“Dogmatics in Outline” de Karl Barth
1. The Task
- A dogmática da Igreja reflecte aquilo que ela afirma no espaço e no tempo—não é algo que cai do céu. Daí que a dogmática da Igreja pode falhar. A dogmática está entre a exegese e a teologia prática, e pergunta: o que devemos pensar e dizer? É também uma ciência crítica e não existiria sem assumir que a proclamação é necessária porque o risco da Igreja se afastar da verdade é real. Nessa medida, a dogmática testa a qualidade da Igreja que a afirma.
- “Holy Scripture is the document of the basis, of the innermost life of the Church, the document of the manifestation of the Word of God in the person of Jesus Christ. We have no other document for this living basis of the Church; and where the Church is alive, it will always be having to re-assess itself by this standard”.
- As confissões, por amadas e respeitadas que devem ser, nunca estão ao nível da Bíblia.
2. Faith as trust
- O facto é que nós acreditamos. E acreditamos por causa do encontro com Deus e com a sua palavra graciosa através de Jesus. Não fomos nós que produzimos este encontro com Deus mas foi Deus que decidiu tornar-se o Deus das pessoas—essa graça é um conceito central. A fé cristã é o encontro com este Deus Emanuel. A liberdade é um dom de Deus, é sermos encontrados com ele. É o encontro de Deus connosco que torna as coisas impossíveis possíveis para nós. A confiança que há na nossa fé baseia-se em Deus me ter escolhido para si—Deus oferecer-se para ser o nosso Deus é o que nos torna livres. A partir daí, não confiamos em nós mesmos, não nos salvamos a nós mesmos, nem sequer precisamos de nos defender a nós mesmos. Abandonados a nós mesmos, faríamos aquilo que os deuses deste mundo fazem: trair a nossa palavra.
- A glória da fé não é termos de fazer alguma coisa mas reconhecer que alguma coisa nos foi feita—a fé é por isso uma permissão, uma liberdade. Logo, não temos fé “por causa de”, mas porque fomos acordados por Deus apesar de tudo o que possamos fazer de glorioso.
- “God is hidden from us outside His Word. But He is manifest to us in Jesus Christ. (…) This hiddenness of God necessarily reminds us of our human limitation.” Fora deste esquema divino, balançamos entre o orgulho e a ansiedade. O que a fé nos oferece é uma relação, uma relação final que pode parecer insignificante ao início mas que é mais poderosa do que a esperteza do Diabo. A fé pode parecer um empobrecimento, ao ser sola gratia e sola fide, mas são as riquezas de Deus que nos são oferecidas—“it is concerned with the whole of living and the whole of dying”.
3. Faith as knowledge
- A fé cristã é a iluminação da razão para vivermos livres na verdade de Jesus e ficarmos seguros acerca do significado da nossa existência e da base e objectivo de tudo o que acontece.
- O Logos tornou-se pessoa e por isso a proclamação da Igreja usa linguagem que não é arbitrária. A fé também se aprende porque não é irracional, anti-racional ou sobre-racional—é racional no seu verdadeiro sentido. Nessa medida, a fé é o verdadeiro conhecimento, a verdadeira ciência. Deus é conhecido quando na sua liberdade se torna compreensível—ele revela-se. Se, por um lado, a fé cristã é um encontro, por outro, é a revelação do Logos diante da nossa compreensão. Quando assim acontece, o homem torna-se verdadeiramente livre porque conheceu Deus. Daqui sai zero de orgulho porque tudo o que era preciso para isto acontecer, não dependeu de nós mas de Deus.
- A fé também é o conhecimento de factos, sobretudo o da ressurreição de Jesus. Mais do que adequar-se aos nossos conceitos tradicionais de ciência, a fé significa viver na verdade de Cristo. A verdade dele não é uma outra entre tantas mas a prima veritas e a ultima veritas.
4. Faith as confession
- A fé é a confiança na liberdade de Deus e isso gera acção no homem—e uma comunidade entre os vários deles. Essa fé é uma obediência: é fé em vez de dúvida, crença errada ou superstição. Relacionamo-nos com Deus de um modo apropriado a Deus. E ser pública, é um modo de a fé mostrar que é mesmo em Deus.
