e deltas (Jezero, Gale); minerais que só se formam na presença de água líquida; CHONPS etc (por enquanto) ...
Todas essas evidências mostram que vida poderia ter surgido ali, mesmo que não tenha sobrevivido. Talvez a vida seja mais rara e frágil do que pensamos para uma longa existência na escala do tempo cósmico.
É importante lembrar que Marte não é o único alvo da ciência na busca por outras formas de vida no universo. Em termos astronômicos, Terra e Marte são apenas dois pequenos planetas que orbitam ao redor de uma pequena estrela, em um sistema solar composto por outros mais seis planetas, sistema esse que representa apenas um entre bilhões de sistemas planetários existentes na Via Láctea, que não passa de apenas uma entre bilhões de galáxias que compõem o universo observável.
E ai, percebeu como a Terra não ocupa uma posição privilegiada no universo? Quem sabe um dia a humanidade acorde para aquilo que deveria ser nosso maior legado: preservá-la!
Afinal ela é nossa única casa imersa numa imensidão cósmica, não é?
"Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço"
(Carl Sagan)
Leia Também:
1-Estudo reavalia indícios de sonda e diz que pode haver vida em Marte (15/01/2026)
2- Odisseia em Marte: Observações sobre gelo de água/verão (15/01/2026)
3-O que a sonda Perseverance descobriu em dois anos em Marte? (15/01/2026)
4-O reservatório de água líquida encontrado nas profundezas de rochas de Marte (15/01/2021)
A Península Antártida está ficando cada vez mais verde.
A Antártida continua branca, mas um pedacinho começou a ficar um pouco mais verde que o normal.
Ocorre que a Península Antártica, mais ao norte, quase “tocando” a América do Sul, vem experimentando a aceleração de um fenômeno denominado “Antarctic greening” ou “esverdeamento”.
Imagem de satélite da Ilha Robert, na Península Antártida, mostrando a vegetação. Tom Roland
Dados de sensoriamento remoto mostram que a área coberta por vegetação na Península Antártica aumentou de aproximadamente 0,86 km² em 1986 para cerca de 12 km² em 2021, um aumento de mais de dez vezes, refletindo mudanças ecológicas decorrentes do aquecimento e do recuo do gelo. Dados mais recentes sugerem aumento maior ainda.
A Península Antártida nas proximidades de Ushuaia (1000 km)
Essa mudança no cenário antártico poderá trazer no futuro uma série de problemas ecológicos que poderão causar mudanças substanciais na biodiversidade local.
Embora o esverdeamento da Antártida possa causar algum aumento inicial da riqueza de espécies, há risco também de ocorrer substituição de organismos altamente especializados e muito exigentes por espécies invasoras, mais versáteis e mais competitivas.
O Ciclo Climático Natural Antártico
Ora congela, ora descongela! E assim esse ciclo vem acontecendo na Antártida já há muito tempo. Na verdade, a Antártida passou a apresentar um clima polar frio com gelo permanente a partir do final do Eoceno e início do Oligoceno, há cerca de 34 milhões de anos.
Nas grandes latitudes sul onde se encontra a Antártida, o eixo de inclinação da Terra gera extremos sazonais muito marcantes: o verão austral (dezembro a fevereiro) e o inverno austral (junho a agosto).
No verão austral, o polo sul fica inclinado em direção ao Sol de forma a receber luz solar de forma contínua (sol da meia-noite). Nessa estação, a temperatura aumenta levemente (na costa em torno de 0ºC e no interior do continente em torno de - 30ºC); ocorre então o degelo continental (parte superficial do gelo que cobre o chão derrete e vai para o mar) e forte degelo do gelo marinho próximo à costa, que recua. Aliás, o degelo marinho forma rachaduras nos blocos de gelo oceânico com e calving formação de icebergs, fenômeno que também vem sendo intensificado pelo aquecimento global.
Assim, no verão austral, as áreas costeiras praticamente ficam livres de gelo, facilitando um “esverdeamento”, isto é, um processo de sucessão ecológica com o estabelecimento inicial de espécies pioneiras formadas por musgos, cianobactérias, líquens e algas terrestres. As rochas impregnadas com esses autótrofos ficam “aveludadas” e esverdeadas. A paisagem muda, com o aparecimento de invertebrados (nemátodos, colêmbolos, ácaros, tardígrados etc), pinguins, lobos marinhos, diversas aves migratórias etc. Gradativamente, forma-se um solo rico em sais minerais (fósforo e nitrogênio) proveniente da decomposição da matéria orgânica e dos excrementos. Mas isso tudo muda quando chega o inverno austral!
No inverno austral, o Polo Sul fica inclinado para longe do Sol, os dias ficam escuros (Longa noite polar) e muito frios (na costa em torno de -30º e no interior do continente em torno de -60ºC). Ocorre expansão do gelo marinho e congelamento quase total das águas continentais.
Nessa época, alguns animais migram ou hibernam, os seres mais simples morrem ou entram em estado de latência, subsistindo por meio de um metabolismo muito baixo. Aquela tonalidade “esverdeada” formada no verão praticamente desaparece.
Note que embora visualmente a paisagem se mostre verde apenas no verão austral, o esverdeamento é um processo cumulativo e interanual, não um evento pontual. Cada verão deixa um “saldo positivo” de biomassa e o substrato vai se tornando gradativamente mais favorável às próximas colonizações (sucessões).
E isso tudo vem acontecendo há milhões de anos!
Porém, há evidências científicas que este ciclo vem sendo alterado por causas antrópicas.
Pontinhos verdes no Continente Branco.
Os registros científicos mais confiáveis indicam que o fenômeno de esverdeamento da Península Antártica - documentado por satélite - tem dados consistentes desde a década de 1980, com uma expansão especialmente marcada entre 1986 e 2021.
A partir de 1986, satélites como os do programa Landsat, a NASA passou a registrar consistentemente a presença de vegetação na Antártida, o que e permitiu o acompanhamento de como a vegetação aumentou ao longo das décadas no continente, especialmente na Península Antártica.
O fato é que entre 1986 e 2021, a cobertura de vegetação estimada na Península Antártica cresceu mais de dez vezes (de cerca de 0,86 km² para quase 12 km²). Além disso, os pesquisadores identificaram que a taxa de expansão acelerou a partir de cerca de 2016, o que sugere que o processo se intensificou — provavelmente em resposta ao aquecimento mais rápido registrado nas últimas décadas.
Um estudo cartográfico mais amplo usando mapeamento detalhado aponta que a vegetação total em toda a Antártida (incluindo Península e outras áreas livres de gelo) ocupa hoje cerca de 44,2 km². Nesta estimativa, conclui-se que 80 % dessa vegetação está concentrada na Península Antártica e ilhas vizinhas. Isso mostra que, embora o “verde” antártico ainda seja pequeno comparado ao gelo, existe e cresceu substancialmente nas últimas décadas.
Musgos cobrem as regiões costeiras da Península Antártica
Há robustas evidências científicas que correlacionam a intensificação do esverdeamento da Península Antártida com o aquecimento do planeta, responsável direto dos degelos superficiais e costeiros do continente.
O que muda com a intensificação do Esverdeamento na Antártida?
A biodiversidade da Península Antártica está mudando de forma significativa e relativamente acelerada. Essa alteração não é apenas quantitativa, mas qualitativa e funcional.
Inicialmente, há grande possibilidade de ocorrer aumento da biodiversidade, afinal ficam disponíveis novas áreas, como também mais água líquida e nutrientes que favorecem espécies pioneiras. Assim, musgos mais competitivos, líquens mais tolerantes à umidade, além de micro-organismos pouco exigentes como cianobactérias, algas terrestres e organismos decompositores, poderão ocupar os novos territórios mudando as condições bióticas e abióticas.
Mas se o fenômeno observado é um processo de sucessão ecológica, cabe uma pergunta: o que vem depois dessa colonização inicial?
O problema ecológico não é apenas “mais espécies”, mas “quais espécies” passarão a dominar a região. Com o aquecimento e com mais água líquida, musgos de crescimento rápido podem suplantar líquens e posteriormente talvez possam aparecer até mesmo plantas mais complexas. No decorrer dessa sucessão, comunidades biológicas tenderão a se tornar mais dinâmicas, versáteis, e talvez apareçam espécies invasoras que afetarão as espécies locais, por serem mais competitivas e adaptadas.
Embora o esverdeamento envolva plantas e micro-organismos mais simples, ele também poderá repercutir nos diversos níveis tróficos, alterando a distribuição dos invertebrados no solo, na dinâmica de colônias de aves (alimentação, reprodução, locais de nidificação) e até mesmo na dinâmica de reprodução de mamíferos aquáticos como lobos e elefantes marinhos.
Península Antártica, mostra as áreas verdes emergentes na região. Crédito: Dan Charman
Esse esverdeamento intensificado poderá também alterar o ambiente físico (condições abióticas), pois ocorrerá redução do albedo, deixando a superfície mais escura e com menor capacidade de refletir a luz. Poderão ocorrer também aumento da temperatura do solo e a maior retenção de umidade.
Essas mudanças das condições físicas locais, poderão intensificar o degelo local, acelerar a reciclagem de matéria (especialmente de nitrogênio, carbono e fósforo) e favorecer a entrada de organismos generalistas, mais tolerantes a grandes mudanças ambientais.
Tá! A Antártida tá ficando verde. E daí?
Afinal, o que são meros 12 a 35 km² de tapete verde - fração minúscula da Península Antártica (cerca de 500000 km²) - perto da área total da Antártida (13.660.000 km²)?
Por que esse pontinho verde na imensidão branca de gelo é tão importante?
A Península Antártica funciona como um “laboratório natural”, capaz de nos mostrar os efeitos do aquecimento global no hemisfério sul. O esverdeamento dessa região serve como um bioindicador integrado, afinal, o “verde” não responde a um único fator isolado. Ele integra fatores como aumento da temperatura média, maior duração do verão austral, redução da cobertura de gelo e neve, mudanças na umidade do solo e aumento da reciclagem de nutrientes.
Mesmo cobrindo uma área relativamente pequena em relação à área total da Antártida, o esverdeamento da Península Antártica gera feedbacks climáticos que poderão afetar o continente inteiro e até mesmo o planeta. Por exemplo, a intensificação das áreas verdes e a diminuição das áreas cobertas por gelo tenderão a mais absorver do que refletir a luz do sol, provocando um efeito cascata: mais “verde” → mais aquecimento local → mais degelo.
O fenômeno pode fornecer à ciência uma reflexão sobre medidas profiláticas contra riscos biológicos futuros, isto é, estudar o esverdeamento da Península Antártica permite prever a expansão de espécies invasoras no continente, entender os limites térmicos da vegetação antártica e avaliar os riscos à biodiversidade. Esses estudos poderão ser essenciais para as políticas de conservação e para os protocolos de Tratados da Antártida.
O esverdeamento da Antártida não é relevante pelo quanto ocupa, mas pelo quanto revela. Embora a área atualmente vegetada na Península Antártica seja pequena em termos absolutos, seu rápido crescimento representa um indicador sensível das mudanças climáticas em curso, revelando transformações ecológicas profundas em um dos sistemas mais frios e estáveis do planeta.
A humanidade está preparada para os novos cenários que pipocam com as mudanças climáticas?
Veja também:
1-Cientistas analisaram imagens do espaço para verificar a rapidez com que a Antártida está ficando verde. (10/01/2026)
2-O aumento da vegetação na Antártida é mais um sinal de mudanças climáticas significativas no continente gelado. (10/01/2026)
3-As mudanças climáticas estão tornando a Antártida verde (10/01/2026)
4-Estudo aponta avanço da vegetação e do degelo na Antártica; cientista alerta para efeitos no Brasil (10/01/2026)
5-Satélites revelam uma Península Antártica mais verde (10/01/2026)
Era uma vez uma célula da pele que virou um óvulo.....
Senhoras e senhores, realmente o mundo está ficando cada vez mais complexo, recheado de muitos desafios e de novas perspectivas que vêm mudando a forma que as pessoas pensam e agem.
Por outro lado, a ciência acena com possibilidades terapêuticas cada vez mais ousadas, algumas delas estão chegando para quebrar paradigmas que ainda persistem em nosso modo de vida.
Já pensou se mulheres que entraram na menopausa ou que tiveram falência ovariana pudessem desfrutar novamente de óvulos viáveis com seu próprio material genético, ou ainda se fosse possível obter óvulos viáveis a partir de mulheres estéreis, ou ainda se casais homoafetivos e até mesmo um homem ou uma mulher sozinhos pudessem gerar óvulos a partir de outras células do corpo?
Pois é, o fato é que essas demandas, em tese, parecem que poderão ser atendidas em um futuro talvez não muito distante com a utilização de técnicas de biotecnologia aliadas às técnicas de reprodução assistida.
A técnica de transferência nuclear de célula somática - usada na clonagem que resultou na ovelha Dolly - combinada com técnicas laboratoriais tradicionais de fertilização fizeram com que as células da pele humana produzissem óvulo viáveis capazes de gerar embriões humanos.
O fato é que cientistas liderados por Shoukhrat Mitalipov e Paula Amato da Oregon Health & Science University (OHSU), nos Estados Unidos, conseguiram criar óvulos em laboratório usando células da pele humana.
Paula Amato, médica, professora de obstetrícia e ginecologia na Faculdade de Medicina da OHSU, e Shoukhrat Mitalipov, Ph.D., diretor do Centro de Terapia Genética e de Células Embrionárias da OHSU. (OHSU/Christine Torres Hicks)
Como eles conseguiram essa façanha? Bem, explicaremos didaticamente aqui em etapas:
1-Os cientistas utilizaram a seguinte "matéria prima": ovócitos II (n=23) retirados de doadoras voluntárias que já participavam de programas de reprodução assistida, além de células da pele (2n = 46) de outros diversos voluntários.
2-O núcleo (2n=46) de uma célula da pele foi inserido no interior de um ovócito II previamente anucleado (seu núcleo haploide foi removido).
3-Foi obtido um ovócito II incomum, porque ele passou a conter 46 cromossomos - ficou diploide (2n=46) - e sabemos que um ovócito II convencional contém metade disso, isto é, apenas 23 cromossomos duplicados (n=23). Nessa condição, esse ovócito II incomum seria inviável para uma fertilização. E agora?
4-Ocorre que os ovócitos II utilizados no experimento, antes de terem seus núcleos removidos, encontravam-se estacionados em metáfase II da meiose, mas continham a maquinaria molecular necessária para completar a segunda divisão da meiose que - uma vez bem sucedida-gera duas células haploides.
