Periscópio 6 - O despejo quieto de pedacinhos de ossos: o atual e o virtual na escrita ensaística de Luis Maffei e Manuel de Freitas - Kigenes Simas
Resumo: O presente artigo é uma análise comparada dos procedimentos de leitura de poesia de Luis Maffei em Despejo Quieto e de Manuel de Freitas em Pedacinhos de Ossos. Nossa abordagem parte do problema do tempo, ou mais precisamente, de duas modalidades temporais pressupostas em tais procedimentos, a saber: o virtual e o atual. Pretendemos pensar a passagem entre essas modalidades no decorrer do trabalho de leitura de poesia. Acreditamos que nos livros em questão, os autores constroem a partir de uma variação dinâmica entre esses tempos múltiplas formas de se relacionar com o poético.
Palavras-chave: Crítica de poesia, temporalidade, procedimentos de leitura, Luis Maffei, Manuel de Freitas.
Abstract: The present article is a comparative analysis of poetry reading procedures between the book Despejo Quieto, by Luis Maffei, and Pedacinhos de ossos, by Manuel de Freitas. Our approach starts from the question of time, or, more precisely, the two temporal modalities assumed in such procedures, namely, the virtual and the actual. We intend to think about the transition between these two modalities in the process of the reading of poetry. We believe that in the books mentioned, the authors build, by the use of dynamic variations between these temporal modalities, multiple forms to relate to the poetic.
Key words: Poetry criticism, temporality, reading procedures, Luis Maffei, Manuel de Freitas. Escrever crítica literária é experimentar a distância entre o tempo da escrita e o da leitura. Experimentar, portanto, a disjunção entre o atual e o virtual como elemento constitutivo desse gesto. Toda escrita ensaística lança-se atualmente à virtualidade daquilo que lê. O que acarreta dizermos que esse lançar-se é também uma abertura na qual o objeto de análise reage virtualmente à atualidade de quem o lê. Isso, se entendermos a palavra reação não em um sentido físico (uma força reagindo à outra força contrária), mas em um sentido químico (uma transformação mútua na composição de duas substâncias reagentes). Todavia, não poderemos mostrar o alcance dessa transformação sem precisarmos primeiro o que entendemos por atual e virtual. A referência é Gilles Deleuze1. Para tanto, partiremos de duas frases do filósofo francês:
1) “o virtual possui plena realidade enquanto virtual” ( Deleuze, 2006, p.294).
2) “Todo atual rodeia-se de círculos sempre renovados de virtualidades, cada um deles emitindo um outro e todos eles rodeando e reagindo sobre o atual” (Idem, p. 315)
Devemos lembrar que o que está em jogo nessas proposições não é a continuidade entre dois tempos (o virtual e o atual), mas a diferença entre duas modalidades de tempo. Por isso, para Deleuze, o tempo virtual não se caracteriza por uma ausência de real que o tempo atual viria suprir por meio de uma realização, pois, segundo o filósofo, tal ausência de realidade é aquilo que marca o possível e não o virtual “o único perigo é confundir o virtual com o possível. Com efeito, o possível opõe-se ao real; o processo do possível é, pois, uma realização. O virtual, ao contrário, não se opõe ao real, possui plena realidade. Seu processo é a atualização”(Idem, p. 298) Sendo assim, qual seria a diferença entre realização e atualização?
Segundo a distinção de Deleuze, o que marcaria a passagem do possível ao real seria somente a realização do primeiro pelo segundo, como se em ultima instância o possível nada mais fosse do que um conjunto de imagens semelhantes, mas não realizadas, do real. Em outras palavras, uma reserva de possibilidades que espreitariam o real como fantasmas que não vieram à vida. Assim, se o possível aparece como uma reserva de fantasmas, o virtual, pelo contrário, seria uma potência de diferenciação que impossibilitaria o fantasma, na medida em que cada atualização produziria a irredutível diferença entre os atuais e não um reserva de semelhança entre eles. Em linhas gerais, podemos pensar a realização do possível como retorno do mesmo e a atualização do virtual como retorno do diverso. Dessa forma, quando dizemos que a escrita ensaística lança-se à virtualidade daquilo que lê não queremos dizer que ela se lança na tarefa de realizar uma entre outras leituras possíveis dos textos e sim que ela atualiza uma potência de relações diferenciais que reagem a cada leitura.