- Deus escolheu não ficar escondido e não ser Deus somente para Deus, mas para nós também: daí sai doxa—glória.
- A linguagem da Igreja tem de ser a da Bíblia, hebraica e grega, das suas traduções, tradições e conceitos temporais. “Where the Christian Church does not venture to confess in its own language, it usually does not confess at all”. Isto não significa que então a Igreja se fecha sobre si mesma mas, pelo contrário, comunica na língua da pessoa na rua. O cristianismo não depende de enunciações mágicas e não tem medo de se traduzir para o povo.
5. God in the highest
- O objecto da fé é sempre Deus. Ele não é achado entre outros deuses ou conceitos do divino ou do religioso, por muito nobres que pareçam. Deus não é a correspondência das nossas expectativas prévias sobre ele. “God in the sense of the Christian Confession is and exists in a completely different way from that which is elsewhere called divine”. É Deus que se volta para nós, não o contrário—ele é que condescendeu connosco, não fomos nós que o encontrámos. Ele é o totalmente outro em relação a nós. Este Deus revela-se no Velho e no Novo Testamento e é daí que vem o que podemos dizer acerca dele. Na Bíblia nem sequer existe a vontade de provar que Deus existe: “in the Bible there is no such argumentation; the Bible speaks of God simply as of One who needs no proof”. A base do discurso sobre Deus é a sua auto-revelação. Não se fala de Deus graça à piedade dos homens mas graças ao facto de ele se ter revelado. O facto de Deus não se provar ou mesmo conceber ou até definir, sublinha que os nossos conceitos não chegam, por muito filosoficamente sofisticados que pareçam.
- “We do not know what love is and we do not know what freedom is; but God is love and God is freedom”. Deus não se encontra na comparação aos outros deuses—ele é completamente outro em relação a eles também. Deus nem sequer pela ideia de monoteísmo é definido. Menos ainda deve ser imaginado (no sentido de criar-se dele uma imagem): se ele se apresenta a si mesmo na sua palavra, isso nos chega.
6. God the father
- A trindade é um conceito fundamental: um em três modos distintos de ser (três pessoas, na linguagem da Igreja primitiva), Pai, Filho e Espírito Santo. Em primeiro lugar, Deus é Pai. Não é o caso de por sermos pais compreendemos que Deus é pai também; é por Deus ser Pai que podemos ser pais também.
- Pelo facto de ser Pai, Deus é Deus duas vezes no Filho; na comunhão entre Pai e Filho, Deus é Deus uma terceira vez no vínculo do Espírito Santo. Toda a riqueza da existência é encontrada aqui e nela temos acção e paz. O facto de Deus nos criar é consequente de este estado paternal que existe no Deus triuno. O homem é filho de Deus, factus e não genitus. Somos filhos de Deus no Filho através do Espírito, envolvidos no seu amor—vinculus caritatis.
7. God almighty
- Quando falamos da bondade de Deus, o conceito de bondade tem de vir dele e não de nós. “God’s power might also be drescribed as God’s freedom”. Mas o poder de Deus não deve ser entendido como uma forma de poder em si—Deus é mais do que a sua potência. Se Deus fosse o seu poder, esse poderia ser um poder satânico—o poder em si mesmo pode ser usado mal. O poder de Deus opõe-se ao poder por si mesmo. Nas Escrituras o poder de Deus encaixa-se sempre na sua lei. “God’s omnipotence as the power of law is thus the power of the God who is in himself love”.
8. God the creator
- É tão difícil acreditar em Deus Filho encarnado em Jesus, obra do Espírito Santo na Virgem Maria, como é difícil acreditar em Deus Pai. Ao falar-se em acreditar em Deus Criador deve falar-se em acreditar na criação também. Ainda que Barth assuma que podem haver elementos de mito no relato da criação do Génesis, considera mais apropriado falar em saga de criação. A lógica do relato bíblico da criação é integrar a história de Israel e, nessa medida, a história do pacto que Deus quer ter com a humanidade. Génesis 1 acentua a importância do descanso no Sábado, Génesis 2 acentua o trabalho como continuação da criação.