5-A ideia foi aproveitar esse "ambiente molecular" do ovócito II para estimulá-lo a se dividir e expulsar a metade dos 46 cromossomos (recebidos da célula da pele) em um corpúsculo polar.
6-Os cientistas, então, utilizaram diversas substâncias químicas para induzir uma espécie de “meiose forçada” nos ovócitos II, técnica que passou a ser chamada simbolicamente de "mitomeiose".
7-O estudo em questão relatou que, após essa "mitomeiose", o ovócito II se dividiu, expulsou metade dos 46 cromossomos no corpúsculo polar formado e passou a conter apenas 23 cromossomos, como um ovócito II natural.
Em tese, esse ovócito II obtido - com apenas 23 cromossomos que pertenciam à célula da pele doada - pode ser fecundado por um espermatozoide.
Segundo os cientistas, a divisão forçada (mitomeiose) dos ovócitos II portadores de 46 cromossomos não ocorreu como se fosse uma meiose normal. Verificaram que durante essa divisão forçada o ovócito II montou uma espécie de "fuso de divisão" que puxou metade dos cromossomos para fora da célula (no corpúsculo polar), no entanto, não ocorreu alinhamento e pareamento correto do par de homólogos, nem tão pouco crossing-over. O descarte dos cromossomos a mais foi aleatório; alguns cromossomos duplicados ficaram juntos, outros foram eliminados juntos.
Talvez esse tenha sido apenas o primeiro passo da construção de uma técnica com algum potencial terapêutico, afinal, os resultados obtidos não foram exatamente um "mar de rosas", sinalizando que há ainda uma promissora jornada científica a ser percorrida.
Muitos dos ovócitos resultantes apresentaram número incorreto de cromossomos, o que poderia causar aneuploidias indesejáveis. Na verdade, apenas uma pequena parcela dos ovócitos reconstruídos terminou com um genoma haploide (n=23) relativamente equilibrado.
A fração viável de ovócitos foi colada à prova, isto é, 82 ovócitos viáveis foram fecundados com o emprego de técnicas tradicionais de fertilização in vitro, porém apenas cerca de 9% deles se desenvolveram até o estágio de blastocisto.
Há preocupações de segurança, reprogramação apropriada do núcleo, controle cromossômico, e muitos obstáculos técnicos e éticos antes que essa prática possa, algum dia, ser utilizada em seres humanos de forma terapêutica.
Os próprios pesquisadores estimam que levará pelo menos uma década ou mais de estudos antes que algo assim possa ser considerado para uso humano. Mas dez anos em ciência passam rápidos!
Pois é, o mundo gira e a ciência traz possibilidades aqui e acolá em uma velocidade incrível. Mas será que a sociedade consegue absorver tantas descobertas e vislumbrar, sem preconceitos, tantas possibilidades na mesma velocidade?
O que você acha?
Leia também:
1- Indução de divisão celular experimental para gerar células com ploidia cromossômica reduzida | Comunicações da Natureza
2-Scientists made human egg cells from skin cells
3-Pesquisadores da OHSU desenvolvem óvulos funcionais a partir de células da pele humana | Notícias OHSU
Vacina Tetravalente contra a Dengue Promete Tirar o Brasil da UTI epidemiológica
O Instituto Butantan recentemente anunciou o início da produção de uma vacina contra os quatro sorotipos de vírus contra a Dengue. Trata-se da vacina Butantan-DV, projeto financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), contando com as parcerias técnicas do NIH (Instituto Nacional de Saúde Americano) e da MSD (Merck Sharp & Dohme).
Apesar de a vacina Butantan-DV ainda estar sob análise da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), isso não impede que sua distribuição ocorra já em 2026, desde que o registro seja concedido até o final de 2025 ou início de 2026 — o que permanece plenamente possível.
Caso aprovada, a Butantan-DV — vacina de dose única — será fornecida à população por meio do SUS (Sistema Único de Saúde), tendo como público-alvo pessoas entre 2 e 59 anos.
A previsão inicial é de 60 milhões de doses distribuídas em 2026 e outras 40 milhões ao longo de 2027.
Em termos de medicina preventiva, trata-se de um avanço significativo, especialmente diante dos números alarmantes da Dengue no Brasil. Até julho de 2025, o país já havia registrado mais de 1 milhão de casos prováveis, com 668 mortes confirmadas e 724 casos em investigação, resultando em uma taxa de 475,5 casos por 100 mil habitantes. O estado de São Paulo lidera em número de casos (585.902), seguido por Minas Gerais, Paraná e Goiás.
A autossuficiência na produção de uma vacina contra a Dengue representa uma conquista estratégica para o Brasil — especialmente em um país que, por anos, parecia estar se resignando à recorrência de epidemias. Esse cenário, no entanto, promete mudar graças ao avanço científico, que mais uma vez demonstra sua força como principal aliada na luta contra os vírus.
Bem, mas em uma página dedicada aos assuntos ligados à Biologia, você deve estar curioso para saber quais foram as etapas da produção dessa vacina, não é mesmo? Então vamos a elas:
Etapa 1 (Identificação dos 4 subtipos de vírus da Dengue)
Os vírus da Dengue pertencem ao gênero Flavivirus e são vírus envelopados de RNA de fita simples com polaridade positiva (+RNA).
Circulam no Brasil quatro sorotipos distintos, denominados DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. A principal diferença entre esses sorotipos encontra-se na estrutura das proteínas e glicoproteínas de envelope, localizadas na superfície do vírus. Significa que cada sorotipo apresenta glicoproteínas com variações moleculares específicas, o que confere identidade imunológica própria e exige que uma vacina eficaz inclua todos eles — daí a formulação tetravalente.
Etapa 2 (Atenuação dos vírus)
Trata-se de um processo de enfraquecimento controlado e monitorado dos vírus da Dengue. Os cientistas do NIH (EUA) e do Instituto Butantan modificaram geneticamente os vírus, removendo ou alterando partes do RNA viral responsáveis pela maior virulência. O objetivo é manter a capacidade de gerar uma resposta imunológica eficaz, mas sem causar a doença ou efeitos colaterais significativos.
Os sorotipos DENV‑1, DENV‑3 e DENV‑4 foram atenuados diretamente, por meio de mutações induzidas em seus genomas. Já o DENV‑2 exigiu uma solução mais elaborada: os pesquisadores criaram um vírus quimérico, uma espécie de “Frankenstein viral”, formado pela combinação genética de dois vírus distintos — o DENV‑4 atenuado e o DENV‑2 selvagem.
A maior parte da estrutura do vírus quimérico (genes internos e não estruturais, ligados à replicação) vem do DENV‑4 atenuado, mas parte do RNA foi modificada para que ele expresse as glicoproteínas de envelope do DENV‑2, isto é, a “casca” externa do vírus.
Em outras palavras, o sistema imunológico enxerga o DENV‑2, mas o comportamento interno é do DENV‑4 atenuado. Se esse vírus fosse um carro, o motor seria do DENV‑4, mas a carroceria, do DENV‑2.
E por que tanta engenharia no caso do DENV‑2?
Porque ele é conhecido por ser o sorotipo mais virulento e reatogênico — com histórico de causar reações adversas mesmo quando atenuado. Tentativas anteriores de usá-lo diretamente resultaram em vacinas que ou provocavam sintomas mais adversos, ou não induziam imunidade suficiente. A solução foi criar esse “Frankenstein viral” — um vírus seguro que simula a presença do DENV‑2, garantindo a imunização contra esse sorotipo, mas com menor risco de efeitos adversos.
Etapa 3 (Formulação)
Os quatro vírus atenuados foram misturados em proporções balanceadas, para garantir que o sistema imunológico desenvolva respostas igualmente fortes contra os quatro sorotipos.
Etapa 4 (Cultivo dos Vírus)
Os vírus atenuados foram cultivados separadamente em grandes volumes de cultura celular, utilizando as chamadas células Vero — uma linhagem celular derivada do rim de um macaco-verde africano (Chlorocebus aethiops), amplamente utilizada na produção de vacinas humanas, como as de Raiva, Poliomielite e Febre amarela.
Nas vacinas atenuadas, é necessário produzir grandes quantidades de vírus enfraquecidos, o que se consegue infectando um verdadeiro “mar” de células Vero em biorreatores. Dentro dessas células, os vírus se replicam até atingir o ponto ideal de colheita.
Durante esse processo, ocorre o ciclo lítico viral: os vírus se replicam intensamente dentro das células Vero até que estas sejam rompidas (lise), liberando milhões de novas partículas virais. O material resultante passa por diversas etapas de purificação:
Centrifugação, para separar os componentes celulares maiores
Filtragem mecânica, para remover detritos celulares
Ultrafiltração, para eliminar proteínas não virais
Ao final desse processo, cada lote de células Vero fornece um líquido concentrado com partículas virais de um único sorotipo.
Os quatro sorotipos atenuados — DENV-1, DENV-2 (quimérico), DENV-3 e DENV-4 — são então misturados cuidadosamente, com base em concentrações padronizadas previamente determinadas.
Essa mistura recebe estabilizantes (como sacarose, gelatina ou sorbitol) e soluções tampão, que ajudam a manter o pH estável e preservam a integridade dos vírus durante o armazenamento.
O produto final é uma vacina líquida, refrigerada entre 2 e 8 °C, pronta para ser envasada e, futuramente, distribuída.
A vacina tetravalente contra a Dengue do Butantan (Butantan-DV) passou por uma fase pré-clínica rigorosa, com testes em animais antes de ser testada em humanos.
Segundo Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan e professor do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP, "a vacina tetravalente foi testada amplamente em estudos de fase 2 e 3, envolvendo cerca de 17 mil voluntários. Os resultados demonstraram um perfil de alta segurança, com 80% de eficácia na prevenção da Dengue durante os dois primeiros anos após a vacinação. Além disso, foi alcançado 88% de proteção contra formas graves da doença, mesmo em casos de infecção.” Ainda segundo Kallás, alguns efeitos adversos leves foram observados, como pequenas manchas na pele — sinais de resposta imunológica que desapareceram rapidamente.
Vale ressaltar que, mesmo em um cenário ideal de ampla cobertura vacinal, as ações de combate ao Aedes aegypti continuam fundamentais. Afinal, além de transmitir a Dengue, o mosquito é vetor de outras doenças como Chikungunya, Zika e Febre amarela.
De toda forma, este é um momento a ser celebrado como mais uma vitória da ciência — especialmente em um país que ainda se recupera das sequelas de uma onda negacionista, que há algum tempo contaminou parte da população com fake news e teorias conspiratórias lamentáveis.
A ciência ilumina a escuridão. E é ela que segue apontando o caminho da humanidade.
Leia também:
1- Instituto Butantan produzirá a primeira vacina de dose única contra a dengue do mundo – Jornal da USP
2-Butantan Institute says its dengue vaccine protects against serotype 3
3-Produção da vacina contra dengue pelo Instituto Butantan poderá alcançar 60 milhões de doses anuais – Jornal da USP
Um parentesco não tão próximo, mas que rompeu as fronteiras filogenéticas
Cães e Gatos, os pets domésticos mais presentes na vida das pessoas, têm algum parentesco entre si por terem capacidade de interagir com seus tutores?
Sim, cães e gatos são "primos", mas o parentesco entre eles não tem relação com a capacidade que ambos têm de "seduzir" seus donos.
Fique sabendo que o parentesco entre um cão e uma e uma foca é maior que entre um cão e um gato. E até mesmo o parentesco entre um gato e uma hiena é maior que o parentesco entre um gato e um cão.
O DNA não mente!
Só para se ter uma ideia com base no genoma desses animais, a porcentagem de semelhança de DNA entre cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus) é de aproximadamente 90%, porém a semelhança de DNA entre gatos e hiena é de cerca de 95%.
Taxonomicamente falando, cães e gatos compartilham o mesmo Reino (Animalia), Filo (Chordata), Classe (Mammalia) e Ordem (Carnivora). Mas a partir daí passam a pertencer a unidades taxonômicas diferentes.
As Unidades Taxonômicas de Classificação Biológica
Então claro que cães e gatos apresentam características anatômicas, embrionárias e bioquímicas semelhantes , afinal ambos são vertebrados mamíferos que fazem parte da ordem Carnivora.
E do ponto de vista taxonômico, o termo "Carnívora" não significa apenas que preferencialmente comem carne. Na verdade, os mamíferos que pertencem a essa ordem são incríveis caçadores, dignos de várias tomadas em slow motion de documentários e de vídeos curtos que assistimos por ai.
O fato é que os mamíferos da ordem Carnivora apresentam uma série de características morfofisiológicas que os adaptam à vida predatória:
Dentição especializada: dentes caninos bem desenvolvidos, adaptados para rasgar a carne.
Sistema digestório: relativamente simples e curto em comparação com herbívoros, já que a carne (proteínas) é mais facilmente digerida do que plantas (celulose). A maioria dos carnívoros possui um estômago simples e um intestino delgado mais curto, adequados à dieta rica em proteínas e gorduras.
Membros adaptados para caça e captura: com garras afiadas, adaptadas para capturar e segurar suas presas. A locomoção é frequentemente rápida, são predadores ágeis, ou em grandes carnívoros como os ursos, que, apesar de serem mais lentos, têm força considerável.
Adaptabilidade alimentar: embora a maioria dos membros da ordem Carnivora sejam carnívoros obrigatórios, como os gatos, há espécies que se alimentam de uma dieta mais variada, como ursos e cães, que podem consumir alimentos vegetais (são onívoros).
Anatomia craniana: apresentam crânio robusto, com mandíbulas fortes e articulações que permitem movimentos eficientes para agarrar e rasgar carne.
Pertencem a ordem Carnivora várias figurinhas bem conhecidas como leões, cães, hienas, focas, guaxinins, gatos, ursos, lontras, onças, lobos, suricatos, doninhas etc.
Como manda a figurino e os alicerces da ciência, todo o bom biólogo, ou estudioso de biologia adota as premissas da Teoria Sintética da Evolução quando o assunto é parentesco entre os seres vivos.
Assim, alguns comportamentos e adaptações de cães e gatos em relação aos humanos resultaram de convergência evolutiva, isto é, quando diferentes linhagens desenvolvem características semelhantes devido a pressões ambientais semelhantes.
Mas vamos detalhar um pouco mais os aspectos taxonômicos aqui.