Para fins puramente conceituais, devemos distinguir, a partir de Deleuze2, duas modalidades de tempo que perpassam a escrita ensaística: tempo atualmente virtual (leitura) e tempo virtualmente atual (escrita). Em termos restritos a nossa investigação, entendemos por atualmente virtual um tempo que atualiza a virtualidade daquilo que é lido no momento em que entra em relação com ele (em uma leitura atual) e por virtualmente atual as relações diferenciais de leitura com as quais a escrita entra em relação, ou melhor, reage temporalmente (através do ato de escrever). Partimos dessa distinção não para destacar dois processos diferentes de relação com o tempo e sim para entender quais relações de tempo estão implicadas em tais experiências com o texto literário (ou mais especificamente com a poesia). Nos limites daquilo que pretendemos pensar, os procedimentos de leitura de poesia de Luis Maffei 3em Despejo Quieto (2015) e os de Manuel de Freitas4em Pedacinhos de Ossos (2012), tal distinção se faz necessária na medida em que é através de um processo de leitura que se escreve junto aos poemas e de um método de escrita que se lê por meio deles que tais investigações críticas a cerca da poesia operam. Com isso, observa-se nelas uma modalidade de tempo poética que complica as anteriores por fazê-las passar uma na outra. Para retornamos os conceitos com que com que abrimos esse parágrafo: nesses procedimentos os poemas (enquanto modalidades temporais) fazem passar a atualidade virtual das leituras na virtualidade atual da escrita.
Porém, não se trata dos mesmos meios, nem tampouco dos mesmos modos, quando tratamos dessa passagem nos ensaios de Luis Maffei e Manuel de Freitas. Para pensarmos as diferenças entre eles, devemos começar pelos títulos dos livros ensaísticos desses autores nos quais nos debruçaremos: Despejo Quieto e Pedacinhos de Ossos. O primeiro é o de Luis Maffei, retirado de um verso de Luís de Camões “Um despejo quieto e vergonhoso” (Camões, 1974, p. 112 ). Como afirma o autor, “o sintagma é propositalmente extirpado de um soneto, perdendo os sentidos que lá se produz” (Maffei, 2015, p.8). Nas linhas seguintes, ele nos explica que despejo é falta de pejo, de pudor Trata- se, dessa forma, da perda de pejo, mas também dos “sentidos que lá se produz”. A ausência de pejo em relação a Camões se faz junto a certa perda de sentidos. Não seria o despudor a perda de certas coordenadas morais que nos permitiria experimentar sensualmente todos os sentidos, inclusive os semânticos? Mas como experimentar essa perda em quietude? Talvez, na leitura, toda perda de coordenadas seja quieta, principalmente quando lembramos que toda leitura é um movimento sobre a quietude das palavras. Isso nos leva a crer que para Maffei é preciso perder “os sentidos que lá se produz”: o Camões possível, pensado como um conjunto de possibilidades já previstas pelo texto. Para criar, através de relações diferenciais de leitura, um Camões virtualmente atual, ou seja, capaz de atualizar a quietude (virtualmente em movimento) dos seus poemas. Mas o que vale para Camões, vale também para poesia. Não que toda poesia, no caso a portuguesa, tenha algo a dizer sobre Camões. Pelo contrário, é Camões, enquanto modo de leitura do fazer poético, que tem algo a dizer da poesia, ensina-nos Maffei.