- A criação tem de ser compreendida na lógica do que o Deus triuno faz por nós em Cristo. O que acontece na criação é em função da relação que existe entre Pai e Filho. Nessa medida e como seria de esperar, Barth não coloca muita esperança na Revelação Natural até porque sempre que o homem investe muito em conclusões acerca da criação, a idolatria é o resultado mais frequente. Só na revelação de Cristo, que vai muito além do que o eventual conhecimento de Deus a partir da natureza pode dar, pode nascer o verdadeiro louvor.
- “When the Creator has himself become a creature, God become a man, then the mystery of the Creator and his work and the mystery of his creation are open to us in Jesus Christ, and the content of the first article is plain to view (I believe in God, the Creator). Because God has become man, the existence of creation can no longer be doubted—in the christian sense it cannot be that first of all we presuppose the reality of the world and then ask whether there is also a God”. O espanto não é que Deus exista: é que possamos nós existir e também a natureza ao seu lado—esta é a maravilha da criação. “God does not grudge the existence of reality distinct from Himself. (…) That there is a world is the most unheard-of thing, the miracle of the grace of God”. E isto é muito maior do que a tese hoje supostamente charmosa de a natureza ser uma emanação. A natureza não é bela por ser uma parte de Deus, é bela por ser além de Deus e Deus não ter um problema com isso. Tudo o que existe depende de Deus manter tudo além do nada.
- Toda a liberdade humana é um reflexo da liberdade de Deus. A verdadeira liberdade humana é, portanto, aquela que funciona em função de quem a criou para nós, Deus—a verdadeira liberdade que temos é obedecer a Deus. O Diabo e o Inferno não são a criação de Deus mas aquilo que existe além dela, aquilo que Deus passou adiante: o que não é bom, Deus não criou e não tem uma existência de criatura.
- O sustento da criação é a graça de Deus, entendida como a sua palavra. O que existe, existe na palavra de Deus. “By the Word the world exists”: esse é o teatro da glória de Deus, como dizia Calvino.
9. Heaven and earth
- A fé cristã exprime-se livre de imagens, na medida em que não depende daquilo que é tomado como o conhecimento de ponta de uma determinada época. Devemos prescindir de ter uma perspectiva global das coisas independentemente de Deus, ainda que possa ser entendida como uma espécie de mundividência cristã (christian Weltanschauung).
- O evento que está em causa no céu e na terra depende da centralidade do homem—os lugares dependem de quem lá está. O céu tende a ser inconcebível para o homem, ao passo que a terra sim.
- A graça é aquilo com que o homem pode lidar além daquilo que é merecido por ele. Graça é o que é atribuído ao homem além da sua existência terrestre—é o céu que o cobre sobre essa terra. A terra é apenas um dos lados da criação, daí que proceda não dever-se usar a linguagem da imagem da primeira para representar as realidades da segunda, o céu.
- O pacto entre Deus e os homens é mais antigo do que a própria criação: é um modo de entendermos o céu ser anterior à terra. O homem é a criatura da costura, da margem entre céu e terra.
10. Jesus Christ
- “The heart of the object of the christian faith is the word of the act in which God from all eternity willed to become man in Jesus Christ for our good, did become man in time for our good, and will be and remain man in eternity for our good. This work of the Son of God includes in itself the work of the Father as its presupposition and the work of the Holy Spirit as its consequence”.
- Qualquer confissão para ser genuinamente cristã tem de ser acerca de Jesus Cristo.
- Barth critica que a teologia do Século XVII e XVIII se tenha de certo modo virado para o Espírito Santo (Schleiermacher), esquecendo a Cristologia. “Christology is the touchstone of all knowledge of God. (…) The verbum is also the opus. (…) God speaks, God acts. God is in the midst”. Cristo não é uma ideia.
- A existência de Cristo não é em função do homem—é preciso que Cristo salve o homem. É o contrário: o homem só sabe que é pecador graças a Cristo.
- Deus criador torna-se criatura em Cristo. Passa a haver espaço para a alteridade dentro da própria Trindade.
- “The christian message is a historical message”. O Deus que está perto está perto por estar connosco nas profundidades. Em toda a eternidade Deus planeou esse momento. A mensagem cristã não é uma verdade entre outras; é a verdade. Não se pode falar de Cristo em abstracto: ele é história acontecida.