Filogenia da Ordem Carnivora
Dentro da ordem Carnivora, temos duas subordens:
Subordem Feliformia: dotados de bulbo timpânico (estrutura óssea que protege o ouvido médio) dividido por um septo em duas câmaras distintas; mandíbula mais curta e robusta, com maior capacidade de força na mordida, adaptada a predar e segurar presas e dentes carnívoros mais especializados para cortar carne, com um padrão de tesoura mais eficiente. Além disso, os membros dessa subordem apresentam garras retráteis ou semirretráteis adaptadas para capturar presas de forma silenciosa e precisa. A locomoção desses animais é muito ágil, favorecendo saltos e perseguições curtas. Dentro dessa subordem, temos as famílias Felidae (gatos, leões, tigres, onças, leopardos, jaguatiricas, caracais etc), Viverridae (civetas), Hyaenidae (hienas) e Herpestidae (suricatos). Embora muitos Feliformes sejam predominantemente carnívoros estritos (felídeos), algumas espécies têm dietas mais diversificadas, como insetívoros e onívoros (algumas civetas e suricatos).
Subordem Caniformia: apresentam bulbo timpânico simples ou parcialmente dividido, geralmente sem um septo completo; mandíbula mais longa e menos robusta, favorecendo maior amplitude de movimento para mastigar alimentos mais variados e dentes carnívoros menos especializados, com molar adicional adaptado para triturar vegetação, especialmente em espécies onívoras como os ursos. Nesse grupo encontramos animais com maior diversidade alimentar. Essa subordem é composta pelas famílias Canidae (cães, lobos, coiotes etc), Ursidae (ursos), Otariidae (lobos-marinhos e leões-marinhos), Phocidae (focas verdadeiras) e Odobenidae (morsas), Procyonidae (quatis, guaxinins) e Mustelidae (texugos, doninhas). Dentro dessa subordem há grande diversidade alimentar (de carnívoros obrigatórios a onívoros e até herbívoros extremos, como o panda-gigante).
Tanto canídeos quanto os felídeos evoluíram a partir de um ancestral comum na ordem Carnivora, que surgiu há cerca de 55-65 milhões de anos, após a extinção dos dinossauros. A divergência evolutiva entre Feliformia e Caniformia deve ter ocorrido provavelmente por volta de 40 milhões de anos atrás.
Mas do ponto de vista evolutivo, quando surgiram os cães e os gatos?
Os cães domésticos (Canis lupus familiares) surgiram há cerca de 20.000 a 40.000 anos atrás. Eles são descendentes do lobo cinzento (Canis lupus lupus). A domesticação dos cães começou durante o Pleistoceno Superior, quando humanos caçadores-coletores estabeleceram uma relação simbiótica com lobos, provavelmente aproveitando sua habilidade de caça e comportamento social. Essa relação resultou no surgimento dos primeiros cães domesticados.
O Lobo Cinzento (ancestral direto dos cães atuais)
Já os gatos domésticos (Felis catus) provavelmente surgiram há cerca de 9.000 a 10.000 anos. Os bichanos são descendentes do gato selvagem africano (Felis silvestris lybica), que vive em regiões do Oriente Médio. A domesticação ocorreu durante o início da agricultura, quando humanos começaram a armazenar grãos, atraindo roedores e, consequentemente, gatos selvagens que ajudaram no controle de pragas. Essa convivência próxima levou à domesticação gradual.
O Gato Selvagem Africano (ancestral direto dos gatos)
Bem, cães e gatos talvez sejam os animais que melhor se adaptaram ao nosso estilo de vida. Vários estudos mostram inclusive que ambos são capazes de interpretar nossas expressões faciais, uma linguagem corporal que está intimamente ligada às nossas emoções. Experimentos com cães mostraram que eles conseguem identificar emoções humanas como raiva e felicidade em nossas faces.
Os gatos também!
Pesquisadores estudaram a resposta comportamental dos gatos a diferentes tons de voz e expressões faciais humanas e eles reagiram de maneira mais positiva a vozes suaves e expressões faciais amigáveis, sugerindo que eles podem perceber a emoção transmitida pela voz e pelo rosto humano. Embora a reação dos gatos fosse mais sutil e menos óbvia do que a dos cães, ainda assim mostrava uma preferência por interações mais positivas.
Cães e gatos são primos relativamente distantes, mas que ao longo da história evolutiva, estabeleceram vínculos afetivos com seus "tutores", mas de maneiras diferentes.
Apesar das diferenças, ambos os animais passaram por processos de domesticação que favoreciam compreensão mútua entre eles e os humanos, cada um ao seu modo.
Esses pets amados foram selecionados para interagir de maneira adaptativa com os humanos, um exemplo fantástico de convergência evolutiva.
2- https://sites.usp.br/psicousp/caes-avaliam-postura-e-expressoes-faciais-ao-interagir-com-humanos-diz-pesquisa/ (acesso em janeiro de 2025).
3-https://cultura.uol.com.br/radio/programas/estacao-cultura/2022/03/23/787_estudo-indica-que-cachorros-sao-capazes-de-interpretar-emocoes-humanas.html (acesso em janeiro de 2025).
4-Gatos têm quase 300 expressões faciais, segundo estudo - Mega Curioso (acesso em janeiro de 2025).
5-Projeto - Leitura de emoções a partir das expressões faciais de cães por humanos - nap_emocoes (acesso em janeiro de 2025)
Tubarões do Rio de Janeiro contaminados com Cocaína
Estudo inédito realizado por pesquisadores do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC/Ficocruz (RJ) detectou a presença de cocaína e de benzoilecgonina em tubarões da espécie Rhizoprionodon lalandii (cação rola-rola), pequeno elasmobrânquio costumeiramente achado nas praias fluminenses, como as do bairro Recreio dos Bandeirantes da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.
O estudo, conduzido entre setembro de 2021 e agosto de 2023, foi parte da avaliação de como certas substâncias e microrganismos causam impactos à vida marinha.
Recreio dos Bandeirantes - Cidade do Rio de Janeiro
No total, foram coletados e analisados 13 tubarões e todos eles. testaram positivo para cocaína (cloridrato de cocaína). Em 12 desses 13 tubarões também foi detectada a benzoilecgonina, subproduto do metabolismo da cocaína no fígado.
A cocaína foi detectada em maior quantidade nos músculos e em menor quantidade no fígado, enquanto a benzoilecgonina concentrou-se mais no fígado.
Vale ressaltar que nos vertebrados em geral a benzoilecgonina pode ser produzida no fígado após o consumo ou intoxicação por cocaína.
Quando a cocaína é metabolizada pelo corpo, ela passa por um processo de hidrólise enzimática, principalmente no fígado, que resulta na formação da benzoilecgonina. Nos seres humanos, a benzoilecgonina é excretada na urina e pode ser detectada em exame antidoping, por exemplo.
Mas como é que a cocaína foi parar no organismo dos tubarões?
Bem, boa pergunta!
Segundo Enrico Mendes Saggioro, um dos responsáveis pelo estudo, "a cocaína foi encontrada em maior concentração no músculo, que é um tecido de acúmulo, o que pode sinalizar a abundância da presença da substância no ambiente marinho. Os tubarões estariam se contaminando de diversas formas, seja pelo fato de habitarem a região ou se alimentarem de outros animais contaminados".
A cocaína pode entrar nos peixes principalmente por dois meios:
Absorção Direta pela Água: a cocaína dissolvida na água pode ser absorvida diretamente pelas brânquias, que são altamente permeáveis.
Alimentação: os peixes também podem se contaminar ingerindo alimentos contaminados com cocaína. Embora faltem estudos mais conclusivos, suspeita-se que a cocaína possa ter efeito cumulativo desencadeando magnificação trófica. Há evidências científicas de que essa droga e seus metabólitos podem se acumular em organismos menores, como algas, invertebrados aquáticos e pequenos peixes que compõem a dieta carnívora dos tubarões da espécie Rhizoprionodon lalandii.
A literatura científica sobre o assunto mostra que a cocaína e seus metabólitos, como a benzoilecgonina, são descartados no meio ambiente, principalmente em corpos d'água, pelo esgoto.
Estudos e relatórios das autoridades de saúde e segurança pública frequentemente indicam níveis elevados de uso de cocaína na cidade do Rio de Janeiro. As análises de esgoto têm sido usadas em várias cidades para medir o consumo de drogas, e o Rio de Janeiro frequentemente aparece com altos índices de resíduos de cocaína. Muito provavelmente corroboram para esses resultados o fato de o Rio de Janeiro ser um grande polo turístico, com uma intensa vida noturna, além de ser rota do tráfico internacional dessa droga.
A cocaína afeta a vida marinha?
Sim, afeta!
Segundo a bióloga Rachel Ann Hauser-Davis, outra pesquisadora envolvida no estudo, " é necessário realizar estudos específicos para determinar as consequências exatas dessa contaminação nos animais. Acredita-se que pode haver impacto no crescimento, na maturação e, potencialmente, na fecundidade dos tubarões, uma vez que o fígado atua no desenvolvimento de embriões".
Estudos semelhantes conduzidos pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pela Universidade Santa Cecília (UNISANTA), desde 2017, revelaram que a cocaína também vem contaminando a Baía de Santos. A cidade de Santos comporta o maior porto da América do Sul, alvo frequente dos traficantes de cocaína.
Segundo os pesquisadores dessas universidades, a cocaína está presente não só na água, mas também em sedimentos e em diversos organismos marinhos do litoral paulista. Os estudos mostraram que a cocaína intoxica peixes, mexilhões (Perna perna) e ostras de mangue (Crassostrea gasar), alterando não só as atividades fisiológicas como também o material genético das células (a cocaína tem propriedades mutagênicas).
Cientistas de todo o mundo temem que cocaína descartada no meio principalmente por esgoto não tratado cause outros tipos de impactos à vida aquática, tais como:
Alterações Comportamentais nos Peixes: alterações nos padrões de alimentação e no comportamento reprodutivo.
Estresse Fisiológico: a cocaína pode causar estresse fisiológico nos peixes, afetando o sistema nervoso e outros sistemas corporais.
Efeitos Endócrinos: Alguns estudos sugerem que a cocaína pode interferir no sistema endócrino dos peixes, afetando o crescimento, a reprodução e o desenvolvimento.
Não há consenso entre os cientistas se a cocaína é um potencial candidato a vilão ambiental, pois apesar de tudo, seu descarte é aparentemente localizado e ainda contamina o mar e os rios em baixas concentrações. Também não se sabe se o consumo de animais contaminados por cocaína pelos seres humanos trará a longo e médio prazos riscos significativos à saúde, mas o sinal amarelo está aceso!
De qualquer forma, é muito triste saber que animais como tubarões e outras espécies aquáticas, alheias ao mundo dos humanos, correm risco de se contaminar por substâncias nocivas provenientes de vícios, ilusões e paixões muitas vezes tão sem sentido.
Leia também:
1-https://portal.fiocruz.br/noticia/2024/07/pesquisa-inedita-da-fiocruz-detecta-contaminacao-por-cocaina-em-tubaroes (acesso em julho de 2024)
2-https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969724049477?via%3Dihub (acesso em julho de 2024)
3-https://agencia.fapesp.br/cocaina-e-contaminante-emergente-preocupante-na-baia-de-santos-afirma-pesquisador/51489 (acesso em julho 2024)
4-https://www.terra.com.br/byte/ciencia/como-a-cocaina-esta-contaminando-peixes-e-mexilhoes-no-mar-de-santos,432571ee4dc63919f3222adb5bb99cabepl4bvdz.html (acesso em julho de 2024)
5-https://www.newsweek.com/huge-concentration-cocaine-sea-life-high-brazil-1894537 (acesso em julho de 2024)
Você conhece uma substância chamada de semaglutida?
Você disse não?
Bem, e o medicamento conhecido como "ozempic", já ouviu falar?
Muita gente conhece o "ozempic" como aquela "injeção que faz emagrecer".
Pois é, mas não foi exatamente para esse propósito que a estadunidense Food and Drug Administration (FDA) e que a brasileira Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) liberaram esse tipo de medicamento.
A semaglutida, vendida com o nome comercial "ozempic" ou ainda "wegovy", é um peptídeo sintético semelhante ao hormônio GLP-1 (glucagon-like peptide-1) produzido pelas "células L" (endócrinas) do intestino delgado.
O GLP-1 ajuda a regular a glicemia (concentração de glicose no sangue), pois ele estimula as células β do pâncreas a produzir insulina, hormônio responsável pela diminuição da taxa de glicose no sangue.
O "ozempic" imita ( é agonista) o GLP-1 e é por essa razão que esse medicamento foi liberado pelas agências controladoras (FDA e ANVISA) no tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2.
Mecanismos Fisiológicos
No organismo humano, o "ozempic" (assim como o GLP-1) promove diversos efeitos:
1- Aumento da Produção de Insulina: como já mencionamos, a semaglutida age nas células β do pâncreas estimulando-as a produzir insulina, com consequente diminuição da glicemia.
2-Inibição da Produção de Glucagon: a semaglutida inibe as células α do pâncreas, responsáveis pela produção de glucagon, hormônio que promove o aumento da glicemia por meio da glicogenólise (quebra do glicogênio no fígado).
3-Retardamento do Esvaziamento Gástrico: a semaglutida diminui o processo de esvaziamento do estômago. Esse efeito faz diminuir a fome, pois quando o estômago está "cheio", o hipotálamo (área cerebral) fica mais "saciado". Além disso, estudos sugerem que níveis altos de semaglutida inibem a produção de grelina, hormônio produzido pelo estômago que age no hipotálamo promovendo a sensação de fome.
4-Inibição do Hipotálamo: a semaglutida age também diretamente no sistema nervoso central, principalmente no hipotálamo, diminuindo a sensação de fome.
5-Proteção das Células β: estudos científicos sugerem que a semaglutida retardam a apoptose (morte celular programada) das células β, um outro ponto a favor da utilização do "ozempic" no controle da Diabetes Mellitus tipo 2.
6- Aumento da Sensibilidade à Insulina: estudos científicos sugerem que a presença de semaglutida na corrente sanguínea aumenta a sensibilidade das células corporais à ação da insulina, o que promove diminuição da glicemia.
Uso Terapêutico da Semaglutida
Embora o "ozempic" e o "wegovy" tenham a semaglutida como princípio ativo, eles não são exatamente os mesmos medicamentos, pois apresentam dosagens diferentes.
O "ozempic" pode ser utilizado no tratamento de Diabetes Mellitus tipo 2; sua dose inicial geralmente começa com 0,25 mg por semana, aumentando gradualmente até atingir a dose de manutenção de 2,4 mg por semana.
O "wegovy" pode ser utilizado no tratamento de adultos com obesidade (IMC ≥ 30) ou com sobrepeso (IMC ≥ 27), portadores de doenças associadas como como hipertensão, Diabetes Mellitus tipo 2, ou dislipidemia.
