Marcha Fúnebre por Kevin Coldibeli
Parecia que o dia em si não queria ter começado, que estava em um torpor pela transição entre lua e sol no papel principal desse pedaço de universo que nós humanos teimamos em chamar de nosso.
Hans definitivamente destoava das pessoas no geral, sensíveis ou insensíveis; a começar pelos seus singelos 2,10cm de altura, que o faziam notável desde que este entendeu que esse mundo estava todo errado (não poderia ser ele o errado, jamais).
Como de costume, não atinou em seguir o mau exemplo, que diga-se de passagem é sempre mais fácil de seguir do que o bom exemplo. Seu despertador, talvez pela décima vez, apontava 8:44 da manhã, hmmm… isso não era nada bom. Visto que seu expediente se iniciava às 9:30 e era a 2 horas de distância da sua casa, ele já deveria estar bem longe da sua cama.
Morava sozinho, isso fazia tanto tempo que às vezes era como se ele tivesse brotado da terra, talvez isso explicasse a sua dificuldade em sentir o que as outras pessoas sentem, sentimentos.
Preferia não chamar muito a atenção para si, mas como nascer de novo com menor estatura não era uma opção, sempre optava por roupas que fossem o menos chamativas quanto o possível, pelo menos na sua cabeça.
Os tons escuros eram a sua preferência, sendo verde escuro e preto quase que uma exigência; a primeira cor combinava e contrastava com seus olhos, de mesmo tom, porém ligeiramente mais claros, e a segunda, infelizmente, arrisco dizer que combinava com a sua alma. Os coturnos de couro que serviriam tranquilamente como veste de militar, eram, por excelência, o seu par de calçado de praticamente todos os dias, completando o traje daquele que parecia mais uma fortaleza a um humano. No final das contas o não querer chamar a atenção para si foi o que, na verdade, fê-lo atrair ainda mais.
Da janela de seu quarto era possível ouvir o barulho do trânsito, as trocas de marcha dos pesados ônibus do subúrbio em consonância com o canto de passarinhos aqui e ali. Começava mais um dia no subúrbio, menos um dia.
Subindo a rua em direção ao ponto de ônibus, Hans sabia que chegaria ao serviço no mínimo 1 hora atrasado. Sentia-se como que feito de isopor, estava difícil sentir qualquer coisa por qualquer motivo que fosse. Nesse sentir o não sentir, ele conseguiu continuar caminhando em direção ao ponto de ônibus, tal qual algo que cai e não tem como ignorar a gravidade.
A falta de verde e o excesso de cinza e marrom daquele pedaço de cidade, pensava ele, podia ter relação com o ar seco, poluído e opressor que alimentava os pulmões daquela gente que em piloto automático seguia ou não para cumprir suas tarefas diárias sem talvez se darem conta disso. “Talvez” porque é sempre mais fácil se achar um peixe fora d’água, um sofredor à capela, quando, na verdade, existem mais pessoas sensíveis no mundo do que insensíveis, por mais difícil que isso possa parecer.
Já no ônibus, aquele balançar trôpego no zigue-zague das ruas esburacadas em cânone, o choro de um bebê parecendo recém-nascido no colo de sua mãe e um vendedor ambulante tentando tirar o seu não foram suficientes para impedir que aos poucos os olhos de Hans se fechassem até que a escuridão do mundo do sono o abraçasse.
— Acorda grandão, vamos lá…! Você só pagou por uma passagem!
De repente, a existência na não-existência de Hans, pelo menos do modo racional como a conhecemos, havia sido interrompida por essa frase pouco amistosa do que parecia ser o motorista do coletivo. Hans percebeu que acordara no ponto final do ônibus e que estava realmente encrencado.
Seria a terceira vez na semana que ele iria se atrasar. Seria, de acordo com sua chefe, a última vez, pois ela achava que ele não teria mais problemas do que ela, que era praticamente vizinha do bairro da empresa, que justificassem tantos atrasos em uma semana. Ele tinha uma chance de ouro, algumas empresas nem ao menos contratam estagiários para essa função, era um luxo que eles haviam se dado — Hans era privilegiado.
— Vamos grandão! Levanta essa bunda daí! Você é grande, mas não é dois, senão eu você vai levar um lero com o segurança da rodoviária!
Antes que aquele senhor tão vítima da exploração da mão de obra barata quanto ele se desse ao trabalho de descer do ônibus e chamar alguém, Hans se levantou e saiu do veículo sozinho.
Próximo ao terminal, um cortejo seguia em direção a um cemitério que ficava nos arredores. Hans não saberia explicar em palavras, de que idioma fosse, a força que o impeliu a seguir aquela caravana.
As pessoas que notaram aquela presença, digamos “peculiar”, do jovem de 2,10cm agora junto ao cortejo estranharam um pouco, mas de alguma forma foram levados a continuar o que estavam fazendo. Seguiram em cortejo para o enterro daquela pessoa cuja importância da vida foi suficientemente vivida e dispensa maiores detalhes do aqui escritor.
Foi isso que fez. Fez porque era o que tinha que fazer, porque era o que tinha sentido que deveria fazer… Sim! Ele havia sentido! Ele finalmente entendia o que era o sentir de que tanto ouvia falar. Pela primeira vez sorria, gargalhava, até pulava e soluçava de tanta alegria, parecia uma criança que não precisava se preocupar com a próxima refeição.
Hans só não entendia a perplexidade das pessoas que viam essa cena, pessoas com dificuldade de entender, talvez, que os 7 palmos de terra jogados pelos coveiros separavam-nas daquela pessoa cuja existência, mais uma vez, não carece de notas explanatórias.
Então tudo parou. Só havia silêncio; silêncio e escuridão. Não aquela escuridão que a gente aprende a temer em detrimento da luz brilhante e pulsante do fim do túnel, essas alegorias… Essa era confortável, aconchegante e fazia tudo o que antes não tinha um sentido, obtê-lo a partir daquele momento. Hans descobriu na morte a felicidade que os outros costumam conhecer em vida: a própria noção de vida.