11. The Saviour and servant of God
- Jesus é o Messias judeus mas também o Salvador dos gentios: “his way into the spaciousness of the world leads out from the narrowness of Israel”. Jesus não seria nada sem Israel e o contrário também. “If we thought that church and synagogue no longer affected one another, everything would be lost. (…) The man who is ashamed of Israel is ashamed of Jesus Christ and therefore of his own existence”. Daí a vergonha que o Nacional Socialismo foi (anti semitism as a form of godlessness).
- O Velho Testamento testemunha da uma pequena nação precisar de concretizar uma enorme missão de ser ser socorrida por um Messias que, assim, a torna porta-voz mundial dessa graça: Israel é necessariamente uma imagem da eleição divina. A catástrofe que é o afastamento no VT de Israel dessa eleição, é a catástrofe que se aplica a nós quando tentamos o mesmo.
- Mas a missão de Israel não cessou. A fidelidade de Deus a Israel é a fidelidade dele para connosco também. “Jesus Christ is the fulfillment, is the consummation of Israel”. A sinagoga é a sombra da Igreja.
12. God’s only son
- Quando a Igreja fala de revelação, não é uma revelação dela ou vinda dela mas do próprio Deus. “God’s revelation and God’s work in Jesus Christ is not any event on the basis of God’s will, but is God Himself”.
- Neste capítulo, Barth elogia a luta dos pais da Igreja pela ortodoxia, por muito tacanha que ela pudesse parecer às mentes modernas com quem Barth se dava.
- “The Church is not ‘of the opinion’, it does not ‘have views’, convictions, enthusiasms. It believes and confesses, that is, it speaks and acts on the basis of the message based on God Himself in Christ”.
13. Our Lord
- Acreditar em Jesus como nosso Senhor junta a verdade da sua divindade à verdade da sua humanidade—a sua exaltação está envolvida neste processo.
- A coisa mais essencial acerca da existência de alguém é o que fazer acerca da existência de Jesus.
- Jesus ser o nosso Senhor não tem a ver com experiências místicas mas com uma figura concreta que é ele.
- A humanidade de Cristo é a base da nossa e não o contrário. “Jesus Christ is the man, and the measure, the determination and limitation of all human being”.
- O senhorio de Cristo não é uma afirmação de poder pelo poder—não é apenas potentia mas potestas.
- Obedecer depender de ouvir e ouvir de receber a palavra.
- A nossa pertença a Cristo não depende primariamente de razões morais ou religiosas—ele é Senhor sobre nós. Essa é a nossa eleição e chamada.
14. The mystery and miracle of Christmas
- Sim, temos de acreditar no nascimento virginal. Sim, a segunda vinda de Cristo será um evento. O que está em causa no nascimento de Cristo a partir de Maria é que a palavra tornou-se mesmo uma pessoa. Uma pessoa a sério, como nós.
- “Jesus Christ’s incarnation is an analogue of creation”. Agora Deus já não cria a partir do nada mas a partir da criação cria um novo princípio: o Criador vem até à criatura para se tornar um com ela. Há uma nova história iniciada quando Deus se torna homem.
- Jesus não é uma criatura intermédia, uma espécie de homem: ele é o verdadeiro homem. A verdadeira humanidade não é o que aconteceu antes de Jesus mas o que acontece a partir dele.
- Devemos manter-nos na tradição que afirma a união hipostática, sem a tomar como algo primário defendido por gente antiga e bruta.
- O Natal celebra que no meio da criação a criação recomeça, o milagre dá-se no homem que nasce sem pai—Jesus. E isto não tem nada a ver com os mitos pagãos antigos que punham deuses a procriar com pessoas. “Procreation was realised rather by way of the ear of Mary, which heard the Word of God”.
- O facto de o nascimento ser virginal exclui o masculino humano como o iniciador e José acaba por ser uma personagem secundária e passiva para que o palco pertença somente a Deus que usa a mulher Maria. Deus não quer homens orgulhosos do seu poder natural mas homens humilhados muito melhor representados pela mulher. O melhor que o ser humano poder fazer nesta cena é esta mulher, Maria, dizer um sim a Deus.