Administração da Semaglutida no Organismo
Bem, primeiramente é sempre bom lembrar que a aplicação desses medicamentos deve ser prescrita por um médico e nesse caso, geralmente tanto o "wegovy" quanto o "ozempic" são administrados por meio de injeções subcutâneas.
Ambos os medicamentos são projetados para administração em casa, pelo próprio paciente. Para isso, é importante seguir as instruções fornecidas pelo médico e pelo fabricante para garantir a eficácia e segurança do tratamento. Se houver dúvidas sobre a administração ou possíveis efeitos colaterais, é sempre recomendável consultar um profissional de saúde.
Na maioria dos caso, a administração desses medicamentos ocorre uma vez por semana. A injeção pode ser feita na parte superior da coxa, no abdome ou na parte superior do braço.
Uso Indevido da Semaglutida
Esses medicamentos não foram feitos para alimentar a "indústria da vaidade", principalmente aquela que se propaga nas redes sociais, inclusive por algumas "celebridades" de ocasião. Na verdade, o uso off label (fora da bula) do "ozempic" ou do "wegovy" pode trazer diversos prejuízos à saúde, entre eles:
1-Efeitos Colaterais: náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e perda de apetite.
2-Problemas Gastrointestinais: mal funcionamento do estômago e intestinos com desencadeamento de diarreias e vômitos que levam à desidratação e ao desequilíbrio eletrolítico.
3-Hipoglicemia: a semaglutida utilizada de forma inadequada somada à inadequada orientação nutricional pode aumentar o risco de hipoglicemia (falta de glicose no sangue).
4-Problemas de Saúde Subjacentes: a semaglutida utilizada de forma inadequada pode agravar doenças pré-existentes, como insuficiência renal, doenças gastrointestinais, ou histórico de pancreatite.
5-Efeitos sobre a Perda de Peso: a semaglutida utilizada sem necessidade médica faz o organismo perder peso de forma perigosa e ocasionando efeitos adversos significativos, como desnutrição, desequilíbrios eletrolíticos e problemas cardíacos.
6-Dependência e Uso Excessivo: O uso não prescrito e monitorado pelo médico desses medicamentos, pode se transformar em utilização excessiva com padrões de dependência.
Vida Saudável
Vamos caminhar? Fumar nunca! Beber só com moderação! Preciso tirar o açúcar da minha vida! Vamos de bike? Que tal um corridinha no calçadão? Desliga esse celular!
Essas são apenas algumas das atitudes que podem nos trazer inúmeros benefícios para a preservação do bem estar físico e mental.
Claro que os medicamentos descritos são muito benvindos quando o assunto é tratamento da diabetes ou da obesidade, duas das principais doenças dos tempos modernos.
Mas a utilização da semaglutida sem necessidade pode levar o usuário ao outro lado do espectro, com outros tipos de malefícios, muitas vezes apenas para atender uma demanda fantasiosa que valoriza apenas padrões estéticos insustentáveis.
Leia também:
1-https://pharmacia.pensoft.net/article/104481/ (acesso em julho de 2024).
2-https://g1.globo.com/saude/noticia/2024/03/26/ozempic-como-funciona-quais-os-efeitos-colaterais-e-os-relatos-de-quem-usou-o-remedio-para-emagrecer.ghtml (acesso em julho de 2024).
3-https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/01/03/semaglutida-anvisa-aprova-injecao-para-tratar-obesidade.ghtml (acesso em julho de 2024).
4-https://falandofarmacologia.ufms.br/semaglutida-e-aprovada-pela-anvisa-para-o-controle-da-obesidade/ (acesso em julho de 2024).
5-https://jornal.usp.br/podcast/pilula-farmaceutica-139-uso-indevido-do-ozempic-para-o-emagrecimento/#:~:text=%E2%80%9COs%20riscos%20do%20uso%20indevido,%C3%A0%20obesidade%20est%C3%A1%20sendo%20estudada. (acesso em julho de 2024).
Você já ouviu falar no "número de Dunbar"? Bem, nem todos conhecem! Mas provavelmente muitos conhecem a anedota "quantidade é inversamente proporcional à qualidade", não é?
O número de Dunbar é a hipótese proposta pelo antropólogo e psicólogo evolutivo britânico Robin Dunbar, que defende que o cérebro humano, selecionado ao longo da evolução, consegue estabelecer um número limite de relacionamentos significativos com outras pessoas. Esse número gira em torno de 150.
Até 150 relações significativas! Até 150 pessoas realmente importantes!
Passou desse número, nosso cérebro tem dificuldade de "processar" respostas emocionais e vínculos afetivos realmente significativos. Será?
De onde Dunbar tirou o número "150"?
Bem, da ciência!
A hipótese formulada por Dunbar sobre o tal "número de Dunbar" baseou-se em uma possível relação entre o tamanho do neocórtex humano e dos primatas em geral (região cerebral ligada à cognição e linguagem) com o tamanho médio dos grupos sociais em que vivem os primatas. O cerne central dessa relação parece ser bem lógica e direta: "primatas com neocórtex maior tendem a viver em grupos sociais maiores".
Ao extrapolar essas observações para os seres humanos, Dunbar sugeriu que, com base no tamanho médio do neocórtex humano, o número máximo de relacionamentos sociais estáveis que uma pessoa pode manter é de cerca de 150.
Dunbar também levou em consideração vários outros fatores, entre eles o comportamento social de 38 gêneros diferentes de primatas e as organizações sociais humanas desde de o período Neolítico. Considerou evidências antropológicas e históricas sobre as diversas estruturas de grupos sociais em comunidades humanas e observou padrões em relação ao tamanho médio desses grupos.
Robin Dunbar é Atualmente é chefe do Grupo de Pesquisa em Neurociência Social e Evolutiva do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford.
Segundo o cientista britânico, em muitas sociedades humanas, as comunidades costumavam se organizar em grupos de até aproximadamente 150 pessoas para realizar trabalhos importantes. Ele encontrou evidências históricas de tais estruturas sociais em tribos, clãs, comunidades religiosas e outros grupos humanos. Essas observações históricas e antropológicas forneceram suporte adicional a sua hipótese de que há um limite cognitivo para o número de relacionamentos sociais significativos que um indivíduo pode manter.
Bem, mas talvez você esteja se perguntando: "e se uma pessoa vive em comunidades constituídas por mais de 150 pessoas"?
Então! Segundo Dunbar, há implicações significativas para as pessoas que convivem em grupos maiores que 150 pessoas. Ele sugeriu que, à medida que os grupos sociais crescem além desse limite, poderão surgir desafios no gerenciamento de relacionamentos significativos, entre eles:
1-Dificuldade de Manter Relacionamentos Próximos: à medida que os grupos sociais se tornam muito grandes, as interações e relações pessoais tendem a se tornar mais superficiais. Manter relacionamentos profundos e significativos com um grande número de pessoas torna-se cada vez mais desafiador.
2-Complexidade na Comunicação e Coordenação: grupos muito grandes podem enfrentar dificuldades na comunicação eficaz e na coordenação de atividades. Dunbar sugere que a capacidade de manter um consenso e uma coesão eficientes torna-se mais difícil à medida que o grupo cresce.
3-Dificuldade em Manter a Cooperação Social: a cooperação social eficaz pode ser mais difícil em grupos muito grandes. Dunbar aponta que a confiança e a cooperação são fundamentais para o funcionamento harmonioso de grupos sociais, e esses aspectos podem ser comprometidos em comunidades muito extensas.
4-Desafios na Manutenção de uma Identidade de Grupo Forte: grupos sociais menores podem ser mais eficientes na promoção de uma identidade coletiva e de um sentido de pertencimento. Em grupos muito grandes, a coesão e a identidade compartilhada podem ser mais difíceis de manter.
Dunbar idealizou "círculos hierárquicos" para as relações humanas. O círculo mais restrito tem apenas 5 pessoas, geralmente entes queridos. Depois, seguem as outras camadas circulares sucessivas de relacionamento na seguinte ordem hierárquica de significância: "15 bons amigos", "50 amigos", "150 contatos significativos", "500 conhecidos" e "1.500 pessoas com algum reconhecimento". As pessoas podem migrar para dentro e para fora destas camadas, mas a ideia é que seja necessário criar espaço para quaisquer novos participantes.
Mas muita calma nessa hora!
Embora a hipótese de Dunbar forneça uma perspectiva interessante sobre a dinâmica dos grupos sociais e de suas limitações cognitivas baseadas em evidências científicas, a maioria dos especialistas diz que o número "150" é uma generalização, pois a capacidade de gerenciar grupos sociais varia de pessoa para pessoa e de cultura para cultura.
As Redes Sociais
Dunbar, assim como outros cientistas, chamaram a atenção para as implicações da hipótese de Dumbar não só para as relações humanas do mundo físico, mas também no "universo virtual", aquele das redes sociais.
Em plataformas de redes sociais online, tais como Facebook, Twitter e outras, as pessoas muitas vezes têm uma quantidade muito maior de "amigos" ou "seguidores" do que seria possível manter como relacionamentos significativos na vida offline, na vida real. Muitas dessas conexões online tendem a ser mais superficiais.
Ora, claro que as redes socias fizeram uma verdadeira revolução nas comunicação, mas não necessariamente na "qualidade" dos relacionamentos humanos. Na verdade, segundo muitos especialistas em comportamento humano, na prática as redes sociais transformaram a comunicação e a interações humanas mais superficiais.
Embora a hipótese de Dunbar não tenha sido desenvolvida especificamente para explicar as dinâmicas das redes sociais online, muitos pesquisadores e observadores exploraram sua aplicação a esses contextos, fornecendo insights sobre como as pessoas interagem e mantêm relacionamentos em ambientes digitais.
Segundo Dunbar, as redes sociais trazem novos seguidores localizados em novos círculos hierárquicos de relacionamento mais distantes daquelas primeiras camadas mais essenciais que contemplam os 150 relacionamentos. Maior parte dos seguidores não representa um relacionamento próximo e significativo.
No universo online, as "relações cara a cara", as informações sensoriais não verbais, tais como o olhar, o cheiro, o calor, a expressão facial e a linguagem corporal inexistem. O cérebro primata foi concebido evolutivamente para estabelecer algum vínculo afetivo significativamente importante por meio dessa aparelhagem sensorial. " Quando precisamos de um amigo, é extremamente difícil chorar em um ombro virtual", disse Dunbar.
A Superpopulação Mundial e a Hipótese de Dunbar
Vivemos um "boom" populacional humano; 8 bilhões de pessoas vivendo na Terra. Estima-se que cerca de 5 bilhões têm acesso à internet. Falar sobre como toda essa gente impacta os recursos naturais do planeta geraria uma outra longa postagem aqui no tumblr, mas vamos focar apenas nas relações humanas desse "mundaréu de gente". Afinal, existem muitos estudos científicos que relacionam diversos distúrbios de saúde física e mental com a elevada densidade populacional, dependendo do contexto cultural e das condições socioeconômicas.
Alguns estudos sugerem que a superpopulação em áreas urbanas densamente povoadas pode estar associada aos níveis elevados de estresse, ansiedade e transtornos do humor. A falta de espaço, privacidade e uma maior exposição a estímulos urbanos podem contribuir para esses efeitos. Vale ressaltar que em ambientes densamente povoados, a disseminação de doenças infecciosas é muito maior também
Quando aplicamos a hipótese de Dunbar a ambientes altamente povoados, como grandes cidades ou áreas urbanas densamente habitadas, surgem reflexões importantes sobre como as pessoas gerenciam seus relacionamentos em meio a uma grande variedade de rostos e interações diárias.
Em São Paulo, em Nova York, na Cidade do México, em Tóquio, assim como outros grande centros urbanos, temos milhões de pessoas compartilhando os mesmos espaços , e as interações diárias podem envolver uma diversidade de faces desconhecidas. Nesse contexto, a hipótese de Dunbar nos leva a refletir sobre as possíveis consequências desse excesso de estímulos sociais.
Ora, sejamos honestos! Em ambientes altamente povoados, maior parte dos relacionamentos tende a se tornar superficial. À medida que o número de interações aumenta, a profundidade emocional de cada conexão pode diminuir, tornando desafiador cultivar relações verdadeiramente íntimas. A abundância de rostos e interações em ambientes urbanos pode levar à fadiga social. O cérebro humano pode enfrentar dificuldades em processar e assimilar um grande volume de informações sociais, levando a uma sensação de sobrecarga e exaustão social.
A coesão social em ambientes altamente povoados é muito mais difícil. Manter um senso de comunidade e identidade coletiva nesse contexto pode ser prejudicado quando o número de interações ultrapassa a capacidade do cérebro humano em gerenciar relações profundas e significativas. Isso ai é "dois palitos" para que as cidades densamente povoadas se tornem uma "bomba relógio" de cidadãos que sofrem de depressão, ansiedade ou outros transtornos.
Talvez um dos grande desafios dos novos tempos, principalmente nas comunidades densamente povoadas, seja construir tanto no mundo offline como no mundo online relações humanas realmente significativas, para que nós não percamos a essência que nos torna realmente felizes e dotados de saúde física e mental.
Leia também:
1-https://www.bbc.com/future/article/20191001-dunbars-number-why-we-can-only-maintain-150-relationships#:~:text=The%20theory%20of%20Dunbar's%20number,today's%20world%20of%20social%20media%3F (acesso em 20 de janeiro de 2024).
2-https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/11/25/teoria-de-dunbar-somos-mesmo-incapazes-de-ter-mais-de-150-amigos.ghtml (acesso em 21 de janeiro)
E dormir no horário certo, sem interrupções, é essencial para a homeostase corporal.
Fortalecimento do sistema imunológico, reparação de tecidos, crescimento da massa muscular, regulação das funções cardíacas e da pressão arterial. Tudo isso é muito importante para o nosso equilíbrio físico e mental, não é mesmo?
Pois é, mas você sabe quando esse "pit stop" fisiológico ocorre? Quando dormimos e dormimos bem!
Você já passou por "noites mal dormidas"? Se sim, então você conhece as consequências fisiológicas resultantes de uma noite mal dormida. No dia seguinte, mesmo sob a luz do sol, ficamos sonolentos, com a cabeça pesada, o estudo (ou trabalho) não rende e o humor fica péssimo.
E é pelo chamado ciclo circadiano (do latim: "circa" = cerca de ; "diem"= dia), que nosso organismo mantém a homeostase ao longo das vinte quatro horas, comportando-se fisiologicamente durante dia de um jeito e durante a noite de outro.