Como se sabe, a referência no título de Freitas não é Camões, mas Camilo Pessanha. No entanto, nos versos de Pessanha escolhidos por Freitas ressoa uma Vênus 5camoniana. Nos versos do poeta de Clepsidra, a Deusa de “Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...” (Pessanha,1989, p.30) é feita de ruínas, das ruínas de um desejo erótico. A ruína erótica do corpo já está em Camões, mas em Pessanha a Vênus é marcada muito mais pelo desgaste amoroso do que por aquilo que leva a ele. Dessa forma, se o título de Maffei remete ao “Mágico Veneno” de Camões: o erotismo náufrago do amante. O de Freitas nos traz o Veneno Mágico de Vênus: o naufrágio erótico do amor. No título de Manuel de Freitas o amor se confunde com suas ruínas. A ruína, como já formulou Walter Benjamin (2010)6,é um traço de tempo desfigurado de um passado irreconstruível. Duas perdas são assinaladas por meio dela: a perda irrecuperável da figura que o passado tinha de si mesmo e a perda do ideal de refiguração do passado no tempo atual. O que resta na ruína é o desencaixe entre o passado e o presente como caraterística da história. No caso de Feitas, a ruína em poesia é aquilo que impossibilita lermos o passado (histórico, mas também o da escrita do poema) como um fantasma de semelhanças reencarnadas no presente, ou, como reserva fantasmática de um de presente não realizado. Nesse sentido, podemos ler o tempo sem qualidades que Freitas formula no ensaio “Tempo dos Puetas”, como um tempo em que os poetas abdicaram de realizar qualquer ideal de poesia previamente estabelecido. As implicações desta escolha para aquilo que viemos tratando até aqui, a passagem do atualmente virtual ao virtualmente atual, são muitas. A principal delas é o modo como a poesia, na leitura de Freitas, interpõe entre o possível e o real um brecha de não-coincidência pela qual o virtual e o atual passam . Em Freitas, um poema é, na maioria das vezes, um modo de arruinar a pretensa continuidade entre um ideal supostamente atemporal de poético e sua imagem fantasmática atual.
Ainda a título de hipótese podemos dizer que no primeiro (Luís Maffei) a perda de sentidos prévios abre-nos para uma prática erótica da leitura, marcada pela quietude virtual do sentido, quietude daquilo que sempre está virtualmente em movimento. Já o segundo (Manuel de Freitas) interpõe entre o possível e o realizável( na história, mas também na leitura) pedacinhos de ossos, isto é , restos não integráveis pelos quais a virtualidade diferencial entre os tempos se atualiza. Para explorarmos essa diferença como mote, ou motor de múltiplas relações com poético, partiremos do modo como em cada livro o tempo virtual e o atual passam um no outro. Ainda que esses termos não sejam explicitamente usados por nenhum dos dois autores. Não se trata de uma análise de mecanismos de leitura, mas de procedimento com o poético que implicam o tempo. O tempo como variedade de relações entre leitor e texto, mas também entre texto e mundo. A textualidade temporal do mundo que nos chega pela leitura de poemas está sempre à vista desses dois leitores. É por meio dela que pretendemos nos relacionar com a singularidade de seus procedimentos.
Kigenes Simas é doutorando em literatura comparada da Universidade Federal Fluminense (UFF) com bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
1 Deleuze conceitua esses termos em vários de seus textos. Para os fins que nos propomos aqui, interessa-nos particularmente o tratamento que o filósofo dá a eles em Diferença e Repetição (2006).
2 Dizemos “a partir de Deleuze” porque tomamos a liberdade de fazer uso dos conceitos deleuzeanos em um conjunto de problemas de nosso interesse.
3 Luis Maffei é poeta, ensaísta e professor de literatura portuguesa na Universidade Federal Fluminense. Publicou, entre outros títulos, os livros de poemas A( Oficina Raquel 2006) Telefunken ( OR 2008 – edição portuguesa Deriva, 2009) 38 círculos ( OR 2010) e Signos de Camões (OR – Portugal, Cia das Ilhas 2013). Tem uma extensa produção bibliográfica de ensaios sobre literatura portuguesa, uma parte dela encontra-se reunida em Despejo Quieto( 2015).
4 Manuel de Freitas é poeta, ensaísta e editor junto com Inês Dias da editora Averno. Em sua vastíssima produção poética, destacamos Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras ( Black Son, 2001) Game Over (& etc, 2002) [SIC] (Assírio & Alvim, 2002) Terra Sem Coroa (Teatro de Vila Real, 2007) etc. Pedacinhos de Ossos (2012) é uma reunião de ensaios publicados na década de 2000.
5 O poema de onde Manuel de Freitas retirou o título do seu livro chama-se Vênus e retrata o a emergência de Vênus entre ruínas de naufrágios.
6 O que se segue a partir daqui é uma leitura indireta do desenvolvimento do conceito de ruína tema nas “Teses sobre o conceito de História”. Principalmente das teses VI e IX onde o conceito aparece atrelado a articulação de novas temporalidades históricas.