- O verdadeiro milagre em Actos 2 é o perdão dos pecados.
15. Suffered
- A vida de Jesus não é um triunfo mas um sofrimento. Barth critica Calvino quando dizia que a paixão de Jesus não pertence à substância da nossa redenção. Barth não comente valoriza o sofrimento de Cristo com o substância da sua obra mas também nota que esse sofrimento esteve muito além da sua paixão: esteve na sua vida inteira. Esse sofrimento não impede que existisse uma alegria constante em Jesus, mesmo tendo em conta que várias vezes aparece registado o seu choro ou angústia e nunca o seu riso.
- Logo o nascimento no estábulo já implica um sofrimento e há uma solidão que já anuncia a posterior cruz.
- É preciso fé para ver o que o verdadeiro sofrimento é.
- Quando Deus se torna homem, ele sofre não tanto pela criação mas pelas criaturas: é pelas pessoas que Jesus é rejeitado. Até nos encontrarmos nesta atitude de rejeição de Cristo, não sabemos bem quem somos—pessoas que negam a graça de Deus. Tudo o que de mal foi feito a Jesus é o que nós fazemos a Deus. Ser um homem é ser colocado diante de Deus de um modo em que a ira divina é a resposta. Também é por isso que Jesus se torna o homem perfeito porque é aquele capaz de levar sobre si essa mesma ira. O filho de Deus precisa de sofrer. A paixão de Jesus é o encontro entre a culpa humana infinita e a reconciliação necessária. “It is here, where God Himself has become man, that the deepest truth of human life is manifest: the total suffering which corresponds to total sin”. Ser um verdadeiro homem é estar diante da ira divina como Jesus esteve. Jesus esteve nesse lugar a nosso favor e o impacto desse facto reconcilia-nos com Deus.
16. Under Pontius Pilate
- Barth diz que Pilatos entra no Credo como um cão que entra numa bela sala. Mas é na vida real, a vivida mesmo em acontecimentos conhecidos que os pontos fundamentais da nossa fé acontecem. “Quando a palavra se torna carne, torna-se temporal, histórica”. “God was not ashamed to exist in this accidental state”.
- Quando o Reino de Deus acontece não se trata de um encontro com o nosso conhecimento mas com a nossa cidade. A existência de Jesus é marcada pelo modo como a cidade do seu tempo se governava—Pilatos está no Credo. E não deixa de ser revelador que ao estar no Credo, Pilatos também permite que o pior do governo da cidade apareça claro. Fica sublinhado o que de mal acontece no governo da cidade e a complicada relação que a Igreja no futuro manterá com ele. “The passion of Christ becomes the unmasking, the judging, the condemnation of this Beast, whose name is polis” (não é por acaso que Nero se tona num capítulo seguinte nesta história).
- Por outro lado, ao cumprir o seu papel na história de Jesus, é como se Pilatos um executivo do Novo Testamento, até uma espécie de fundador da Igreja que junta judeus e gentios.
- O que os cristãos devem desejar em relação à cidade não é o abandono dela a governantes pouco promissores mas a executantes da sua ordem que reconheçam o poder que vem de cima de um modo que Pilatos não reconheceu.
17. Was crucified, dead, and buried, he descended into Hell
- O mistério da encarnação desvenda-se na sexta-feira santa e Páscoa. Os cristãos ocidentais sempre enfatizaram a theologia crucis, ao passo que os orientais a theologia gloriae. As duas deveriam andar mais equilibradas. Exinanitio e exaltatio de Cristo: humilhação e exaltação. Pelo facto de Jesus ser Deus a sua humilhação sai ressaltada. O mistério real da Páscoa não é que Deus seja glorificado (que novidade teria isso?) mas que o homem seja exaltado e colocado à direita de Deus.
- “Man’s reconciliation with God takes place through God’s putting himself in man’s place and man’s being put in God’s place, as a sheer act of grace. It is this inconceivable miracle which is our reconciliation”.