Geralmente, durante o dia nosso metabolismo aumenta, a atividade cerebral se intensifica, assim como a disposição física. De dia, a temperatura corporal média oscila entre 36,5 e 37,5ºC.
Ao anoitecer, nosso corpo se prepara para um "descanso fisiológico merecido", para uma espécie de "reorganização metabólica". Nosso metabolismo tende a cair durante o meio da noite, nossa temperatura corporal média oscila entre 35,5 e 36,5ºC, as atividades mentais diminuem e aí pegamos nos sono! Tudo bem, porque é hora de descansar!
O ciclo circadiano é mantido por um mecanismo de feedback complexo envolvendo diversos hormônios, mas principalmente a melatonina (produzida pela glândula pineal) e o cortisol (produzido pelo córtex das glândulas suprarrenais).
Vamos começar pela noite. Quando o relógio marca um horário entre 20 e 22 horas, a glândula pineal (localizada no centro do cérebro entre os dois hemisférios) passa a liberar melatonina na corrente sanguínea. Durante a menor intensidade luminosa do período noturno, a retina (no fundo do olho) envia sinais nervosos (pelo nervo óptico) ao núcleo supraquiasmático localizado no hipotálamo. Por uma complexa rede neural, o núcleo supraquiasmático passa a estimular a glândula pineal, que por sua vez passa a liberar no sangue grandes quantidades do hormônio melatonina.
A melatonina provoca os seguintes efeitos no organismo:
Diminuição da atividade cerebral induzindo ao sono.
Inibição das suprarrenais, que passam a liberar pouco hormônio cortisol na corrente sanguínea.
Queda do metabolismo e da temperatura corporal.
Entre 22h e 02 da madrugada, os níveis de cortisol no sangue ficam mínimos. Isso significa menor gliconeogênese (formação de glicose a partir de gordura ou proteínas). Com menos glicose no sangue, o metabolismo energético diminui, porém em nível suficiente para atender à baixa demanda metabólica do momento.
Repare que durante a noite a melatonina aumenta e o cortisol diminui. Na prática, essas variações hormonais induzem ao sono e reduzem a taxa metabólica. No entanto, durante o sono, a "equipe de manutenção (enzimas e outros hormônios)" está trabalhando silenciosamente na reconstrução de tecidos, na produção de substâncias essenciais e no fortalecimento das funções vitais.
Afinal de contas, amanhã é outro dia!
Exposta à luz (especialmente sob a chamada luz azul), a retina passa a enviar outros tipos de sinais nervosos ao núcleo supraquiasmático, fazendo com que as conexões neurais dessa estrutura passem a inibir a produção de melatonina pela glândula pineal, especialmente entre 06 e 08 da manhã. A princípio, nesse horário o cérebro está despertando, enquanto que o sono está diminuindo. É hora de acordar!
Há algum tempo aqui em São Paulo, o paulistano que saia cedo para trabalhar escutava numa rádio local (na época imparcial) uma musiquinha famosa que dizia assim: "vambora, vambora, olha hora vambora, vamobora". De forma parecida com a musiquinha, a redução da melatonina de dia provoca em nosso cérebro um maior estado de atenção.
Entre 08 e 10h da manhã, o cortisol assume o controle metabólico, e passa a ser mais intensamente liberado pelas suprarrenais. O resultado disso são as maiores taxas de gliconeogênese e de glicemia para atender às maiores taxas metabólicas do período diurno.
Repare que de dia a melatonina diminui enquanto que o cortisol aumenta. Se você preferir, podemos afirmar de uma forma mais poética que "na escuridão reina a melatonina enquanto que sob a luz, reina o cortisol".
Uso de Celular Antes de Dormir
Você utiliza muito celular durante a noite, antes de dormir? Bem, ocorre que algumas pesquisas científicas sugerem que o uso do smartphone pode levar à alteração na secreção hormonal de melatonina e bagunçar o ciclo circadiano. Isso faz mal à saúde!
Publicada na Revista de Medicina da USP, uma pesquisa sobre o assunto tinha como objetivo verificar alterações na qualidade e duração do sono, assim como na sonolência diurna após abstenção do uso de smartphone próximo ao horário de dormir. A estratégia foi aplicar questionários, testes e estatísticas em estudantes de medicina voluntários, na faixa de idade entre 17 e 40 anos. Os resultados dessa pesquisa apontaram para o perfil sociodemográfico da amostra dos 76 estudantes:
93% dos alunos voluntários mantinham o celular próximo de si.
76% dos alunos utilizavam o celular mesmo já na cama.
68% dos alunos acordavam em caso do celular tocar.
79% dos alunos utilizam o celular por pelo menos 15 minutos após se deitar.
As pesquisadoras que publicaram o artigo associam o uso frequente de celular principalmente no período noturno antes de dormir a um grande fator desencadeador de estresse ocasionado pela diminuição da produção de melatonina.
Segundo as pesquisadoras, a adoção de hábitos que melhorem o descanso noturno, como a restrição do uso de celular antes de dormir, aumentam a disposição diária e diminuem os indicativos de estresse. "Definitivamente, celular e sono não combinam", elas disseram.
Picaretagem Comercial?
A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ainda não autoriza o uso de melatonina como medicamento, mas apenas como suplemento alimentar destinado exclusivamente a pessoas com idade igual ou maior que 19 anos e para o consumo diário máximo de 0,21 mg. A ANVISA ainda determina que os suplementos de melatonina deverão conter advertência de que o produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes, crianças e pessoas envolvidas em atividades que requerem atenção constante.
No entanto, desde 2017, a empresa do setor farmacêutico Active Pharmaceutica Ltda, após vencer ação contra a ANIVISA, importa e comercializa melatonina para as chamadas "farmácias de manipulação". Alguns consumidores estão adquirindo facilmente melatonina, inclusive com receita médica, nas farmácias de manipulação.
A utilização da melatonina para fins terapêuticos carece de comprovação científica, mesmo assim, a indústria farmacêutica vende o produto alegando que a melatonina combate ansiedade, insônia e obesidade (a melatonina indiretamente age no cérebro reduzindo a fome).
Médicos especialistas advertem, no entanto, que a ingestão de cápsulas contendo melatonina de forma descontrolada e fora do horário da produção natural pelo organismo, pode desencadear doenças crônicas, como diabetes. Segundo José Cipolla Neto, professor de fisiologia no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e pesquisador sobre os efeitos fisiológicos e mecanismos de ação da melatonina, "a quantidade de melatonina que precisa ser administrada para o paciente no começo da noite não pode ser grande o suficiente para permanecer (no organismo) durante o dia. Do contrário, pode trazer resistência insulínica pela manhã para o indivíduo, o que significa iniciar o desenvolvimento de um quadro diabético".
Além disso, a utilização inadvertida de melatonina pode trazer dores de cabeça, sonolência durante o dia, tonturas, náuseas, dor abdominal e irritabilidade.
Estudos sugerem que para os mais idosos, a melatonina poderia ter utilidade terapêutica mais significativa, uma vez que a produção desse hormônio sofre redução com o passar da idade.
O fato é que a maioria das pessoas já nasceu com uma maquinaria bioquímica capaz de manter o corpo humano em harmonia com a natureza, de acordo com o ritmo natural do dia e da noite, conforme as premissas do ciclo circadiano. Produzimos melatonina e cortisol na hora certa, e também no momento certo, nosso organismo reduz a produção desses hormônios tão importantes. Essa oscilação hormonal nos traz equilíbrio físico e mental.
Não seria mais importante adotarmos um modo de vida que não interfira de forma bombástica nesse ciclo?
Ignorar o ciclo circadiano e terceirizar a melatonina sem necessidade, talvez até atenda aos anseios da indústria farmacêutica, mas certamente, trará riscos desnecessários à saúde.
Leia também:
1- Uso de celular antes de dormir pode retardar a sensação de sono – Jornal da USP (acesso em 25 de julho de 2023).
2-Vista do Relação entre uso do telefone celular antes de dormir, qualidade do sono e sonolência diurna (usp.br) (acesso em 25 de julho de 2023).
3-Especialista alerta para consumo excessivo e desregulado de melatonina no Brasil - BBC News Brasil (acesso em 25 de julho de 2023).
4-http://www.planetabio.com/circadiano.html (lição do ciclo circadiano do planetaBio)
5- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/anvisa-autoriza-a-melatonina-na-forma-de-suplemento-alimentar (acesso em 25 de julho de 2023)
6-https://revistapesquisa.fapesp.br/uma-conexao-entre-o-sono-e-a-fome/#:~:text=N%C3%ADveis%20mais%20altos%20de%20melatonina,energia%20pelo%20tecido%20adiposo%20marrom. (acesso em 25 de julho de 2023).
7-Pílula Farmacêutica #107: Suplementação inadequada de melatonina pode causar dores de cabeça, tonturas e irritabilidade – Jornal da USP (acesso em 25 de julho de 2023).
Telômeros são as "pontas" dos cromossomos que protegem o material genético e modulam a longevidade das células.
Há tempos, os alquimistas acreditavam na existência de um elixir da juventude, que supostamente se encontrava no chamado ouro potável, cujas propriedades permitiriam a cura e a regeneração do organismo, prolongando a vida. Na alquimia, o ouro era considerado um metal puro e perfeito, associado ao sol e à imortalidade.
Acredita-se que o ouro potável, por ser uma forma mais refinada e purificada de ouro, poderia transmitir essas propriedades aos humanos, proporcionando-lhes juventude eterna.
Nessa mesma linha de pensamento, alguns filósofos antigos acreditavam em um suposto elixir da longa vida, também conhecido como a água dos filósofos, que traria longevidade aos seus consumidores. Na Bíblia, inclusive, o precioso elixir foi referido como "a água da vida".
Mas histórias a parte, o fato é que nunca ninguém conseguiu produzir até o momento um elixir da longa vida, talvez porque o segredo dessa longevidade esteja muito perto. Dentro de nós!
Os telômeros são formados por sequências repetitivas de bases nitrogenadas de DNA (TTAGGG) localizadas nas extremidades dos cromossomos. Essas sequências repetitivas de nucleotídeos atuam como "capas protetoras" do material genético localizado no restante do cromossomo, desempenhando papel importante na estabilidade e segurança dos genes durante a divisão celular (mitose), assim como na "regulação" da longevidade das células.
À medida que as células se replicam por mitose ao longo do tempo, os telômeros tendem a encurtar gradualmente. Isso ocorre porque antes da mitose, mais precisamente na fase S da intérfase , a DNA polimerase (enzima responsável pela replicação do DNA), não consegue completar a replicação até o final do cromossomo. Como resultado, as extremidades dos cromossomos são gradualmente perdidas a cada ciclo celular (são perdidos de 50 a 100 nucleotídeos a cada divisão celular).
Quando os telômeros se tornam muito curtos, as células podem entrar em senescência (um estado de parada do crescimento) ou sofrer apoptose (morte celular programada). Estudos científicos demonstraram que o encurtamento dos telômeros está relacionado ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças associadas à idade.
As células-tronco e certas células do sistema imunológico, no entanto, são dotadas de telomerase, uma enzima que pode "regenerar" os telômeros mantendo a integridade dos cromossomos nessas células. A telomerase adiciona sequências repetitivas de DNA às extremidades dos cromossomos, compensando o encurtamento natural que ocorre durante a replicação do DNA.
A atividade da telomerase é geralmente alta em células-tronco embrionárias, permitindo que elas permaneçam com telômeros longos. Assim, as células-tronco embrionárias preservam a capacidade de se dividirem e se diferenciarem em diferentes tipos de células. Já as células-tronco adultas e principalmente as células permanentes diferenciadas apresentam níveis menores de telomerase quando comparadas às células´ embrionárias.
Diversos estudos científicos demonstraram que o encurtamento dos telômeros ao longo do tempo está também indiretamente relacionado ao desenvolvimento de algumas doenças, entre elas:
Doenças cardiovasculares: o encurtamento dos telômeros tem sido associado a um maior risco de doenças cardiovasculares, como doença arterial coronariana, hipertensão arterial e acidente vascular cerebral.
Câncer: telômeros mais curtos estão frequentemente presentes em células cancerígenas. O encurtamento dos telômeros pode levar a instabilidade genômica, o que favorece a ocorrência de mutações que contribuem para o desenvolvimento do câncer.
Doenças pulmonares: pacientes com doenças pulmonares crônicas, como fibrose pulmonar idiopática e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), geralmente apresentam telômeros mais curtos em suas células pulmonares.
Doenças neurodegenerativas: há evidências sugerindo que o encurtamento dos telômeros pode estar envolvido em doenças neurodegenerativas, como doença de Alzheimer, doença de Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA).
Síndromes genéticas: certas síndromes (raras) estão associadas ao encurtamento dos telômeros, tais a Síndrome de Werner, a Síndrome de disqueratose congênita e a Síndrome de Bloom.
Recentemente, pesquisadores da USP verificaram que animais com carência da enzima telomerase nas células-tronco da medula óssea geram número insuficiente de células de defesa (leucócitos), ou geram células de defesa menos eficazes, além de problemas no fígado. Linhas de pesquisa em outras universidades espalhadas nos Estados Unidos e Europa apontam que a diminuição da atividade da telomerase nas células-tronco da medula óssea pode ter consequências negativas, tais como:
Envelhecimento do sistema hematopoiético: com o encurtamento dos telômeros nas células-tronco da medula óssea ao longo do tempo, as capacidades de autorrenovação e de diferenciação em células sanguíneas diminuem. Isso pode contribuir para o envelhecimento do sistema hematopoiético e para o desenvolvimento de doenças relacionadas à idade, como a anemia.
Aumento do risco de doenças hematológicas: a diminuição da telomerase nas células-tronco da medula óssea pode estar associada a um maior risco de desenvolvimento de certas doenças hematológicas, como a Síndrome Mielodisplásica (SMD) e a leucemia mieloide aguda (LMA).
Disfunção imunológica: a diminuição da atividade da telomerase pode afetar a capacidade das células-tronco da medula óssea de produzir células do sistema imunológico (leucócitos). Isso pode resultar em uma diminuição da resposta imunológica eficiente e em aumento da suscetibilidade a infecções e doenças relacionadas ao sistema imunológico.
No entanto, é importante ressaltar que a relação causal direta entre a diminuição da telomerase nas células-tronco da medula óssea e o desenvolvimento de doenças ainda precisa ser completamente esclarecida.
Pesquisadores da University College de Londres, no Reino Unido, liderados pelo Dr. Alessio Lanna, acenaram com um método preventivo promissor contra o envelhecimento do sistema imunológico. Esses cientistas descobriram que no combate a determinados agentes invasores, determinadas células do sistema imunológico (macrófagos e células dendríticas) podem "transferir telômeros" para os chamados linfócitos T (células de defesa fundamentais) por meio de vesículas membranosas extracelulares. Essa transferência resulta em aumento do comprimento de determinados telômeros dos linfócitos T em até 30 vezes mais que a ação da enzima telomerase.
Após a incrível descoberta, a equipe da University College passou a investigar e a purificar as vesículas carregadas de telômeros. A ideia é tentar adicioná-las aos linfócitos T para aumentar a longevidade dessas células em estado natural, independentemente da ocorrência de uma infecção. No decorrer da pesquisa, os cientistas concluíram que as vesículas membranosas carregadas de telômeros poderiam ser administradas com sucesso, por exemplo, quando combinadas com uma vacina, de modo a prolongar a duração da resposta imunológica do imunizante.
Mas será que, em tese, seria possível aplicar para fins preventivos ou regenerativos a enzima telomerase nas células de algum paciente?
Bem, sim!
Mas o fato é que ainda não há relatos de ensaios clínicos que utilizaram essa abordagem, afinal mexer com telomerase e telômeros não é tão simples assim!
A aplicação da telomerase como uma abordagem terapêutica ainda é uma área de pesquisa em andamento. É verdade que teoricamente a aplicação ou a ativação da enzima telomerase poderia prolongar a vida útil das células e retardar o encurtamento dos telômeros, reduzindo os efeitos do envelhecimento e prevenindo certas doenças associadas ao encurtamento dos telômeros.
Só que a utilização indiscriminada da telomerase poderia também resultar em efeitos negativos à saúde, pois sabe-se que algumas células cancerígenas são capazes de ativar mecanismos que preservam os telômeros, permitindo que continuem se dividindo indefinidamente. Esses mecanismos incluem a ativação da enzima telomerase. Nesse caso, adicionar telomerase extra poderia significar "apagar o fogo com gasolina", isto é, estimular a atividade da telomerase em células normais também poderia aumentar o risco do desenvolvimento de tumores.
No entanto, a pesquisa sobre a manipulação da telomerase e da extensão dos telômeros continua em andamento, e várias abordagens estão sendo exploradas para o desenvolvimento de tratamentos potenciais.
Tudo é recente! A descoberta dos telômeros e a relação deles com o envelhecimento ocorreu na década de 1970. Os cientistas Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak foram premiados com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2009 pela descoberta da telomerase e do papel dos telômeros na proteção do material genético. Desde então, muitas pesquisas estão sendo financiadas para entender melhor a função dos telômeros e da telomerase.
Embora ainda haja muito a aprender sobre telômeros e telomerase, avanços na tecnologia permitirão melhor entendimento sobre os impactos desses elementos à saúde humana.
O que acontecerá nas relações humanas, o dia em que a ciência mostrar formas seguras e eficazes das células preservarem seus telômeros? Envelheceríamos de forma mais lenta? Nesse caso, o sonho dos alquimistas seria alcançado? O que viria depois?
Leia também:
1-https://jornal.usp.br/ciencias/cientistas-descobrem-efeitos-importantes-da-doenca-dos-telomeros-no-sistema-imunologico/ (acesso em 06 de julho de 2023)
2-https://www.scielo.br/j/rbhh/a/rrjrCBxN8KFgtKh8FmccNwG/?lang=pt (acesso em 06 de julho de 2023)
3-https://oglobo.globo.com/saude/medicina/noticia/2022/09/longevidade-descoberto-mecanismo-que-retarda-envelhecimento-do-sistema-imunologico-mostra-estudo-da-nature.ghtml (acesso em 06 de julho de 2023)
4-https://genotipia.com/genetica_medica_news/transferencia-de-telomeros/ (acesso em 06 de julho de 2023)
5-https://www.ucl.ac.uk/news/2022/sep/new-mechanism-extends-life-immune-system?_ga=2.107367938.1640029816.1688673765-1213671299.1688673765 (acesso em 06 de julho de 2023)
6-https://sentcell.life/about/ (acesso em 06 de julho de 2023)
7-https://www.nature.com/articles/s41423-022-00949-z (acesso em 06 de julho de 2023)
8-https://www.ucl.ac.uk/news/2022/sep/new-mechanism-extends-life-immune-system (06 de julho de 2023)
A visão do colonizador que se transformou (sem querer) em uma linda história de amor
Quem nunca ouviu falar na história de Tarzan e Jane?
É, mas a história parece ter nascido no "mar de lamas" da visão do supremacista branco europeu.
Em 1912, o estadunidense Edgar Rice Burroughs (1875-1950) publicou a primeira série do romance de sucesso Tarzan of the Apes (Tarzan, o filho das Selvas) na All-Story Magazine. A história de Tarzan é tão surpreendente que desde aquela época diversas versões foram publicadas em quadrinhos, revistas, séries de TV, animações e cinema.
No romance original de Burroughs, Tarzan é o filho de John Clayton e Alice Clayton, um casal britânico que naufragou na costa oeste da África e que passou a tentar sobreviver às condições locais. Mas em certo dia, os pais de Tarzan foram atacados e mortos por Kerchak, o líder dos "grandes macacos". O bebê Tarzan foi adotado e criado por Kala, uma macaca que lhe ensinou habilidades físicas sobre-humanas.
Graças à Kala e aos outros macacos do grupo, Tarzan aprendeu a se mover rapidamente pelas árvores, a se comunicar com outros animais selvagens e a lutar contra poderosos predadores.
Certa vez, supostamente já adulto, Tarzan encontrou Jane Porter, uma exploradora estadunidense que pesquisa a vida na selva africana, junto com o seu pai, o Professor Archimedes Q. Porter. No romance original de Burroughs, Jane é retratada como uma personagem compassiva e empática.
Um momento marcante do romance original, é quando Jane vê Tarzan pela primeira vez na selva. Ela foi capaz de superar o choque inicial de encontrar um homem selvagem e desconhecido e se aproximou dele com curiosidade e empatia.
Mas em qual contexto geopolítico nasceu a história de Tarzan idealizada por Burroughs?
É importante observar que na época em que o romance original de Tarzan foi escrito (1912), havia uma prevalência de atitudes e crenças colonialistas que sustentavam a ideia de superioridade europeia sobre os povos africanos e outras culturas consideradas "não ocidentais". Essas visões coloniais frequentemente retratavam os europeus como civilizados, avançados e superiores, ao mesmo tempo que descreviam os povos indígenas e africanos como selvagens, primitivos e inferiores. Essa mentalidade estava enraizada em noções de supremacia racial e cultural.
Embora Tarzan seja um personagem excepcional que se destaca tanto entre os europeus quanto entre os nativos da selva, a narrativa original de Burroughs mostra-se impregnada de percepções coloniais da época. O protagonismo de Tarzan e sua habilidade superior na selva podem ser interpretados como uma reafirmação dessas noções de superioridade europeia, apesar de ele ter sido criado por macacos.
Alguns romancistas afirmam que Burroughs não descreveu com tanta ênfase o amores improváveis entre uma mãe-macaca e um bebê humano, ou entre uma mulher civilizada e um homem notadamente selvagem.
O foco da história original foi outro!
Burroughs talvez tenha sido mais enfático na descrição das incríveis habilidades de um homem branco e de como ele conseguiu superar seus problemas, em um cenário selvagem, impregnado de nativos primitivos. Vale ressaltar que nas primeiras décadas do século XX (época em que as diversas histórias de Tarzan "bombavam" nas livrarias e até nos cinemas) algumas representações literais e culturais traziam traços racistas como:
Salvagismo e primitivismo: muitas vezes, os povos africanos eram retratados como selvagens, primitivos e menos desenvolvidos em comparação aos europeus. Eles eram frequentemente mostrados como sendo mais próximos da natureza e menos "civilizados" do que os europeus.
Exotismo: os povos africanos eram frequentemente retratados como exóticos e diferentes. Suas culturas, aparência física, tradições e costumes eram muitas vezes apresentados como estranhos ou curiosos para os europeus.
Inferioridade: visões raciais prevalentes na época afirmavam a suposta superioridade dos europeus sobre os povos africanos. Isso incluía a crença de que os europeus eram mais inteligentes, avançados e superiores em termos de civilização e cultura.
White Savior Complex (Complexo do Salvador Branco): ideia de que um personagem branco, como Tarzan, poderia ser visto como superior e capaz de salvar ou "civilizar" os povos africanos nativos.
Filme: A Companheira de Tarzan (1934)
Mas o tempo passa, o mundo se transforma, os hábitos também.
Esse Tarzan "gostosão" branco não cola mais e passa um ideia racista que não tem mais cabimento no mundo de hoje (nunca teve em tempo nenhum).
Elementos éticos, ambientalistas e científicos transformaram o romance entre Tarzan e Jane em uma das histórias mais belas de amor. A relação maternal entre a gorila Kala e o bebê Tarzan transmite um sentimento gostoso de respeito à vida selvagem.
Em 1999, a Disney lançou a animação Tarzan que se tornou um estrondoso sucesso de cinema (US$ 448,2 milhões no mundo, tornando-se a quinta maior bilheteria daquele ano).
Ora, vai dizer que você nunca ouviu a canção tema de Tarzan, interpretada por Phil Collins?
Em um cenário que enfatiza a importância da vida selvagem (e de sua preservação), temperada com uma trilha espetacular, Tarzan (da Disney) emociona crianças e adultos com ingredientes que fazem bem para a alma. Ao contrário da obra original, essa versão de Tarzan trabalha muito bem o amor maternal demonstrado pela gorila Kala, assim como enfatiza o inusitado amor entre duas pessoas pertencentes a mundos e hábitos tão diferentes. Que bela animação!
Ainda bem que a história Tarzan mudou!
Mas a história de Tarzan não foi a primeira a descrever bebês humanos criados por outras espécies de animais. Há histórias semelhantes na mitologia e no folclore de diversas culturas.
Uma das mais conhecidas é a lenda de Rômulo e Remo, história mitológica que descreve a fundação da cidade de Roma. Segundo a lenda, Rômulo e Remo eram irmãos gêmeos e filhos do deus Marte (ou Marte) com a princesa Reia Silvia. A história foi registrada por vários escritores antigos, incluindo Tito Lívio, Plutarco e Virgílio, cada um com algumas variações nos detalhes. A narrativa tradicional relata que, após o nascimento, os gêmeos foram abandonados às margens do rio Tibre, onde foram encontrados e amamentados por uma loba. Mais tarde, foram adotados por um pastor chamado Fáustulo e cresceram como pastores. Quando os irmãos se tornaram adultos, eles descobriram sua verdadeira linhagem e decidiram fundar uma cidade no local onde foram encontrados e criados pela loba. No entanto, surgiu um desentendimento entre eles sobre quem seria o governante da cidade. Rômulo matou Remo durante uma disputa, tornando-se assim o primeiro rei de Roma.
Ok, mas e na vida real? Algum bebê humano já foi criado por um animal de outra espécie"?
Bem, existem relatos de casos excepcionais em que bebês humanos foram cuidados por fêmeas de outras espécies. No entanto, essas situações são extremamente raras e geralmente ocorrem em circunstâncias extraordinárias. Talvez o exemplo mais conhecido é o caso de Marina Chapman, uma mulher colombiana que alega ter sido criada por macacos depois de ter sido abandonada na selva quando criança. Segundo seu relato, ela foi acolhida e cuidada por um grupo de macacos, aprendendo a viver e se comunicar com eles até ser encontrada por caçadores e reintegrada à sociedade humana.
Capa do Livro "La niña sin nombre: La increíble historia de una mujer criada por monos (Spanish Edition)"
Outro exemplo envolve a história de uma menina russa chamada Natasha, que supostamente foi cuidada por uma matilha de cães de rua em 2008. Ela teria passado vários anos vivendo com os cães antes de ser resgatada.
Embora esses relatos sejam fascinantes e tenham recebido alguma atenção midiática, é importante observar que eles são casos isolados e muitas vezes carecem de evidências científicas sólidas. O cuidado e a sobrevivência de bebês humanos por outras espécies animais são eventos extremamente raros e não são uma ocorrência comum na vida real.
Por outro lado, embora muito raros, no Reino Animal já foram observados diversos casos de mamães adotando bebês de outra espécie não humanos. Aqui estão alguns exemplos notáveis:
Cães adotando filhotes de outras espécies: os cães têm mostrado comportamento de adoção em relação a filhotes de outras espécies, como gatos, coelhos e até mesmo filhotes de animais selvagens. Em alguns casos, cães têm sido conhecidos por fornecer cuidados maternais e amamentação a filhotes órfãos.
Macacas Rhesus adotando filhotes de outras espécies: em alguns estudos, macacas Rhesus foram observadas adotando filhotes de outras espécies, como cães, gatos e ratos. Esses comportamentos podem ocorrer quando as macacas estão privadas de seus próprios filhotes ou quando têm uma forte motivação materna.
Golfinhos adotando filhotes de outras espécies: há relatos de golfinhos adotando filhotes de baleias órfãs. Os golfinhos demonstram comportamento de proteção e cuidado em relação a esses filhotes desamparados, oferecendo-lhes companhia e apoio social.
Gatos adotando filhotes de outras espécies: gatas domésticas às vezes adotam filhotes de outras espécies, como coelhos, pintinhos ou ratos. Esses casos podem ocorrer quando a gata está em um estado de maternidade e exibe comportamentos de cuidado e proteção.
Gata 'adotou' filhotes de coelhos órfãos em Cuiabá. (Foto: Anne Caroline da Costa)
Mas por que essas adoções interespecíficas raras ocorrem?
Os animais têm instintos maternais direcionados principalmente aos membros de sua própria espécie, porém circunstâncias específicas, como a ausência de seus próprios filhotes, a presença de estímulos maternais fortes e a liberação de hormônios ligados à maternidade (como a oxitocina) podem ocasionar esses comportamentos adotivos em relação a outras espécies.
Galinha que "adotou" os filhotes de cachorro em Jaraguá do Sul (SC) — Foto: (Maristela Klutckowski)
Claro que não podemos "romantizar" esses comportamentos inusitados que eventualmente ocorrem no Reino Animal, mas nós somos humanos e é natural pensar que talvez gestos de amor e empatia observados em muitas espécies, inclusive a nossa, não são apenas resultados de uma sequência de bases nitrogenadas e das reações metabólicas decorrentes, não é mesmo?
Esperança contra a recaída: vacina anticocaína e anticrack.