- Barth acha que por Deus achar que não é absurdo que o homem se torne Deus em Jesus, é como se Deus soubesse perdoar-se a si mesmo ao esticar os limites da sua própria divindade. Jesus mete-se no lugar da criatura para dar uma resposta melhor ao pior que nela existe. “So great is the ruin of the creature that less than the self-surrender of God would not suficce for its rescue. Reconciliation means God taking man’s place.”
- Em Cristo, Deus julga o homem e torna irresistível a sua graça. Ele é crucificado, morto e enterrado. Desce ao Inferno que também é experimentar uma vida de não-vivo, de sombra. O pior tormento passa por essa não-existência, essa separação de Deus. “Godlessness is existence in Hell” (que o ateu não sabe o que é). O homem que não tem Deus tem o Inferno que é o lugar onde ele não está: tem o que desejou.
- Jesus vai ao Inferno para que o Inferno deixe de existir para quem recebe a sua graça. O castigo foi vivido por ele para nos ser tirado a nós.
18. The third day he rose again from the dead
- A ressurreição também serve para Deus respeitar a sua boa reputação. No que diz respeito à exaltação do homem é preciso entender o papel do pagamento do resgate que Cristo conclui: começa aqui uma nova história desse homem e uma nova forma do mundo—a vitória de Deus em favor do homem já está ganha. Não podemos viver com uma “humourless existence of a man who mas no hope”. A ressurreição não é apenas um acontecimento espiritual.
19. He ascended into Heaven, and sitteth on the right hand of God the father almighty
- O trabalho de Cristo funda a Igreja que conhecendo a ressurreição sabe que a omnipotência divina e a graça de Deus nele convergem. Com isto inaugurou-se um novo tempo que é o da igreja, os últimos dias. Passou-se do tempo da revelação para o nosso tempo. Jesus já não ocupa o nosso espaço, mas o espaço da sua ascensão—está acima do nosso espaço.
- Na encarnação e na crucificação está a humilhação de Deus, mas na ressurreição está a exaltação do homem. Jesus, agora como representante da humanidade, está onde Deus está e como Deus é—a nossa carne está com ele.
- Temos sempre de juntar a omnipotência de Deus à sua graça.
- A identidade de Jesus como Deus e homem significa que o trabalho de Cristo foi concluído.
- O conhecimento de que Deus é omnipotente e gracioso não nos faz preguiçosos mas coloca-nos obedecendo à comissão dada por Jesus. O fim da acção de Jesus aqui também significa o início de outra acção, mais nossa.
- Um reparo muito importante: “the life of the saints is not a prolongation of the revelation of Jesus Christ upon earth. That would contradict his ‘It Is Finished’.” O que está em causa na vida da Igreja não é uma repetição da vida de Cristo mas um reflexo.
- A Igreja avança em direcção ao mundo para testemunhar diante dele porque o fim do trabalho de Cristo é o princípio da sua acção. O início da era da Igreja é o princípio do fim do mundo. É o tempo do intervalo, o tempo da grande oportunidade, o tempo da missão da Igreja. É preciso ouvir o bater da porta. Há um tempo muitas vezes marcado pelo conflito entre Igreja e Estado.
20. The coming of Jesus Christ the Judge
- O que a Igreja recorda é o que a Igreja espera e por isso esta esperança é o que ela oferece ao mundo.
- Se é certo que o trabalho de Cristo é parte do passado, o que realmente é do passado é o mundo do pecado e a maldição dele. O verdadeiro presente é Cristo sentado à direita do Pai. É uma nova dimensão do tempo que temos para, enquanto Igreja, receber. A sessão de Jesus diante de Deus não é um extracto do tempo mas é o novo tempo—o Alfa e o Ómega. O que se recorda é o que se espera. Daí que na Bíblia se fale tanto de um tempo que chega. Não somos nostálgicos, por isso. Somos esperança.
- Temos de oferecer esta esperança ao mundo, reconhecendo também a nossa diferença dele.
- Jesus vem julgar. Diria que se nota algum desconforto em Barth, pelo menos nas conclusões que ele tira acerca do facto. Prefere sublinhar que Jesus tira a maldição do homem do que, propriamente, indicar quem sofrerá essa maldição por recusá-lo.