Um verdadeiro drama! Talvez esta seja a forma mais branda de descrever o sofrimento dos dependentes e seus familiares na tentativa de se livrar das "garras" da cocaína e drogas derivadas, como o crack.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 18 milhões de pessoas no mundo consomem cocaína. Aproximadamente 25% desses usuários vão se tornar dependentes da droga. O Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.
Claro que a raiz do problema está na produção e tráfico ilegais de cocaína gerenciados por poderosas organizações criminosas. Tentar combater a epidemia de cocaína e de crack nas cidades, na sociedade, nas famílias, sem adotar medidas de combate ao financiamento e à logística do tráfico de drogas é "tapar o sol com a peneira". No entanto, o que queremos aqui é mostrar mais uma promissora medida preventiva contra o consumo de cocaína e derivados.
Muita gente vai dizer ou pensar de forma correta que a educação, o lazer e o esporte, além da convivência harmoniosa entre as pessoas são os principais instrumentos para a prevenção contra o uso de drogas e todo o caminhão de malefícios que elas trazem.
Por sua vez, a ciência está nos mostrando uma outra poderosa arma preventiva contra as drogas: a vacina! Porém, antes de falarmos sobre ela, que tal se déssemos uma lembradinha de como a cocaína age em nosso cérebro?
A cocaína (cloridrato de cocaína) é uma potente droga estimuladora do sistema nervoso central, que bloqueia os canais de recaptação de dopamina (neurotransmissor ligado ao prazer) localizados na membrana plasmática dos neurônios pré-sinápticos. Assim, a cocaína provoca indiretamente "excesso" de dopamina na fenda sináptica, o que significa maior tempo de estimulação dos neurônios pós-sinápticos. Ocorre que todo esse processo é mais frequente nas áreas cerebrais ligadas ao chamado "sistema de recompensa". Nessas áreas, quanto "maior for a presença de cocaína, maior será o tempo de permanência da dopamina, o que resultará em mair sensação de prazer!"
O fato é que o mundo pode parecer "chato" para um usuário de cocaína quando ele não está utilizando a droga. "Dois palitos" para que ele volte a procurar a droga para se sentir "poderoso". Essa é a força motriz da dependência química!
A cocaína dura para sempre no organismo humano? Não, o fígado degrada a cocaína transformando-a em outros metabólitos. Em geral, o cloridrato de cocaína tem meia vida entre 30 e 90 minutos, porém os metabólitos originários da degradação da cocaína podem permanecer no organismo atuando por períodos mais longos.
Claro que o tratamento ideal para diminuir a dependência de cocaína passa pelo não consumo da droga, tarefa nem um pouco simples. Apoio da família, supervisão profissional e modo de vida harmonioso são os alicerces para enfrentar a dependência química.
E sim, é possível se livrar do vício dessa droga!
A ciência acena com grandes possibilidades terapêuticas. Já pensou se, de alguma forma, algum medicamento bloqueasse as recaídas, isto é, a vontade de obter novamente cocaína? A boa notícia é que pesquisadores de vários lugares do mundo, inclusive do Brasil, estão tentando desenvolver uma vacina contra a cocaína e drogas derivadas. Isto é fantástico!
A ideia é "aplicar" um antígeno (no caso seria a união da cocaína com algum tipo de proteína transportadora) no organismo do dependente químico para que ocorra uma resposta imunológica, isto é, a produção de anticorpos específicos contra a cocaína, além de uma memória imunológica por meio da formação de linfócitos de memória.
Nessa perspectiva, o usuário imunizado (vacinado) que tivesse, por alguma razão, uma recaída e que se drogasse, desta vez não sentiria (ou sentiria bem pouco) os efeitos prazerosos da droga, pois seu organismo seria capaz de lançar (ou produzir) anticorpos que se acoplariam à cocaína formando um complexo molecular muito grande, incapaz de transpor a barreira hematoencefálica e produzir algum efeito psicoativo no cérebro.
Bem, talvez você esteja se perguntando: o que é essa tal de barreira hematoencefálica?
Trata-se de uma estrutura formada por células endoteliais (tecido endotelial) que revestem os vasos sanguíneos que irrigam o sistema nervoso central, especialmente o cérebro. As células endoteliais têm alto poder de adesão entre elas, pois são unidas por diferenciações da membrana plasmática que limitam a passagem de moléculas e íons do sangue para o cérebro. Assim, a barreira hematoencefálica protege o cérebro, impedindo que determinadas toxinas e micro-organismos presentes na corrente sanguínea consigam penetrar no sistema nervoso central. A cocaína consegue passar por essa barreira.
Tendo como base a premissa descrita, a vacina anticocaína induz o organismo a produzir anticorpos que se acoplam à cocaína (e proteínas transportadoras) para formar complexos moleculares grandes que não atravessam totalmente a barreira hematoencefálica. Isso é bom, pois em tese a cocaína fica impedida de agir nas áreas cerebrais ligadas ao sistema de recompensa, diminuindo a presença de dopamina na fenda sináptica e limitando a "vontade" de experimentar novamente a droga.
Certo, mais em quais lugares do mundo há cientistas pesquisando a tão promissora vacina anticocaína?
Estados Unidos: universidades e instituições de pesquisa estadunidenses têm realizado estudos e ensaios clínicos para o desenvolvimento de vacinas contra a cocaína, dentre elas: Mayo Clinic, Baylor College of Medicine e Scripps Research.
Europa: países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha, a Suíça e a Espanha, também apresentam instituições de pesquisa envolvidas no desenvolvimento de vacinas contra a cocaína, dentre elas: King's College London e a Universidade de Basileia.
Canadá: a University of British Columbia anunciou linhas de pesquisa nessa área.
China: os chineses investem em pesquisas relacionadas à vacina contra a cocaína, além de outras abordagens terapêuticas para fins preventivos.
Brasil: a gloriosa Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vem desenvolvendo também uma vacina contra a cocaína, utilizando matéria prima importada dos Estados Unidos. Isso ocorre porque, por foça de Lei, é proibida a utilização de cocaína no Brasil, mesmo para finalidade científica.
Assista Jornal Nacional - Entenda como funciona a vacina em desenvolvimento pela UFMG contra dependência de drogas online no Globoplay. Aces
A vacina "mineira" contra a cocaína, batizada de "Calixcoca", demonstrou segurança e eficácia em estudos pré-clínicos com a utilização de animais em laboratório, inclusive mostrou-se segura na gravidez, resultando na produção de uma série de anticorpos que impediram a ação da droga sobre a placenta e fetos de ratas grávidas.
A Calixcoca vem chamando a atenção das autoridades sanitárias. A Prefeitura de São Paulo anunciou ajuda financeira aos pesquisadores mineiros para o desenvolvimento das fases sequentes da produção dessa vacina, inclusive com ensaios em humanos voluntários. Mas até à aprovação da vacina pela ANVISA "tem chão"! Alguns anos ainda serão necessários.
Nem os zumbis, nem os fungos têm consciência do que fazem (ou deixam de fazer).
Espécies de fungos que infectam o sistema nervoso de algumas espécies animais, produzindo nestes mudanças comportamentais, NÃO É FICÇÃO!
Isso existe mesmo!
Um exemplo bem conhecido é o Ophiocordyceps unilateralis, espécie de fungo ascomiceto que infecta os gânglios nervosos de insetos e outros artrópodes, especialmente formigas.
Formigas infectadas por esses fungos comportam-se como se fossem "zumbis". A mudança de comportamento mais notável é o abandono do "lar", o próprio formigueiro, para escalar determinadas espécies de plantas a procura de um lugar com cerca de 25 centímetros de altura. Neste local, as formigas param de se mover e esperam a própria morte. Esporos dos fungos parasitas, liberados pelas hastes que se projetam do corpo dos cadáveres das formigas, são liberados para o ambiente.
Esse comportamento atípico, conhecido como "zumbificação das formigas", é resultado da liberação de substâncias produzidas pelas hifas do Ophiocordyceps unilateralis, que alteram o funcionamento dos gânglios cerebrais localizados na cabeça da formiga.
As hifas do Ophiocordyceps unilateralis projetam-se e espalham-se para as partes internas e externas por meio de diversas ramificações e passam a absorver a matéria orgânica do corpo da vítima zumbificada.
Ao mesmo tempo, copos de frutificação dos fungos, em forma de hastes, se projetam para fora do corpo da formiga. Na ponta dessas hastes, existem estruturas reprodutivas (ascocarpos) que liberam esporos (ascósporos) para o ambiente, facilitando o processo de reprodução e disseminação do Ophiocordyceps unilateralis. Inclusive, é por meio desses esporos que as formigas contaminadas espalham a doença para as outras formigas.
Vale ressaltar, no entanto, que o fungo não tinha "segundas intenções" quanto produziu mudanças de comportamento nas formigas contaminadas. Na verdade, a mudança comportamental das formigas foi selecionada ao longo do tempo por meio de processos evolutivos.
Basicamente, o princípio é "darwinista", isto é, os fungos que provocaram mudanças de comportamento animal que resultavam em maiores chances de sobrevivência para o próprio fungo parasita, foram selecionados positivamente. Assim, ao longo do tempo, o Ophiocordyceps unilateralis foi favorecido porque passou a ter maiores chances de sobrevivência, reprodução e dispersão.
Ora, não foi nada pensado!
Portanto, é incorreto afirmar que o comportamento das formigas infectadas é resultado de uma "manipulação" intencional por parte dos fungos. A interpretação de que a formiga passou a se comportar para atender desejos, aspirações e anseios do fungo é INCORRETA! Essa interpretação seria uma ficção, um devaneio, um roteiro da série The Last of Us!
O Ophiocordyceps unilateralis é um fungo que tem como hospedeiro específico algumas espécies de formigas, principalmente da subfamília Myrmicinae. Dentre as espécies mais frequentemente afetadas pelo Ophiocordyceps unilateralis estão a formiga-cabo-verde (Camponotus fellah), a formiga-cabo-verde-preta (Camponotus pennsylvanicus), a formiga-do-fogo (Solenopsis saevissima) e a formiga-lava-pés (Aphaenogaster senilis).
Embora a maioria dos casos de infecção pelo Ophiocordyceps unilateralis seja observada em formigas, há relatos de outras espécies de insetos que também podem ser afetadas por fungos parasitas semelhantes, como as mariposas da família Geometridae.
E os humanos?
Bem, embora existam fungos parasitas que infectam o sistema nervoso humano, até o momento não há evidências científicas da existência de uma espécie de fungo capaz de produzir mudança comportamental humana significativa.
Por outro lado, sabe-se que infecções fúngicas podem ter efeitos neurológicos em humanos, como ocorre na meningite fúngica, um dos tipos de infecção (não muito comum) que provoca inflamação das meninges.
Enfim, as pobres formigas infectadas podem até ser zumbis, mas não são gado!
Leita também:
1-https://earthsky.org/earth/research-zombie-ant-fungus-doesnt-invade-ants-brains/#:~:text=Bottom%20line%3A%20Ophiocordyceps%20unilateralis%20sensu,ant%20to%20do%20its%20bidding. (acesso em 24/03/2023)
2-https://www.nationalgeographic.com/animals/article/cordyceps-zombie-fungus-takes-over-ants (acesso em 24/03/2023)
3-https://www.npr.org/2023/01/30/1151868673/the-last-of-us-cordyceps-zombie-fungus-real (acesso em 24/03/2023)
4-https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/01/poderia-um-fungo-parasita-evoluir-e-transformar-humanos-em-zumbis (acesso em 24/03/2023)
5-https://www.reed.edu/biology/courses/BIO342/2014_syllabus_old/2014_WEBSITES/khsite/ontogeny.html (acesso em 24/03/2023)
Você quer se transformar em um tubo de ensaio com novas variantes de coronavírus?
Não? Então, vacine-se!
O fato é que há grande probabilidade de surgirem coronavírus mutantes cada vez que eles se reproduzem livremente em uma população com baixa cobertura vacinal, que não adota adequadamente medidas preventivas comprovadamente eficazes, como o uso de máscaras.
É o que vem ocorrendo no Brasil!
Segundo o Ministério da Saúde, a cobertura vacinal em nosso país é baixa quando comparada a outros países. Até o dia 16 de fevereiro de 2023, cerca de 129,5 milhões de pessoas tinham recebido a primeira dose da vacina contra a COVID-19 (60% da população brasileira). Já a segunda dose, foi aplicada em cerca de 86 milhões de pessoas, o que corresponde a aproximadamente 40% da população.
Convenhamos, que várzea!
Por mais que cientistas renomados de todo o mundo, assim como um número altamente expressivo de Universidades e Centros de Pesquisa, além da própria OMS, terem ressaltado a importância da vacinação (comprovadamente eficaz e segura) para a prevenção da COVID-19, parte considerável da população brasileira não foi tomar a vacina.
Por quê?
Ora, você sabe o porquê!
Em alguns lugares não tinha vacina, é verdade. Mas há pessoas que "escolheram" não se vacinar. Que várzea!
Desde o início da pandemia, a população mundial sofreu com a desinformação e com as fake news, muitas delas orquestradas por grupos organizados de negacionistas que, infelizmente, se tornaram por algum tempo, "a voz oficial de desorientação".
Que fase triste de nossa história, mas esperamos que isso tenha passado!
Quando um vírus circula sem controle, ele tem a oportunidade de se replicar e se propagar mais rapidamente. Durante esse processo, é mais provável que ocorram mutações aleatórias no genoma do vírus. Algumas dessas mutações podem tornar os vírus mais transmissíveis, ou mais patogênicos ou, até mesmo, menos suscetíveis às vacinas e tratamentos existentes. Além disso, a baixa cobertura vacinal também pode levar à formação de "pontos cegos" na imunidade da população, ou seja, criar grupos de pessoas não imunizadas que permanecem suscetíveis aos vírus. Nessas pessoas, os vírus podem continuar a se replicar e a evoluir, permitindo que surjam novas variantes do vírus.
Repare que a vacinação, mais que um direito individual, É UM DIREITO COLETIVO!
Em abril de 2022, um estudo brasileiro realizado por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e do Instituto de Química (IQ) da Universidade de São Paulo (USP), além do Hospital Sírio-Libanês, alertou para o surgimento de novas variantes de coronavírus com alta probabilidade de escape do sistema imunológico, fenômeno que será comum nos próximos meses ou anos, no Brasil e no mundo.
Embora o surgimento da variante Ômicron do Sars-CoV 2 não tenha sido resultado apenas de uma baixa cobertura vacinal, acredita-se que a vacinação incompleta tenha favorecido a disseminação dessa variante em algumas regiões do mundo. A variante Ômicron foi identificada pela primeira vez na África do Sul em novembro de 2021 e, desde então, se espalhou rapidamente pelo globo, incluindo países com altas taxas de vacinação. Acredita-se, então, que a variante Ômicron surgiu como resultado de uma série de mutações no genoma do coronavírus, algumas das quais ocorridas em pessoas que não tinham sido vacinadas.
Ok, mas que tipo de mutação do coronavírus poderia complicar para o nosso lado?
Bem, depende!
O estudo realizado pelos pequisadores brasileiros aponta que 9,5% das mutações das novas variantes de coronavírus resultaram em mudanças na região N Terminal [NTD] da glicoproteína spike do coronavírus. Isso não é bom, pois a região NTD da spike é um dos principais alvos dos anticorpos neutralizantes produzidos pelo sistema imunológico em resposta à infecção ou à vacinação. Isso pode tornar a infecção mais difícil de combater e reduzir a eficácia das vacinas e terapias baseadas em anticorpos.
Por exemplo, as variantes Beta (B.1.351) e Gamma (P.1) do Sars-CoV 2 têm mutações na região NTD da glicoproteína spike associadas à redução na eficácia das vacinas e da resposta imunológica humana. Por outro lado, as variantes Alpha (B.1.1.7), Delta (B.1.617.2) e Ômicron (B.1.1.529) têm mutações em outras partes da spike que também podem afetar a resposta imunológica, embora de maneiras diferentes.
Os pesquisadores brasileiros também constataram um número expressivo de mutações (7,7%) na subunidade S1 da glicoproteína spike responsável pela adsorção do coronavírus à membrana plasmática da célula hospedeira. A subunidade 1, que se liga ao receptor de membrana ACE2 (angiotensina 2) da membrana plasmática da célula, é na verdade uma pequena sequência de aminoácidos conhecida como domínio de ligação ao receptor (RBD, do inglês "receptor-binding domain"). A interação (conexão) entre o domínio RBD e a ACE2 é um passo crítico para a infecção, pois permite que o vírus primeiramente se conecte à célula, para depois iniciar os processos de penetração e replicação. Existem mutações que aumentam significativamente a interação entre o domínio RBD e a ACE2, fato que aumenta a probabilidade do coronavírus ser bem-sucedido no processo de invasão celular.
Um exemplo, é uma mutação conhecida como N501Y, que ocorre na região do domínio RBD da spike. Essa mutação, presente em algumas variantes do Sars-CoV 2, incluindo a variante Alpha (B.1.1.7) e a variante Delta (B.1.617.2), aumenta a afinidade da spike pela ACE2. Outra mutação que tem sido associada ao aumento da capacidade de ligação entre a spike e a ACE2 é conhecida como E484K. Essa mutação também ocorre no domínio RBD e foi detectada em várias variantes preocupantes do Sars-CoV 2, incluindo as variantes Beta (B.1.351), Gamma (P.1) e Ômicron (B.1.1.529).
Vale ressaltar que existem ainda mutações que podem levar a um aumento considerável de glicoproteínas spike no envelope viral. Por exemplo, a mutação conhecida como D614G, aumentou a quantidade de glicoproteínas spike na superfície do coronavírus em comparação à linhagem original. Esse tipo de mutação favoreceu a infecção do coronavírus na espécie humana, uma vez que quanto maior for o número de spikes no envelope viral, maior a probabilidade de "encaixe" com o receptor ACE2 da membrana plasmática das células hospedeiras. Alguns cientistas consideram a D614G a mutação chave que possibilitou que as variantes de Sars-Cov 2 se espalhassem com muito mais precisão e rapidez nos humanos do que outros tipos de coronavírus.
Então, fique ligado, pois "dentro nós" (brasileiros com baixa cobertura vacinal) existem variedades de coronavírus mutantes.
E qual mutante tem maior prevalência na população brasileira?
Ora, o coronavírus da variante Delta!
A variante mais predominante no país no início de 2022 é a variante Delta (B.1.617.2), que foi originalmente identificada na Índia em dezembro de 2020, mas que se espalhou para muitos países em todo o mundo. Em relação as outras variantes genéticas de coronavírus que ainda circulam em humanos que habitam solos tupiniquins, a Delta é considerada a mais transmissível e potencialmente a mais resistente à resposta imunológica dos hospedeiros.
Não podemos esquecer que, quando o assunto é virose, o cenário pode mudar à medida que o vírus continuam a evoluir. Portanto, é importante monitorar continuamente a prevalência de diferentes variantes do Sars-CoV 2 em todo o mundo e em diferentes regiões dentro de cada país, a fim de desenvolver estratégias de saúde pública eficazes para controlar a pandemia.
Em uma população vacinada, a probabilidade do vírus evoluir diminui. Ao contrário, em uma população não vacinada ou incompletamente vacinada, humanos se tornam verdadeiros tubos de ensaio ou incubadoras de variedades genéticas de coronavírus, com maior capacidade infecciosa e, até mesmo, mais perigosas.
As vacinas contra a COVID-19 continuam a ser aprimoradas e atualizadas à medida que a pandemia evolui. Algumas mudanças que estão sendo consideradas, ou já implementadas nas vacinas incluem,
1-Formulação de vacinas específicas para novas variantes: algumas empresas farmacêuticas, como a Moderna e a Pfizer/BioNTech, estão desenvolvendo versões atualizadas de suas vacinas que são específicas para as variantes do Sars-CoV 2, incluindo a variante Delta. Essas novas vacinas podem incluir mudanças na sequência de RNA mensageiro (RNAm) usado para codificar a glicoproteína spike, o que possibilitaria melhorar a resposta imunológica contra as variantes.
2-A eficácia das vacinas contra a variante Ômicron ainda está sendo avaliada: há evidências iniciais de que as vacinas podem oferecer algum grau de proteção contra essa variante. No entanto, pode ser necessária a atualização das vacinas para que elas sejam mais específicas para a variante Ômicron, especialmente se ela se tornar a variante dominante. A Pfizer e a Moderna, já anunciaram que estão trabalhando em versões atualizadas de suas vacinas para melhorar a eficácia contra a Ômicron e outras variantes. Além disso, as autoridades de saúde em todo o mundo estão recomendando que as pessoas recebam reforços de vacinas existentes para aumentar a proteção contra todas as variantes do vírus, incluindo a Ômicron.
3-Reforço de vacinas: os reforços de vacinas estão sendo recomendados em muitos países para aumentar a proteção contra o Sars-CoV 2, especialmente em indivíduos de alto risco, como idosos e profissionais de saúde. Os reforços podem consistir em doses adicionais das vacinas já existentes, com ou sem atualizações específicas de variantes.
4-Combinação de vacinas: em alguns casos, as autoridades de saúde estão recomendando a combinação de diferentes tipos de vacinas (por exemplo, uma dose de uma vacina de vetor viral, como a produzida pela FioCruz, seguida por uma dose de uma vacina de RNAm, como a produzida pela Pfizer) para aumentar a proteção e a eficácia contra o coronavírus.
5-Testes de novas vacinas: muitas outras empresas farmacêuticas e centros de pesquisa estão desenvolvendo novas vacinas contra a COVID-19, incluindo vacinas de vírus inativados, vacinas de subunidades proteicas e vacinas de vetores virais diferentes daqueles atualmente em uso. Essas vacinas ainda estão em fase de teste e podem levar algum tempo para serem aprovadas e disponibilizadas para uso em massa.
Em resumo, a pandemia da COVID-19 continua a evoluir e as vacinas contra o coronavírus também estão evoluindo para lidar com novas variantes e desafios. É importante continuar acompanhando as notícias e orientações das autoridades de saúde pública sobre as vacinas contra a COVID-19 para manter-se atualizado sobre as últimas informações.
Que venham mais vacinas!
Leia também:
1-https://agencia.fapesp.br/estudo-aponta-alta-probabilidade-de-surgirem-variantes-mais-perigosas-do-sars-cov-2-nos-proximos-meses/38488/ (acesso em 17 de fevereiro de 2023).
2-https://www.mdpi.com/1999-4915/14/4/827 (acesso em 17 de fevereiro de 2023).
Bem, talvez alguém esteja se perguntando "tem plástico dentro de mim?
TEM Sim!
E em quase tudo e todos, também!
Tartaruga na iminência de engolir uma garrafa pet
Microplásticos (partículas inferiores a 5 mm) e nanoplásticos (partículas inferiores a 0,001 mm) já foram detectados nas fezes e urinas humanas. Também há evidências científicas da presença dessas partículas em diversos órgãos humanos, dentre os quais, fígado, baço, pulmões e rins.
Recentemente, cientistas holandeses coletaram sangue de 22 doadores anônimos. No sangue de 17 desses doadores foram encontradas partículas de micro e nanoplásticos com concentração média de 1,6 microgramas por mililitro (equivalente a uma colher de chá em mil litros de água).
Em outras medições realizadas por cientistas da Universidade do Arizona (EUA), micro e nanoplásticos derivados de diversos tipos de polímeros foram detectados em tecidos humanos, dentre eles policarbonato (PC), tereftalato de polietileno (PET), polietileno (PE) e bisfenol A (BPA).
Tá ok, mas os micros e nanoplásticos podem trazer malefícios à saúde humana?
Bem, embora não se saiba com exatidão de que forma essas partículas interferem no metabolismo celular, é preocupante saber que dentro de nosso organismo existem partículas que não são biodegradáveis. Uma garrafa PET, por exemplo, demora cerca de 500 anos para se degradar na natureza.
Microplásticos acumulados em larva de peixe
Sabe-se que os polímeros plásticos podem se acumular nas mucosas do trato digestivo interferindo no funcionamento do estômago e do intestino delgado, sobretudo na absorção de nutrientes efetuada pelas vilosidades intestinais.
Diversos animais acabam ingerindo macro, micro e nanoplásticos, especialmente animais marinhos e aves aquáticas. Muitas vezes, confundem utensílios plásticos com comida. Tartarugas, peixes, baleias, focas, gaivotas e golfinhos estão entre as principais vítimas de obstrução do tubo digestório por excesso de plástico ingerido.
Outro fato importante que preocupa os cientistas é que alguns tipos de polímeros presentes nos micro e nanoplásticos podem ser degradados por enzimas digestivas com consequente liberação de substâncias potencialmente tóxicas e carcinogênicas.
O bisfenol A, por exemplo, composto utilizado na fabricação de plásticos de policarbonato (chamado de PC), pode causar câncer e mimetizar determinados hormônios sexuais, como os estrógenos. O policloreto de vinila (PVC) é outro tipo de plástico capaz de liberar substâncias carcinogênicas no organismo.
Mas o mundo sempre utilizou plástico no seu dia a dia?
Não!
Os primeiros tipos de plástico sintético surgiram no final do século XIX. Mas foi no início do século XX, por volta de 1930, que polímeros plásticos passaram a ser utilizados como matéria prima na produção de canos d'água, utensílios e embalagens, dentre eles o poliestireno (PS) e o policloreto de vinila (PVC), ambos obtidos a partir de derivados de petróleo. Em 1938, a chamada poliamida (nylon) foi inventada e passou a ser uma das principais matérias primas na produção de vestuários.
A partir de 1950 a utilização de plástico na produção de diversos produtos que consumimos aumentou vertiginosamente. Além disso, a cultura do "descartável" ganhou força em nosso modo de consumir. Em questão de poucos anos, diversos objetos de plástico passaram a ser "descartáveis": copos, garfos, colheres, pratos, garrafas, fraldas etc.
Microplástico acumulado em larva de lagosta
Segundo a revista científica Science Advances (2017), desde 1950 o mundo já produziu 8,9 bilhões de toneladas de plástico.
Onde todo esse plástico está?
Bem, cerca de 29% de todo esse plástico ainda estão "por aí", em uso, porém, cerca de 70,9% foram acondicionados em aterros sanitários, ou pior, descartados em lixões, isto é, como diriam "dois palitos" para boa parte desse plástico ir parar nos rios, florestas e oceanos. Apenas uma pequena parcela do plástico é reciclada (0,06%).
Nos Alpes, nas Fossas das Marianas, no Rio Amazonas, nos charcos pantaneiros, nas águas de todos os oceanos.....
Nada escapa do plástico!
Quantos continentes existem no mundo? Você falou 6? Errou, são 7! Temos América, Ásia, Oceania, África, Europa, Antártida e a ILHA DE PLÁSTICO!
A Ilha de Plástico situa-se no Oceano Pacífico ,entre a Califórnia e o Havaí, ocupando atualmente uma área equivalente a três Franças. Essa ilha é formada por um acúmulo de 1,8 trilhões de pedaços de plástico flutuantes descartados por diversas pessoas do mundo. Todo esse lixo flutuante acumulou-se devido ao chamado "Giro do Pacífico Norte", uma espécie de rodamoinho natural das águas que direcionam lixo, por meio de correntes marinhas, para aquele local do Pacífico. Anualmente, milhares de mamíferos marinhos, peixes, tartarugas e aves aquáticas morrem, ou por ficarem presos nos entulhos plásticos, ou por ingerirem plástico.
Uma tragédia!
Vale ressaltar que, por meio das cadeias e teias alimentares, micro e nanoplásticos acumulados nos tecidos de diversas espécies animais, dentre eles peixes, moluscos e crustáceos, chegam também aos humanos. Não escapamos dessa tragédia, como advertiu em 2016, um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO).
Baleia Grávida Morta devido à grande ingestão de plástico
Talvez a solução para esse grande problema ambiental esteja na revisão de nossas posturas como consumidor. Descartar a cultura do descartável e substitui-la pela cultura do reutilizável é certamente um dos caminhos.
Para que utilizar saquinhos plásticos, se podemos levar os produtos que compramos nos supermercados da vida em caixas de papelão ou simplesmente em sacolas de tecido reutilizáveis?
Jogar lixo na rua, nos bueiros, nos rios e nas praias, então, nem pensar!
Claro que a ciência está fazendo a parte dela, pesquisando materiais biodegradáveis que possam substituir alguns tipos de plásticos. Mas tudo isso será em vão se não fizermos a nossa parte.
Leia também:
1-https://www.iberdrola.com/sustentabilidade/ilha-de-lixo-pacifico-setimo-continente (acesso em 03 de novembro de 2022).
2-https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2022/03/24/cientistas-encontram-microplasticos-na-corrente-sanguinea-humana.ghtml (acesso em 03 de novembro de 2022)
3-https://www.bbc.com/portuguese/geral-48518601 (acesso em 03 de novembro de 2022).
4-https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2022/11/02/baleias-azuis-engolem-10-milhoes-de-pedacos-de-microplastico-por-dia.ghtml (acesso em 03 de novembro de 2022)