21. I believe in the Holy Ghost
- Espera-se o melhor para todos os homens baseado na graça de Deus. Há uma fé no homem na medida em que Deus se identificou com ele no trabalho consumado de Cristo. Há uma ligação geral de todos os homens com Cristo, e, nesse sentido, ele como irmão deles. Nessa medida, ninguém deve falar sem humanidade. Logo, falar do Espírito Santo é reconhecer que o trabalho dele como a maior esperança que existe para a humanidade—essa é a maior liberdade que existe, a que Jesus soprou em nós. O novo nascimento também é isto.
- Nesta parte sinto a fraqueza de o Barth ser tão “humanista”, algo fugidio de afirmações mais claras acerca da natureza trinitária obviamente mais transcendente.
22. The Church, its Unity, Holiness and Universality
- Barth acha que a sua época era mais feita do que se dizia acerca da Igreja do que do que se vivia a Igreja.
- A igreja significa o “juntar-se”/coming together/ekklesia/assembleia. Essa gente está junta porque através do Espírito Santo pertence a Jesus. Não é possível falar-se de crer no Espírito Santo sem se crer na Igreja. Tudo isto não vem de uma decisão de pessoas, mas de uma convocação divina.
- Falar de uma Igreja Universal pode levar-nos a uma civitas platonica. A Igreja é sempre uma congregação visível e primeira provocou reacções fortes. Uma Igreja que não se vê, não é uma Igreja.
- Também é preciso dizer que uma Igreja que se vê, é uma Igreja onde se vêem também os seus problemas: o NT confirma-o repetidamente.
- “Credo ecclesiam means that I believe that in this visible assembly the work of the Holy Spirit takes place”—o Espírito Santo não é pequeno demais para ser capaz de assumir uma forma dessas.
- “Os cristãos mais ecuménicos não são os que trivializam as diferenças entre eles mas o que concretamente são Igreja”, onde dois ou três se reunem em nome de Jesus.
- A Igreja Católica significa aquele que durante todos os tempos foi realmente Igreja—não depende da afirmação humana institucional mas da substância de ser-se Igreja.
- A verdadeira Igreja não se governa democraticamente ou monarquicamente—governa-se por Jesus Cristo, quando a sua palavra é pregada no poder do Espírito Santo. O governo da Igreja deve ser como a Bíblia: testemunha de Cristo. A Igreja deve continuamente ocupar-se da exposição e aplicação das Escrituras.
- Barth fala na natureza da Igreja manifestar: proclamação da Palavra, administração dos sacramentos, uma liturgia (mais ou menos desenvolvida), aplicação da lei eclesiástica (disciplina), e, por fim, a sua teologia.
- Onde a Igreja está, está o Reino de Deus. Aí está também a esperança cristã, que é uma revolução maior do que qualquer outra: esperança disciplinada.
23. The Forgiveness of Sins
- É-se cristão por causa do perdão dos pecados: a ressurreição futura vem daqui. É para aqui que o homem olha quando olha para trás. Todo o nosso passado é perdão—toda a nossa existência é sujeita a julgamento. Todos os dias devem viver sob essa consciência do perdão dos pecados e especialmente a nossa morte.
- Esse perdão vem do Gólgota e o baptismo ensina-nos que a morte de Jesus também foi a nossa.
- As acusações terminam para mim porque a justiça de Jesus tornou-se a minha: é isso que o perdão dos pecados significa.
- O perdão dos pecados nunca pode significar uma existência passiva. Pelo contrário: é a maior acção possível. É a maior liberdade, a maior disciplina, a maior piedade e o melhor modo de ser do mundo. “What does not pass over this sharp ridge of forgiveness of sins, or Grace, is not christian”.
24. The Ressurrection of the Body and the Life Everlasting
- Quem não encontrar beleza nesta vida também não encontrará na que está por vir. A morte traz-nos um dilema.
- “Resurrection means not the continuation of this life, but life’s completion”.
- A vida future é para ser acreditada apesar da morte. Não sabemos o que é a morte nem sabemos o que é a ressurreição mas temos esperança.
- A ceia do Senhor deve ser altamente pascal porque ela não é somente uma imagem ou um símbolo, é também um evento: a morte vai morrer.




















